FINGIR

1205 Palavras
Fingir sempre foi uma habilidade necessária no Morro dos Prazeres. Ali, sobrevivia quem aprendia a esconder o que sentia, a disfarçar o que pensava, a manter o rosto neutro mesmo quando tudo por dentro estava em guerra. Fingir não era falsidade. Era defesa. Caio Vinícius sempre dominou isso. Desde cedo, aprendera a vestir a própria frieza como armadura. Nada entrava sem permissão. Nada ficava tempo demais dentro dele. Cada emoção indesejada era trancada, arquivada, silenciada. Por isso, naquela manhã, quando voltou à rotina como se nada tivesse acontecido, ninguém desconfiou. Ele caminhava pelo morro com a postura de sempre. Passos firmes, olhar atento, respostas curtas. Resolveu pendências, deu ordens, ouviu relatórios. O dia seguiu sob o controle habitual. Externamente, nada havia mudado. Internamente, tudo parecia fora de lugar. Caio evitava pensar na noite anterior. Não porque tivesse esquecido — mas porque lembrar exigia encarar algo que não queria admitir. Ele não revisava a cena. Não repassava detalhes. Tratava a lembrança como um arquivo perigoso demais para ser aberto. Quando o pensamento ameaçava surgir, ele cortava. — Não — dizia a si mesmo, como sempre fizera com qualquer fraqueza. E seguia. Mas fingir exige esforço constante. Cada vez que cruzava uma viela onde poderia encontrá-la, o corpo reagia antes da razão. Cada vez que ouvia uma voz feminina com timbre parecido, havia um segundo mínimo de tensão. Nada visível. Nada denunciável. Apenas uma vibração interna, incômoda. Ele não permitia que isso crescesse. Nicole, por outro lado, não tinha como fingir tão bem. Ela acordou naquele dia com a sensação de que algo tinha sido arrancado de dentro dela sem anestesia. Não havia arrependimento. Não havia vergonha. Mas havia um espaço novo, oco, dolorido. A perda se instalara antes mesmo de qualquer despedida real. Ela saiu de casa com cuidado, mantendo o rosto neutro, cumprimentando vizinhos como sempre fizera. Para os outros, parecia normal. Para ela, cada passo exigia concentração. O morro estava igual. As mesmas conversas. As mesmas músicas. Os mesmos risos. E isso parecia c***l. Porque o mundo não desacelerava para respeitar o impacto de uma noite que mudara tudo por dentro. Nicole tentou agir como sempre. Ajudou a mãe, respondeu ao irmão, fez pequenas tarefas. Mas o corpo estava mais lento, a mente mais distante. Tudo parecia levemente deslocado. Ela evitava lugares onde poderia cruzar com Caio. Não por medo. Por preservação. Sabia que ele fingiria. Sabia que ele seguiria como se nada tivesse acontecido. E não queria ser a única a demonstrar que aquilo deixara marca. Mesmo assim, era difícil. Havia momentos em que o silêncio pesava demais. Momentos em que a memória surgia sem pedir licença — o toque, o olhar, a forma como ele evitara encará-la ao amanhecer. Nicole sentia a perda antes do adeus. Era como se algo tivesse terminado sem nunca ter sido oficialmente iniciado. Ela não queria cobrar. Não queria exigir. Não queria mudar nada. Mas também não queria fingir que não sentia. Certa tarde, enquanto caminhava por uma rua estreita, ouviu alguém mencionar o nome de Caio em tom casual. O coração reagiu antes que pudesse controlar. Ela manteve o passo, mas o peito apertou. O nome dele agora doía diferente. Não como fantasia. Como realidade interrompida. Caio, naquele mesmo dia, evitou o nome dela. Não perguntava. Não mencionava. Não permitia comentários indiretos. Rafael falou algo trivial sobre a família, e Caio respondeu sem demonstrar reação. Mas por dentro, sentiu o impacto silencioso da proximidade entre os dois mundos: o dele e o dela. Ele sabia que fingir era necessário. Não por crueldade. Por sobrevivência emocional. Se admitisse o peso da noite, abriria