Capítulo Dois.

2495 Palavras
Chego à biblioteca para as minhas pesquisas. Adoro este silêncio e o clima solitário, mesmo com algumas pessoas concentradas em suas mesas. As cortinas de cor marrom das grandes janelas permitem que a claridade não atrapalhe. As cadeiras, mesas em branco e as inúmeras sessões de livros me fazem viajar sem perceber que as horas voaram. Faço alguns relatórios, depois de algumas horas, deixo o lugar com tudo pronto. Já em casa, sigo para o meu quarto e preparo a minha bolsa do jogo. Coloco as meias, shorts, camisa, top, chuteira, tornozeleiras e caneleiras. Com tudo pronto, rumo para buscar a Mel. — Oi! Como foi a entrevista? — Deu tudo certo. Era minha terceira eliminatória, mas consegui! — Gosto de sua animação. — Parabéns! Fico feliz por você. Ela está no último período da faculdade e precisa do estágio. Eu irei me informar sobre algumas empresas para me candidatar também e pedirei dicas sobre as entrevistas. Falamos sobre coisas de nossa rotina, comentamos sobre as nossas famílias. — O jogo é só de homens? — Sim, meus irmãos e amigos, que te garanto, valem a pena. — Estou gostando — fala como se estivesse cantando, rimos juntas. Chegamos ao estacionamento. Sem perda de tempo, arrumo uma vaga próxima. É um espaço que fica em uma avenida bem movimentada. Conta com dois campos gramados e uma lanchonete. A área é ampla, com muito verde. Assim que encontro os meus irmãos, vejo o olhar do Rafa para Mel. Eu sabia! Ele sempre gostou de mulheres exóticas, e a minha mais nova amiga, com seus longos cabelos e ruiva, tem estes atributos. — Rafa, esta é a Mel — apresento-a. — Prazer Mel! — Sorri para ela. Vejo-a ficar da cor do cabelo. — Prazer é meu. — Sorri. — Este é o Rogério, meu outro irmão ― esclareço. — Prazer. — Ela o cumprimenta estendendo a mão. — Vai trocar sua roupa, Tina. Entrego o seu colete quando voltar. — Roger manda e me aponta o local. Entro no vestiário, os bancos são pintados de azul e o piso cinza claro. Reparo nas várias duchas, e o que me chama atenção é a banheira de hidromassagem: a vontade de ficar por ali é tentadora. Troco-me e guardo minhas roupas no armário. Com tudo pronto, saio e encontro com Nando. Olha-me da cabeça aos pés e sorri. — Você fica bem assim. — Obrigada, estava pensando o mesmo sobre ti. — Vem! Vamos montar os times — Roger chama. Quando me aproximo observo Rafael e Mel rindo. Estou gostando dessa interação entre eles. — Mel, posso deixa minha água e toalha aqui? — Você não falou que ia jogar. — É claro que vou, uai! Os jogadores me encaram, como quem diz... O que essa patricinha faz aqui? Não me importo, pois sei que irão comemorar quando eu balançar a rede dos adversários. — Gente, essa é minha irmã, ela vai jogar com a gente, tudo bem? — Rafa me apresenta. — A Tina é do meu time — Roger comunica a todos. — Cara, mas ela é uma garota, vamos machucá-la! — um dos uniformizados do time com coletes verde reclama. — Veremos, Pedro — Rafael fala e me joga o colete vermelho. Visto e faço meu alongamento enquanto discutem as regras. — Minha irmã joga no ataque, entenderam pessoal? — O carrancudo do meu irmão mais velho se acha dono do pedaço. Os rapazes concordam ainda com dúvidas, e a decepção em me ter no time fica clara. O jogo começa, todos têm um pouco de receio no começo. Com dez minutos de jogo já me veem como a atacante deles e me passam bola mais confiantes. O zagueiro adversário derruba o lateral direito do nosso time. O juiz marca falta. — Deixe-a bater, Luizão — Rafa diz. O goleiro ri. Eu ajeito a bola, sinto o olhar de todos, principalmente do Nando. O apito soa. Deixo-a no ângulo aonde o goleiro jamais chegaria e... gol. Todos vêm ao meu encontro e me cumprimentam. Nando me olha e sorri. Rafa me bate na b***a. — Vamos lá Tina! Mostra pra esses marmanjões quem te ensinou — se gaba. Gargalho, pois nem joga tão bem assim. Nando joga de meia-armador, a sua função é criar os lances ofensivos. Então me passa a bola, toco para o volante Lucas, que tem a missão de armar a jogada e deixar o atacante na cara do gol, nesse caso euzinha. Ao me devolver, chuto por cima do goleiro, encaixando-a certinho no gol. Todos correm em minha direção. Fernando se aproxima e tocamos punho, sinto sua energia. Sempre joguei no ataque, tenho velocidade e resistência. — Betina, você é demais! — diz e se afasta. Posiciono-me, e o jogo segue. Roger passa a bola, toco para o Nando que chuta e marca. Vem ao meu encontro e me levanta do chão. — Você é incrível. — Cada elogio que recebo