Pré-visualização gratuita PRÓLOGO
ENTRE O AMOR E O MORRO
No Morro dos Prazeres, ninguém aprende a amar direito.
A gente aprende a sobreviver.
Nicole sempre soube disso. Desde pequena, entendeu que ali os dias não eram divididos em manhã, tarde e noite, mas em antes e depois dos tiros. Antes do barulho seco que rasgava o ar. Depois do silêncio pesado que ficava grudado na pele, como poeira que não sai.
Ela cresceu correndo descalça entre vielas estreitas, desviando de homens armados, de olhares perigosos e de promessas vazias. Aprendeu cedo a não chorar em público, a não fazer perguntas e a não desejar coisas que não podia ter. Mas havia uma coisa que nunca conseguiu controlar.
Caio Vinícius.
O nome dele não era dito em voz alta. Era respeitado. Temido. Pesado.
C.V.
O homem que mandava no morro. O dono do silêncio. O rosto que não demonstrava nada além de frieza. O tipo de homem que não precisava gritar para ser obedecido. Bastava um olhar.
Nicole o viu pela primeira vez quando ainda era adolescente demais para entender o que sentia. Ele estava parado no alto da laje, observando tudo, como se fosse parte da paisagem — perigoso, inalcançável, absoluto. Ela não sabia explicar por que seu coração acelerava toda vez que ele passava, nem por que seu corpo ficava rígido quando ele cruzava seu caminho.
Ele nunca a olhou como homem olha mulher.
E talvez isso tenha sido o que mais a feriu… e a fez amar ainda mais.
Caio a respeitava. Não por bondade. Não por cuidado. Mas porque ela era irmã de Rafael, seu melhor amigo, seu braço direito, seu comparsa fiel. O único homem em quem Caio confiava de verdade.
E naquele mundo, confiança era mais rara que amor.
Nicole cresceu ouvindo histórias sobre quem Caio Vinícius era. Sobre os inimigos que ele mandou calar. Sobre as decisões que custaram vidas. Sobre o poder que ele exercia sem pedir permissão a ninguém. Diziam que ele não tinha coração. Que nasceu frio. Que nunca amou mulher nenhuma. Que usava e descartava como quem troca de camisa.
Ela ouvia tudo.
E mesmo assim, o amava.
Amava do jeito mais perigoso que existe: em silêncio.
Quando completou dezoito anos, Nicole já sabia que iria embora do morro um dia. Estudava como podia, sonhava escondido, juntava coragem em pedaços. Mas também sabia que havia algo que precisava fazer antes de partir.
Algo que carregava no peito desde sempre.
Naquela noite, o morro estava estranho. Calmo demais. O tipo de calmaria que antecede a tragédia ou a mudança. Nicole respirou fundo antes de subir as escadas da casa onde Caio costumava ficar. O coração batia tão forte que parecia denunciar cada passo seu.
Ela não pediu nada com delicadeza.
Não havia espaço para delicadeza naquele mundo.
— Eu quero você — disse, encarando-o de frente, com a voz trêmula, mas firme.
Caio demorou a responder. Os olhos dele a percorreram com atenção pela primeira vez. Não como a irmã de Rafael. Não como a menina do morro. Mas como mulher.
E isso foi o início do fim.
Ele tentou recusar. Tentou lembrar quem era. Tentou lembrar das regras que ele mesmo criou para sobreviver. Mas havia algo nos olhos de Nicole que o desarmava. Algo puro demais para aquele lugar sujo.
Ele aceitou com uma condição c***l: aquela seria a única vez.
Depois, nunca mais.
A noite foi tudo menos suave. Foi tensa, intensa, marcada por desejo contido e sentimentos proibidos. Caio tocou Nicole como quem luta contra si mesmo. Nicole se entregou como quem sabia que aquele momento custaria caro.
No dia seguinte, ele foi embora sem olhar para trás.
E fingiu que nada havia acontecido.
Nicole entendeu, naquele instante, que amar Caio Vinícius significava amar sozinha. Viu-o cercado por mulheres, rindo de coisas que nunca riu com ela, vivendo uma vida da qual ela jamais faria parte.
Quando recebeu a notícia da bolsa de estudos fora do país, soube que era a chance de recomeçar. Mas antes de ir, precisava ouvir dele uma única coisa.
Ela se declarou sem lágrimas, sem drama. Disse que o amava. Disse que ficaria se ele pedisse.
Caio a destruiu com poucas palavras. Disse que nunca poderia amá-la. Disse que era bicho solto. Disse que não nasceu para pertencer a ninguém.
Nicole foi embora levando o coração em pedaços.
Três meses depois, o mundo caiu de vez quando descobriu que estava grávida. Ao contar a verdade, foi humilhada, acusada, rejeitada. Caio disse que aquele filho não era dele. Disse que ela queria prendê-lo.
E ela decidiu que nunca mais pediria nada.
Criaria o filho sozinha. Com dignidade. Com dor. Mas sem rastejar.
O destino, porém, ainda guardava sua crueldade maior. Rafael morreu em um confronto. Nicole voltou ao morro com um bebê nos braços e um olhar que Caio nunca tinha visto nela antes.
Foi então que ele percebeu.
Os olhos. Os traços. A pinta no mesmo lugar.
O filho era dele.
E o amor que ele sempre negou agora batia à porta como uma sentença.
Mas talvez fosse tarde demais.
Porque Nicole, a mulher que um dia o amou sem medo, agora havia aprendido a sobreviver sem ele.
E naquele mundo, sobreviver sem amor…
era a única forma de não morrer por dentro.