espaço para perguntas que não queria responder. Abriria espaço para sentimentos que não sabia administrar. Abriria uma rachadura maior do que estava disposto a permitir. Então fingia. Fingia indiferença. Fingia normalidade. Fingia que Nicole era apenas mais um rosto conhecido no morro. Nicole percebia. Percebia na forma como ele não olhava. Na forma como desviava rotas. Na forma como mantinha distância calculada. Aquilo doía mais do que se ele fosse rude. Porque não havia hostilidade. Havia apagamento. Ela se perguntava se, para ele, aquela noite realmente significara tão pouco — ou se fingir era a única maneira que ele conhecia de continuar respirando sem se despedaçar. Não tinha resposta. E aprendera a não pedir. O tempo avançava sem misericórdia. Dias passaram, e o morro seguiu com a mesma dinâmica. Problemas surgiam, conflitos eram resolvidos, festas aconteciam. A vida se impunha. Mas Nicole sentia que carregava algo invisível. Algo que ninguém via. Algo que ninguém comentava. Algo que ela precisava aprender a suportar sozinha. Ela começou a se recolher mais. Falava menos. Observava mais. Havia uma maturidade nova no jeito de se mover, uma seriedade que não existia antes. O amor que sentia por Caio não diminuíra. Mas agora vinha acompanhado de uma dor consciente. Ela não era mais a menina que idealizava. Era a mulher que vivera — ainda que por uma noite — aquilo que sempre temera perder sem conhecer. Caio começou a sentir a pressão do próprio fingimento. À noite, quando ficava sozinho, o silêncio pesava mais do que antes. Ele não buscava distrações como costumava. Não queria repetir nada. Não queria misturar aquela experiência com qualquer outra. Havia algo ali que não podia ser comparado. E isso o irritava. Ele se perguntava, em momentos raros de honestidade consigo mesmo, se fingir realmente apagaria o impacto. Sabia que não. Mas fingir ainda era melhor do que encarar. Porque encarar significaria admitir que algo fugira ao controle. E Caio Vinícius não se permitia perder controle. Nicole, em contraste, não queria fingir consigo mesma. Não contava para ninguém. Não usava a experiência como argumento. Não exigia nada. Mas, em silêncio, aceitava que tinha sido marcada. Certa noite, sentou-se sozinha na laje e deixou o vento bater no rosto. Pensou em tudo o que vivera, em tudo o que escolhera. Não se arrependeu. A dor era real. Mas a verdade também. Ela não tinha vivido uma ilusão. Tinha vivido um erro consciente. E erros conscientes deixam marcas mais profundas. No dia seguinte, os caminhos deles quase se cruzaram. Nicole avistou Caio de longe, conversando com alguns homens. Ele estava sério, concentrado, exatamente como sempre. Por um instante breve, ela se perguntou se aquilo tudo realmente existira — ou se fora apenas algo que ela carregava sozinha. Mas o corpo lembrou. O coração lembrou. E ela soube que não fora imaginação. Caio também a viu. Não olhou diretamente. Não mudou a postura. Mas sentiu a presença dela como uma tensão discreta, constante. Seguiu conversando como se nada tivesse acontecido. Fingir, naquele momento, exigiu mais esforço do que qualquer decisão estratégica que tomara nos últimos anos. O morro seguia normal. As pessoas não sabiam. As ruas não mudaram. Os dias continuavam. Eles não. Para Nicole, cada passo carregava a consciência de ter amado sozinha. Para Caio, cada dia trazia o incômodo de sentir algo que se recusava a aceitar. O amor proibido não tinha se transformado em romance. Tinha se transformado em ferida. Uma ferida silenciosa. Discreta. Profunda. E, enquanto o mundo fingia que nada tinha acontecido, eles aprendiam — cada um à sua maneira — que algumas noites não se apagam, mesmo quando se decide fingir.
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