Pré-visualização gratuita 01 ERICK
ERIK NARRANDO
Eu sempre fui bom em fugir.
Fugir de conversas sérias, de responsabilidades emocionais, de qualquer coisa que exigisse mais do que dinheiro e decisões frias.
Mas, enquanto o carro sobe a estrada que leva à mansão no Rio de Janeiro, eu sei que essa viagem não é exatamente uma fuga. É uma trégua.
Curta. Calculada.
Uma semana para respirar antes de voltar aos Estados Unidos e encarar o ultimato que meu pai deixou cair sobre mim como uma lâmina afiada.
Eu me chamo Erik Smith, tenho vinte e oito anos.
Sou moreno claro, tenho um metro e noventa e dois de altura. Forte, olhos claros e muito bem-sucedido.
Sou herdeiro de um grande império..., mas que está me exigindo algo muito grande.
O céu é claro demais. O tipo de azul que parece uma afronta quando a cabeça está cheia de problemas.
O mar surge ao longe, brilhando sob o sol, e por um instante penso em como tudo parece simples visto de fora.
Luxo. Férias. Liberdade. Ninguém imagina o peso que carrego no peito.
“Ou você se casa ou perde tudo.”
A frase de Eduardo Smith ecoa na minha mente com a mesma frieza com que foi dita.
Meu pai não grita. Não ameaça. Ele decreta. E quando decretou que o cargo de CEO não seria meu se eu continuasse sendo o homem que sou, eu soube que não havia espaço para negociação.
Augusto Jones. Meu primo.
O sorriso contido. A ambição silenciosa. A paciência de quem sabe esperar o erro alheio.
A simples ideia dele sentado na cadeira que deveria ser minha faz meu estômago se revirar.
A mansão surge imponente quando o carro para.
Vidros altos, linhas modernas e isolamento suficiente para não ouvir nada além do vento e do mar. Exatamente como pedi.
Um lugar onde ninguém me conhece. Onde ninguém me cobra.
Entro, jogo a mala perto do sofá e afrouxo a gravata.
O silêncio é quase ensurdecedor. Por alguns segundos, penso que talvez eu pudesse simplesmente ficar aqui. Desaparecer.
Mas sei que isso é fantasia. Meu sobrenome não permite esse tipo de luxo.
O interfone toca, quebrando o silêncio.
A empregada.
A agência garantiu que ela falava inglês fluentemente e cozinhava bem. Foi um pedido prático, impessoal.
Eu não queria esforço extra. Não queria conversas. Apenas alguém que fizesse o que fosse preciso.
Vou até a porta e abro sem pensar muito. E então... paro.
Ela está ali. Segurando uma bolsa simples, vestida com roupas discretas, mas limpas e bem cuidadas.
O cabelo castanho-escuro está preso de forma prática, alguns fios soltos emoldurando o rosto.
Os olhos se erguem lentamente. Atentos. Observadores. Não há deslumbre. Não há nervosismo exagerado. Apenas cautela.
LETÍCIA— Good afternoon. I'm Letícia Alencar._ ela se apresenta em inglês.
(Bom dia. Eu sou Letícia Alencar.)
O inglês é perfeito. Natural. Isso me surpreende mais do que deveria.
Fico em silêncio por um instante, avaliando.
Jovem demais para alguém tão segura. Algo nela não se encaixa no estereótipo que eu havia criado.
ERIK— You're late. _ digo que ela está atrasada, sem qualquer cordialidade.
(Você está atrasada.)
O tom é frio. Direto. Não é um convite para explicações.
Vejo o peito dela subir e descer lentamente antes de responder.
LETÍCIA— I arrived exactly at the scheduled time. The intercom took a while to be answered. _ ela responde sem hesitar.
(Eu cheguei exatamente no horário combinado. O interfone demorou para ser atendido.)
Não se desculpa. Não abaixa a cabeça. Não tenta me agradar. Apenas expõe um fato.
Sinto uma pontada de irritação. Misturada com algo inesperado. Respeito. Ou curiosidade.
ERIK— Fine. Come in. _ dou passagem para que ela entre.
(Tudo bem. Entre.)
Ela entra com passos contidos, observando o ambiente com discrição.
Não há olhos arregalados. Nem comentários. Apenas atenção silenciosa.
ERIK— Você pode falar português.
LETÍCIA— Obrigada. _ ela responde enquanto observa a sala. — Facilita bastante. _ Quando muda para o português, algo em sua voz muda também.
Fica mais firme. Mais segura.
Viro-me devagar e cruzo os braços.
ERIK— Regras básicas. _ espero que ela me encare antes de continuar. — Não mexa em nada que eu não peça. Não faça perguntas pessoais. E mantenha discrição absoluta. _ Ela me encara por alguns segundos.
Longos demais. Não com desafio. Mas com algo que parece avaliação.
Como se estivesse tirando conclusões a meu respeito.
LETÍCIA— Eu estou aqui para trabalhar, senhor Smith. _ sustenta meu olhar sem vacilar. — Apenas isso. _ Não há submissão na frase. Há dignidade. E isso me incomoda mais do que qualquer afronta.
ERIK— Ótimo. _ sustento seu olhar por mais um segundo. — Comece pela cozinha. Estou com fome. _ Ela apenas assente. Sem pressa. Sem correria. Sem a necessidade de demonstrar serviço.
Então segue pelo corredor. Fico parado por um momento, observando suas costas desaparecerem.
Aperto o maxilar. Incomodado com a sensação estranha que se instala no meu peito.
Porque não deveria estar prestando atenção nela. Não deveria me importar. Não deveria sequer lembrar do nome dela daqui a algumas horas.
Isso é só uma semana. Eu me lembro disso. Nada além disso.
Mas, pela primeira vez desde que cheguei ao Brasil, tenho a sensação de que essa semana pode ser mais complicada do que imaginei.
AMORES ESTAMOS DE VOLTA COM ESTE LIVRO QUE PROMETE MUITO... COMENTEM E VOTEM MUITO... OS CAPÍTULOS ESTÃO REFEITOS E COM PEQUENAS MUDANÇAS.