C.V

1081 Palavras
Caio Vinícius não nasceu chefe. Virou. E isso fez toda a diferença. No Morro dos Prazeres, ninguém recebia poder como herança limpa. O poder ali era arrancado, disputado, pago em partes do corpo e da alma. Caio aprendeu isso cedo, antes mesmo de entender que aprenderia coisas demais cedo demais. A infância dele não tinha espaço para ingenuidade. O pai morreu quando Caio ainda era novo demais para sentir falta de verdade, mas velho o suficiente para entender o que aquela ausência significava. A mãe segurou o que pôde, como pôde, até não conseguir mais. O morro não perdoava fraqueza, e Caio cresceu sabendo disso. Desde cedo, aprendeu a observar antes de agir. A ouvir mais do que falar. A guardar tudo por dentro, como quem junta armas invisíveis. Enquanto outros meninos se perdiam tentando provar força, Caio entendia que sobreviver exigia outra coisa. Controle. Ele não foi o mais forte. Não foi o mais violento. Foi o mais atento. Cresceu fazendo favores pequenos, circulando pelos cantos certos, ouvindo conversas que não deveriam ser ouvidas. Aprendeu nomes, rotas, dívidas, alianças. Sabia quem traía, quem devia, quem mentia m*l. Quando começou a se envolver de verdade, já conhecia o mapa inteiro. A primeira morte que presenciou não foi um choque. Foi confirmação. Ali, ninguém saía ileso. Caio não chorou. Não fez discurso. Não jurou vingança. Apenas guardou. E guardar sempre foi sua maior habilidade. Com o tempo, passou a ser chamado para resolver conflitos que outros não conseguiam. Não porque gritasse mais alto, mas porque falava pouco e ia direto ao ponto. Quando Caio dizia algo, não havia margem para interpretação. Aquilo trazia segurança para alguns e medo para outros. Ambos eram úteis. Quando o chefe anterior caiu, não houve comemoração. Houve um vazio perigoso. O morro não suporta vácuo de poder. E Caio entendeu isso antes de todo mundo. Ele não tomou o lugar à força. Foi colocado ali. Um acordo silencioso, sustentado por respeito e temor na medida certa. Caio aceitou sem celebração. Sabia o preço. Sabia que, dali em diante, nada seria simples. O poder cobra. E cobra caro. Ser C.V não era mandar. Era vigiar. Era antecipar. Era decidir quem ficava e quem caía. Quem tinha segunda chance e quem não teria nenhuma. Cada escolha deixava marca, mesmo quando ninguém via. Caio aprendeu a dormir pouco. A confiar pouco. A sentir menos. Não por frieza natural, mas por necessidade. Sentir demais naquele mundo era sentença. As noites eram longas. Cheias de barulho, bebida, mulheres que vinham e iam sem perguntar nada. Algumas tentavam ficar. Nenhuma conseguia. Caio nunca prometeu nada além do momento, e deixava isso claro desde o início. Ele não criava vínculos. Não deixava rastros. Não oferecia futuro. Para muitos, aquilo parecia liberdade. Para ele, era apenas método. O morro exigia isso. Quem se apegava perdia foco. Quem criava laços virava alvo. Caio já tinha visto homens caírem não por erro estratégico, mas por sentimento m*l colocado. Não cometeria o mesmo erro. Por isso, quando diziam que ele era frio, Caio não se incomodava. A frieza o mantinha vivo. A frieza protegia quem estava ao redor, mesmo que ninguém entendesse. Ele sabia que não era um homem fácil de amar. Talvez nem fosse um homem feito para isso. E aceitava essa condição como parte do pacote. Até Nicole. Ela entrou na vida dele sem pedir licença, sem intenção, sem malícia. Primeiro como nome. Depois como rosto. Depois como presença que não combinava com o cenário. Irmã de Rafael. Intocável. Caio respeitava Rafael mais do que demonstrava. Não apenas pela lealdade, mas porque via nele algo raro naquele lugar: limite. Quando Rafael se comprometia, cumpria. Quando prometia, mantinha. E Caio honrava isso. Por isso, desde o primeiro momento, estabeleceu uma linha clara em relação a Nicole. Não se aproximava. Não brincava. Não criava i********e. Tratava-a com respeito seco, quase rígido demais. Não era desinteresse. Era honra. Nicole não fazia parte daquele jogo. Nunca faria. Caio sabia disso com uma certeza que não precisava ser discutida. Ela tinha outro caminho, mesmo que ainda não soubesse. E, por isso mesmo, ele mantinha distância. Mas distância não apaga presença. Caio começou a notar mudanças nela com o tempo. O jeito de andar. O olhar mais atento. A postura que deixava de ser adolescente. Ele percebia tudo, mesmo quando fingia não ver. E isso o incomodava. Não porque desejasse cruzar aquela linha. Mas porque a linha começava a exigir esforço consciente para ser mantida. Havia dias em que ele se pegava pensando nela sem motivo claro. Não como fantasia, mas como ideia incômoda. Um pensamento que surgia e precisava ser cortado rápido. — Não — dizia a si mesmo. — Não é isso. Era sempre isso que dizia quando algo ameaçava seu controle. Caio Vinícius não tinha espaço para dúvidas. O morro não permitia líderes divididos. A frieza, mais uma vez, entrava como ferramenta. Ele evitava ficar no mesmo ambiente que Nicole quando possível. Mudava rotas, horários, presenças. Não para puni-la. Para se proteger. Proteger a ordem. Proteger Rafael. Proteger a si mesmo. Havia noites em que Caio subia à laje sozinho, longe de todos, e ficava observando as luzes da cidade ao longe. Aquele outro mundo parecia sempre tão próximo e tão inalcançável. Às vezes, pensava se teria sido diferente se tivesse nascido do outro lado do asfalto. Logo descartava a ideia. Pensar em “e se” era luxo. A vida dele tinha sido feita de decisões sem espaço para alternativa. E ele se orgulhava disso. O orgulho o mantinha firme. O controle o mantinha inteiro. Mas o controle não é algo fixo. É algo que se exerce todos os dias. E, às vezes, cansa. Caio sentia esse cansaço em momentos raros, quase imperceptíveis. Um segundo a mais olhando para o nada. Um silêncio mais longo do que o habitual. Um aperto no peito sem explicação lógica. Ele ignorava. Sempre ignorou. Porque, no fim das contas, Caio Vinícius acreditava profundamente que não tinha nascido para amar. Não daquele jeito que cria raízes. Não daquele jeito que exige permanência. O morro não aceitava homens assim. E ele também não. Ainda não. Mas, naquele ponto da história, Caio não percebia que a frieza que o tinha levado até ali — que o tinha feito chefe, que o tinha mantido vivo, que o tinha transformado em C.V — começava, silenciosamente, a cobrar algo que ele não sabia pagar. E o preço do poder, quando chega, não pergunta se o homem está pronto.
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