dele mexe comigo mais do que gostaria. — Solta minha irmã cara, já tá bom. — Roger o reprime. Chega o intervalo, sento-me no banco para beber água. Observo Rafa falando com a Mel, sei que gostou dela, e pelo visto minha amiga também. — Você joga muito, Tina. — Os rapazes passam por mim afirmando, eu agradeço. Nando está distante, talvez pelo fato de que Roger parece um cão-de-guarda com todos que se aproximam, pelo menos é o que parece. Mas pode ser falta de interesse também. Fico confusa quando se trata dele. O jogo reinicia, e o zagueiro do outro time vem com tudo para cima de mim. Vou parar do outro lado com o impacto, bato a cabeça no chão. — c*****o Pedro! — Ouço o Roger gritar. Começa uma discussão entre eles. Abro meus olhos, sinto que as pernas onde minha cabeça está apoiada são do dono dos olhos verdes que me fita, aflito. Por mim o jogo podia acabar agora, e ficaria aqui até amanhã. — Você está bem, Betina? — a sua preocupação é mais um ponto para o meu fascínio neste homem. — Tô sim! Me ajuda a levantar, fazendo um favor? Ele me segura pelas mãos e levanto-me indo em direção a Pedro, o golpeio com um soco em sua bochecha, sua cabeça chega a virar. Eleva a mão no rosto e encara-me irado. — Te falei que nem precisava defendê-la — Rafa fala, todos riem. — Tome mais cuidado, seu babaca! — Me viro, e Nando está paralisado olhando a cena. — Bora continuar? — falo, arrumando meu colete. Recomponho-me e sigo para cobrar a falta. Bato, jogando para Vitor, que passa para Cris, que me devolve na frente do gol. Chuto no canto sem chances de defesa. Todos vêm comemorar comigo. — Você é meu orgulho. ― Meu irmão é mesmo um palhaço. — Princesa, foi lindo! — Roger fala, e Nando se aproxima. — Foi perfeito! O jogo termina 4x1 para nosso time, todos comemoramos. — Garota, você será nossa titular toda segunda neste horário — Caio do time vermelho fala. — Ela vai jogar sempre no meu time — Rafa declara. — Minha irmãzinha joga comigo — Roger retruca. — É minha irmã também. — Agora eles parecem ter doze anos. — Então trate de estar no mesmo que eu. — Roger coloca o braço no meu ombro. — Não é, artilheira? — Tem que ser a família unida, lembra Roger? — digo isso para acabar com a discussão. — Verdade, e assim será — ele assente. Tomo um banho rápido, vou tomar outro em casa. Quando deixo o vestiário, todos estão a minha espera. — Tina, vai comer com a gente? — Rafa pergunta. — Mel, o que acha? — pergunto, por que está comigo e não sei se tem horário. — Por mim, tudo bem. — Essa animação dela tem nome e sobrenome. — Ok. Iremos todos! — O motivo da animação de minha amiga responde mais animado ainda. O grupo nos leva a uma cantina que fica do outro lado da avenida, foi só atravessar. É um lugar aconchegante. O garçom junta as mesas para ficarmos todos próximos. As toalhas são xadrez vermelho e branco. Tem um grande lustre de madeira bem no centro. O grande espelho atrás do balcão de bebidas dá a sensação de um lugar maior. Com todos sentados, os rapazes fazem os pedidos das pizzas. Meus irmãos sabem que só de pepperoni e marguerita, por isso apenas pedem. — Tônica, Betina? — Nando mostra que lembrou. — Sim, por favor. — Minha maninha adora devorar uma pizza. — Olho feio para Roger. — Como gosta de falar que sou gulosa... — Não é isso. As mulheres ficam com graça para comer, porque engorda. Você nem se importa, come com gosto. — Virei a comédia da mesa, todos riem. — Ela manda tudo junto e misturado. — Rafa tenta amenizar a minha vergonha. — E você Mel? — Mando bem, também! Rodízio tem prejuízo comigo. Não gosto dessa coisa de olhar embalagem pra ver calorias. Como e depois perco na aula de boxe e Muay Thai. — Sério que pratica? — Rafa é curioso. — Duas vezes por semana. — Vamos marcar uma aula juntos? — Meu irmão está mesmo querendo revê-la. — Amanhã às dezenove horas na academia “Soccer”. Sabe onde fica? — Mel convida. — Sei sim. A Tina também gosta. — Olha-me esperando por resposta, como uma desculpa pelo o seu interesse. Acha que ninguém percebeu. — Vou também — afirmo para seu alivio. — O que você não faz? — Nando me interroga se divertindo. — Balé! — Ele solta uma risada alta, as covinhas aparecem e os dentes certinhos preenchem aquele rosto lindo. Meu coração estremece ao ouvir o som, Deus me ajude! Esse homem é demais. Depois de alguns pedaços de pizza e muitas risadas, decido que já deu para mim por hoje. Hora de partir... Rafa troca celular com Mel. — Pessoal, foi incrível! Manos, estamos indo — mando beijo com a mão. Olho para Nando, em