Eu Segurei a Morte nos Braços

1013 Palavras
Bruno Eu não sei que horas eram, o tempo parou ali, entre o estrondo do tiro e o som do corpo dela caindo nos meus braços,Milena caiu como quem entrega o último suspiro não por si, mas por alguém que amou até sangrar,por mim.e eu? eu só soube gritar,não foi um grito de raiva,nem de dor,foi o tipo de som que um homem faz quando perde a única coisa que dava sentido à guerra,um som sem forma,sem freio,sem alma, ela tomou o tiro por mim,Solange apontou e atirou, Milena se moveu como se já soubesse,como se tivesse vindo ali só pra isso,só pra se colocar entre a bala e eu, e a bala entrou,silenciosa, perfeita, maldita, ela caiu nos meus braços,ainda quente, o cabelo dela se desfez do coque perfeito e grudou no meu pescoço, o sangue escorreu como um rio antigo,manchando minha camisa, e eu só consegui dizer: — “ Não pode terminar assim Mi.” —Eu disparei contra tudo e todos,matei três,talvez quatro,não sei,meus olhos estavam cegos,meus dedos duros no gatilho, o corpo dela ainda ali, nos meus braços, como uma promessa quebrada,só parei de atirar quando a arma clicou,seca,vazia, e foi aí que eles vieram, os capangas de Solange, com ódio, com pressa,ela disse: — “ Deem uma boa surra nele,mais não o matem,ele tem que viver, Ele vai viver o resto da vida lembrando do peso que carregou no colo.” A surra foi brutal,chutes,cassetetes,pés quebrando costelas,punhos esmagando minha boca,mas nada doía mais do que olhar pro chão… e ver o corpo dela ali, frio, imóvel, e depois…nada,quando acordei, estava num beco sujo,coberto de sangue seco, com os pulsos doloridos e a cabeça latejando,tateei meu corpo,sem arma,sem celular,sem nada,me levantei com dificuldade,cada osso meu gritava,mas só uma coisa me importava, cadê ela? Eu voltei pro galpão,estava vazio,nada além do cheiro da morte e o gosto amargo da perda, o chão ainda tinha marcas de sangue,mas o corpo dela não estava lá, a primeira coisa que pensei foi:“Levaram o corpo.” mas por quê? pra esconder? pra jogar fora? pra me enlouquecer? porque funcionou, eu enlouqueci. eu fui até o Bene, fui até Thiago, Fui até a Yakuza, perguntei, gritei, quebrei,mas ninguém sabia de nada,ou fingiam não saber, comecei a achar que eu tinha sonhado,que ela nunca caiu, que o sangue era meu, mas o buraco no meio na cabeça dela…Eu lembro, eu vi, no velório que organizamos sem corpo, eu não falei nada, fiquei em pé no fundo. A filha dela "nossa filha" estava nos braços da minha irmã, Alessandra, ela ainda é muito pequena, e talvez por isso, dormiu o tempo todo, ou talvez… só as crianças entendam que o silêncio carrega as maiores verdades,Meu pai viu minha mãe sangrar em seus braços,ele entendeu minha dor,vinte dois anos depois e ele ainda sente a morta da minha mãe,sera esse tambem o meu destino? Nos dias que se seguiram, fui atrás de tudo,Solange tinha desaparecido, Gustavo também, e nada, absolutamente nada apareceu sobre o paradeiro de Milena, nem viva,nem morta, era como se o mundo tivesse tragado ela inteira,eu me tranquei por semanas, ninguém me reconhecia mais, parecia que eu tava vivo por acidente, e talvez estivesse mesmo, porque parte de mim…morreu com ela ou…foi com ela,mas aí veio o detalhe, a semente da dúvida, a faísca, Fábio. me lembro do que ela disse quando enterrou o Fábio? — “Nem tudo que morre…precisa ser enterrado.” E eu lembro bem, Milena era especialista em desaparecer, em fingir, em escapar, então comecei a investigar do outro lado, nos porões do submundo, nos arquivos esquecidos, e foi aí que vi, nenhum hospital registrou entrada de corpo feminino baleado naquela noite, nenhuma funerária foi chamada, nenhuma câmera de segurança na área estava ativa, nada, era como se alguém tivesse apagado tudo, voltei ao beco onde acordei, ohei pro chão, e nada e aquilo me destruiu, porque uma parte de mim quer acreditar que ela está viva, que forjou a própria morte, que fez tudo por p******o, por estratégia, mas a outra parte… a outra parte carrega o peso do corpo dela, mole nos meus braços, o cheiro do sangue nos meus dedos, o som s***o do disparo. Hoje, três meses depois, eu durmo com uma arma debaixo do travesseiro, a filha dela dorme no quarto ao lado. E o nome "Milena" ecoa em mim como oração e maldição, todos os dias acordo esperando uma mensagem, uma carta, um sinal, nada, todos os dias olho pra porta, como se ela fosse abrir e dizer: — “Você realmente achou que eu morreria tão fácil assim?”— Mas não abre, se ela estiver viva… ela vai voltar,Milena nunca foi de sumir por covardia,se ela estiver morta…então eu vou caçar cada desgraçado que a tirou de mim,Solange,Gustavo, e até o próprio Deus, se for preciso, porque eu não perdi uma mulher, eu perdi uma era,um furacão,um império inteiro, que batia com o coração dela, e se ela estiver lendo isso, de onde estiver… — “Milena,eu não perdoo, nem você,nem eu,nem o mundo, mas eu espero,porque a gente sempre soube não somos feito de amor ,somos feito de guerra.” Quatro anos se passaram desde que Milena caiu nos meus braços, e eu ainda durmo do lado esquerdo da cama, como se ela fosse voltar,mas agora tem uma criança que me chama de pai,e o nome dela é Maria, eu soube no primeiro olhar, ela era a filha da Milena, veio ao mundo pronta pra brigar, pra tomar espaço, pra ferir, se precisasse, mas também pra amar… com a mesma intensidade selvagem que destruiu e salvou a mãe dela tantas vezes, os olhos dela… são verdes, como os do Fábio, eu odeio admitir, mas toda vez que ela me olha, é como se aquele maldito estivesse ali, rindo, vivendo através dela, nos primeiros meses, evitei pensar nisso, depois, aceitei, agora? convivo, porque Maria não é o Fábio, nem a Milena, ela é o reflexo do que restou de nós, e, talvez, o que ainda possa nos redimir.
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