FINGIR TAMBÉM CANSA

1130 Palavras
Nicole começou a perceber o cansaço antes mesmo de reconhecer a dor. Não foi um evento específico. Não houve gatilho claro. Foi uma soma. Pequenas coisas que, juntas, passaram a pesar demais. O esforço para acordar, para sorrir, para responder perguntas simples. O cuidado excessivo com as palavras. O controle constante das expressões. Fingir não vinha mais de forma automática. Ela acordava e já se sentia cansada, mesmo depois de noites em que o corpo descansava. O sono vinha, mas não reparava. Algo dentro dela permanecia em vigília constante, como se estivesse sempre esperando por algo que não viria. Nicole continuava cumprindo suas tarefas. Ajudava em casa, caminhava pelo morro, conversava quando necessário. Por fora, parecia a mesma. Por dentro, sentia-se cada vez mais distante de si mesma. O amor que carregava havia mudado de forma. Não tinha diminuído. Mas tinha se tornado pesado. Ela percebeu isso num fim de tarde, quando se pegou evitando um caminho específico não porque pudesse encontrar Caio, mas porque já não tinha energia emocional para lidar com a simples possibilidade. Aquilo a assustou. Não era medo dele. Era cansaço dela. Nicole sentou-se num banco improvisado perto de casa e ficou ali, observando o movimento. Pessoas passavam, riam, discutiam. O mundo continuava acontecendo com uma naturalidade quase c***l. Ela sentiu vontade de chorar — não de desespero, mas de exaustão. Não chorou. O choro exigia um tipo de entrega que ela já não tinha forças para sustentar. Começou a entender que o sofrimento silencioso cobra um preço maior do que a dor exposta. Quando ninguém sabe, ninguém ajuda. Quando ninguém vê, tudo pesa em dobro. Ela não queria falar. Mas também não queria continuar carregando sozinha. O problema era que não havia com quem dividir. Caio não podia ouvir. A família não podia saber. O morro não tinha espaço para esse tipo de dor. Então Nicole seguia. Mas cada passo exigia mais esforço do que o anterior. Do outro lado do morro, Caio Vinícius também começava a sentir o cansaço de fingir — embora jamais usasse essa palavra para definir o que acontecia dentro dele. Para Caio, fingir sempre fora estratégia. Controle. Disciplina emocional. Mas agora havia algo diferente. O fingimento já não trazia alívio depois. Apenas adiava o incômodo. Ele percebia isso nos detalhes. Na irritação fora de hora. Na impaciência crescente. Na dificuldade em se concentrar quando o silêncio se estendia demais. Caio se mantinha ocupado. Acreditava que movimento constante impediria pensamentos indesejados. Funcionara por anos. Mas agora, nos intervalos mínimos, algo escapava. Não imagens claras. Sensações. Um peso no peito. Uma tensão nos ombros. Um desconforto que não se resolvia com ordens ou decisões. Ele não pensava em Nicole conscientemente. Evitava. Mas o corpo reagia quando passava por lugares que ela costumava frequentar. Quando ouvia risadas femininas parecidas demais com a dela. Quando alguém mencionava Rafael. Caio se observava mais do que o normal. Mantinha vigilância constante sobre si mesmo. Cortava pensamentos no início. Reforçava a postura fria. Fingir exigia energia. E ele começava a sentir o custo. Nicole percebeu o desgaste se aprofundar nos dias seguintes. Coisas que antes tolerava passaram a incomodar. Conversas vazias cansavam. Barulho excessivo irritava. O corpo parecia pedir silêncio — não o silêncio pesado do fingimento, mas um silêncio real, restaurador. Ela começou a se isolar mais. Não por drama. Por sobrevivência. Sentia que, se continuasse tentando manter tudo como estava, algo dentro dela acabaria quebrando de vez. E ela não sabia se teria forças para juntar os pedaços naquele ambiente. O amor que sentia por Caio não a destruía sozinho. O que a destruía era a combinação entre amar e fingir que nada estava acontecendo. Essa percepção foi dolorosa. Porque significava que, em algum momento, teria que escolher entre continuar ali ou se preservar. E escolher doía. O cansaço de fingir não se manifestava de forma explosiva. Ele corroía. Nicole começou a perceber que já não reagia da mesma forma às coisas. O entusiasmo diminuíra. A curiosidade estava apagada. Até a tristeza parecia mais contida, como se o corpo tivesse aprendido a economizar emoção. Ela não se reconhecia completamente — e isso a assustava mais do que a dor. Certa manhã, ao se olhar no espelho, percebeu algo novo no próprio olhar. Não era apenas tristeza. Era distância. Uma espécie de desligamento gradual, como quem começa a se despedir sem anunciar. Nicole entendeu, ali, que fingir não estava apenas escondendo a dor dos outros. Estava escondendo dela mesma. Essa constatação a atingiu com força. Ela começou a questionar quanto tempo conseguiria sustentar aquela versão contida de si. Quanto tempo conseguiria viver num lugar onde o amor que sentia não tinha permissão para existir. Não havia raiva de Caio. Não havia acusação. Havia apenas limite. Do outro lado, Caio começava a perceber que o controle absoluto também cansa. Ele sempre acreditara que sentir menos era vantagem. Que endurecer protegia. Mas agora sentia algo parecido com desgaste estrutural. Como se estivesse sustentando uma construção pesada demais sem reforço suficiente. As noites se tornaram mais longas. Ele ficava acordado, sentado no escuro, sem buscar companhia. Não queria repetir nada. Não queria misturar aquela experiência com qualquer outra. O corpo recusava distrações fáceis. Caio não sentia saudade no sentido comum. Sentia ausência de encaixe. Algo estava fora do lugar, e fingir não estava resolvendo. Ele se perguntava, em momentos raros de honestidade, se o custo daquele controle ainda valia a pena. A resposta vinha rápida demais: não havia alternativa. O morro não permitia fragilidade. O poder não permitia distração. A imagem não permitia dúvida. Então ele seguia. Mas seguir já não era confortável. Nicole começou a perceber que precisava criar uma saída, ainda que não soubesse qual. Não falava em ir embora. Não planejava abertamente. Mas a ideia começava a ganhar espaço silencioso dentro dela. Não como fuga. Como cuidado. Ela entendia que amar não deveria significar desaparecer. E, naquele ritmo, era exatamente isso que estava acontecendo. O cansaço de fingir tinha atingido o limite. Caio, por sua vez, sentia que a distância entre ele e Nicole já não era apenas estratégica. Estava se tornando definitiva. E isso o incomodava de um jeito que ele não queria investigar a fundo. Ele percebia a ausência dela nos lugares comuns. Percebia o silêncio maior quando ela não estava. E, mesmo assim, não se movia. Porque mover-se significaria admitir demais. Cada um à sua maneira, cada um no próprio silêncio. Nicole começava a entender que continuar ali exigiria um tipo de força que ela não queria desenvolver: a força de se anular. Caio começava a perceber que controlar tudo tinha um custo que ele não calculou corretamente. Fingir tinha funcionado até ali. Mas agora, fingir também cansava. E o cansaço, quando ignorado, se transforma em decisão. Mesmo que ainda não tenha nome.
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