especial. — Foi um jogo incrível, Betina... Até mais — Vitor fala. — Até. Saio e escuto-os intimando o Roger para que me traga na próxima semana. — Ela decide com quem vai jogar, está bom assim pra vocês? — todos concordam ― Porém sei que será atacante do meu time. ― Como é mandão... Mel vem no caminho falando sobre meu irmão, sobre o quanto ele é lindo, gostoso e simpático... Assim que a deixo em sua casa, sigo pelas ruas do condomínio pensando nos olhos verdes e suas covinhas. Estou mesmo perdida, ele é uma tentação. Depois de dez minutos chego em casa. A minha mãe está na sala de TV assistindo um seriado de reforma de casas, deitada no sofá preto com almofadas cinza. Os móveis são de madeira escura e as únicas peças claras neste ambiente são as cortinas na cor gelo e tapete cinza claro. Dona Eliza é uma mulher que tem uma visão ampla sobre decoração, tudo na casa tem nosso estilo. Mas nas salas de TV e jantar, ela não abriu mão em decorar como queria. — Oi, filha. Onde esteve? — Com os meninos. — De novo com isso, Tina? ― Sabia que não ia gostar de saber que estive numa partida de rapazes. — Sim mãe, sempre. — Se você fosse menino não seria tão igual a eles. — Concordo. ― Eu gosto de estar com eles, mãe. Promete não os repreender por minha causa? ― Seu sorriso me diz que não fará. ― Prometo, mas em troca, quero uma noite de shopping com minha filhinha. — Chantagista. ― Faz uma careta engraçada, beijo seu rosto ― Boa noite! Vou tomar banho e cama. — Boa noite, querida! ― Dona Eliza queria uma filha que gostasse de coisas de meninas como balé, dança de todos os estilos, mas não passo de uma fraude. Gosto de ser vaidosa, não abro mão de nada disso, porém estar com meus irmãos é uma satisfação sem limites. Nossa casa tem dois andares: no piso superior são três quartos com suítes; na parte de baixo, a sala de TV e jantar, a cozinha e o lavabo. Quando estou no final da escada, encontro com meu pai. Está com o cabelo molhado e pijama, deve ter acabado de sair do banho. — Meu anjo, por onde andou? — Jogando com os meninos. — Avisa-me na próxima, pois quero vê-los. — Aviso, pode deixar. — Beijo seu rosto e sigo para meu quarto. Gosto do meu quarto, os móveis são brancos e há um tapete vermelho ao lado da cama. Há também uma penteadeira branca com pintura artesanal que ganhei da minha avó materna. O meu banheiro é cinza com uma pia espaçosa. Tiro as minhas roupas, entro no chuveiro e lavo meu cabelo. O duro de cabelo comprido é cuidar, só para lavar leva alguns minutos, e para secar, outro tanto. Sento-me no banco da penteadeira e uso o secador. Terminado, guardo o aparelho e hidrato o corpo. Visto uma camiseta, depois de arrumar a cama, me deito. Meu celular vibra. Abro o aplicativo “w******p” e vejo o nome do Nando. Estou com as mãos trêmulas. Nando: Betina seus irmãos me matam se souberem que estou falando contigo, mas não tiro seu sorriso da minha cabeça. Leio dez vezes e penso em uma resposta, digito. Tina: Não vão saber. Nando: Estou impressionado... Primeiro sua beleza, depois seu humor que é ótimo. E como ficou incrivelmente linda jogando! Quando estava com a cabeça apoiada nas minhas pernas... queria ter te beijado. Parece loucura? Tina: Temos um problema aqui: quando abri os olhos e o vi me olhando, também quis um beijo. Nando: KKKK quis nada, porque levantou e foi socar o Pedro. Sei que não passa de um safado como meus irmãos, mas é gostoso demais. Tina: Ele mereceu. Nando: Quantos anos você tem? Que mudança de assunto. Está me interrogando por quê? Que diferença faz a minha idade? Tina: Já sou adulta, por que a pergunta? Nando: só curiosidade. Tina: tenho 21 e vc? Nando: 17. Tina: Xarope. Nando: KKK. Adoro suas respostas. Adoro sua boca, gato de olhos esmeralda. Penso comigo. Tina: Não vai me responder a verdade? Boa noite Fernando! Nando: KKK brabinha... o Fernando aqui tem 27 anos. Sou tipo de homem com algumas preferências, que são inadequadas para uma princesa arisca como você. A palavra “preferências” pode dizer muita coisa, mas vou deixar para descobrir depois... Tina: Como sabe o que é inadequado pra mim? Está falando como o Roger. Cruz-credo! Isso pega. Nando: KKK pega mesmo, principalmente quando se conhece a irmã linda dos seus melhores amigos. Pronto, chegou nessa conclusão! Estava demorando. Vai dizer que não sai com a irmã de amigos. Tina: Boa noite, Fernando! Nando: Boa noite, Betina! Adormeço e meu martírio começa, sonho com o cretino de olhos verdes.
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