DEZOITO

1029 Palavras
Nicole acordou no dia do aniversário com uma sensação estranha de fim. Não era alegria. Também não era tristeza. Era ruptura. Como se algo estivesse sendo encerrado sem que ninguém tivesse avisado. O quarto parecia menor, o teto mais baixo, o ar mais pesado. O barulho do morro chegava abafado, como se o mundo estivesse acontecendo atrás de uma parede grossa demais. Dezoito anos não vinham com festa. Vinham com consciência. Ela ficou alguns minutos deitada, olhando o teto descascado, seguindo com os olhos uma rachadura antiga que atravessava a parede. Aquela rachadura sempre esteve ali. Crescera com ela. Nunca reparou de verdade até aquele momento. Agora parecia maior. Mais evidente. Como tudo naquele dia. Lá fora, o morro acordava do mesmo jeito de sempre. Vozes misturadas, passos apressados, música vazando de alguma casa, o som distante de uma moto subindo a viela. Tudo igual. E, ainda assim, tudo diferente. Dezoito anos significavam escolha. Nicole sentiu isso no corpo antes de formular em pensamento. Uma pressão leve no peito, um peso novo nos ombros. Não era medo infantil. Era responsabilidade. O tipo de responsabilidade que não pede permissão para chegar. Ela se levantou devagar, tomou banho sem pressa, deixou a água cair por mais tempo do que o necessário. Queria lavar algo que não estava na pele. O espelho devolveu um rosto conhecido, mas mais sério. Os olhos pareciam mais atentos. Mais cansados. Vestiu uma roupa simples. Jeans, camiseta clara. Nada que chamasse atenção. Não queria olhares curiosos. Não queria comentários. Não queria que aquele dia fosse tratado como especial por ninguém além dela mesma. Na cozinha, a mãe preparava café como em qualquer outra manhã. Sorriu ao vê-la. — Parabéns, minha filha. O beijo foi rápido, cotidiano. Não houve discurso. Não houve emoção exagerada. A mãe sempre fora assim: amor em gestos pequenos, constantes. Nicole agradeceu em silêncio. Rafael apareceu logo depois, ainda sonolento, e bagunçou seu cabelo com a i********e de sempre. — Dezoito, hein? — disse, meio brincando, meio sério. — Tá ficando adulta. Nicole sorriu de canto. Adulto, para ela, nunca foi sinônimo de leveza. Sempre foi sinônimo de aguentar. Saiu de casa pouco depois, antes que alguém resolvesse fazer perguntas. Precisava pensar com o corpo em movimento. Andar sempre ajudava. O morro parecia mais estreito naquele dia, as vielas mais longas. Cada passo parecia carregar mais significado do que deveria. Ela caminhava sem destino certo, observando detalhes que sempre estiveram ali, mas que agora pareciam diferentes. Crianças correndo descalças, mulheres conversando nas portas, homens encostados em esquinas. Tudo continuava igual porque o mundo não muda só porque alguém cresce. Mas ela tinha mudado. O aniversário não trouxe vontade de comemorar. Trouxe urgência. Nicole pensou em tudo o que ainda não tinha vivido. Não pensou em festas. Não pensou em viagens. Não pensou em romances comuns, desses que começam por acaso e terminam sem grandes marcas. Pensou no amor — não no amor idealizado, bonito, de promessas. Pensou no amor que já carregava havia anos. Caio Vinícius. O nome veio pesado, inevitável. Pensar nele naquele dia doía diferente. Não como dor aguda. Como constatação. Porque agora ela entendia algo que vinha evitando admitir: ir embora sem nunca ter sido escolhida era uma perda maior do que qualquer risco. Ela sempre soubera que amava o homem errado. Sempre soubera que ele não a escolheria. Mas também sempre acreditara que o tempo resolveria isso. Naquele dia, entendeu que o tempo não resolve tudo. Às vezes, apenas adia. Nicole não queria ir embora virgem de amor. Não de corpo apenas. De entrega. De verdade vivida, ainda que curta, ainda que errada. Ela não suportava a ideia de atravessar o mundo carregando um sentimento que nunca tinha sido tocado pela realidade. Não queria guardar Caio Vinícius apenas como ausência. Sentou-se num degrau de concreto, afastada do movimento, e respirou fundo. O sol começava a subir mais alto, o calor se instalava devagar. Não havia romantização naquele pensamento. Apenas uma lucidez dura. Ela amava um homem que não a escolheria. Mas podia escolher por si. E isso mudava tudo. Pela primeira vez, a escolha não envolvia fugir. Envolvia agir. Não para conquistá-lo. Não para prendê-lo. Mas para não ir embora incompleta. Nicole ficou ali por um tempo longo, observando o movimento da rua. Lembrou-se da menina que fora. Da adolescente que aprendeu cedo a se calar. Da jovem que cresceu olhando de longe, aceitando limites que nunca tinha imposto. Dezoito anos não mudavam quem ela era. Mas mudavam o que ela podia decidir. Ela pensou no preço. Pensou nas consequências. Pensou em Rafael, na mãe, no morro. Pensou na possibilidade de rejeição dura, c***l, definitiva. Pensou no pior cenário — e aceitou. O medo não desapareceu. Mas deixou de comandar. Quando voltou a andar, o passo estava mais firme. Não havia euforia. Não havia pressa. Apenas clareza. Aquela clareza que chega quando algo já foi decidido por dentro. O dia seguiu comum para quem observava de fora. Nicole passou por conhecidos, respondeu cumprimentos, fingiu normalidade. Por dentro, cada minuto parecia contar. Ela não procurou Caio naquele momento. Não era impulso. Era planejamento emocional. Sabia que precisava de silêncio antes do confronto. Precisava aceitar tudo antes de pedir qualquer coisa. À tarde, ficou em casa, sozinha por algumas horas. Sentou-se na cama, mexeu em coisas antigas, abriu um caderno velho. Leu frases que escrevera quando era mais nova. Sentimentos confusos, desejos m*l nomeados, dores guardadas. Fechou o caderno com cuidado. — Hoje não — murmurou. Não queria mais ser a menina que escrevia para aliviar. Queria ser a mulher que agia. Quando o sol começou a baixar, a decisão já estava tomada. Não como impulso. Como conclusão. Ela sabia o que queria pedir. Sabia o que perderia. Sabia que, depois, nada seria igual. Sabia que talvez se arrependesse. Sabia que talvez se machucasse. Sabia que talvez fosse rejeitada com dureza. E, ainda assim, aceitou. Aceitou porque viver com a dor da tentativa falhada parecia mais honesto do que viver com a ausência eterna da tentativa. Dezoito anos não eram um presente. Eram uma linha. E Nicole estava pronta para atravessá-la, mesmo sem saber quantas partes de si ficariam do outro lado.
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