Algum tempo se passou desde então, Márcia enviou uma mensagem desejando uma boa noite a todos, ela havia chegado em casa. Ao perceberem o horário os amigos trataram de pagar a conta e pegar um táxi, estavam saindo da pizzaria quando o noticiário anunciou uma acirrada luta entre a misteriosa vigilante e um grupo de homens que roubava carros e levava-os a um desmanche ali na cidade. Eles filmaram desde a perseguição até a chegada ao local, houve uma troca de tiros, alguns dos meliantes foram dominados pela garota mascarada, outros, fugiram. Ela saiu em busca deles. Raposa seguia em sua moto cortando os carros em alta velocidade enquanto os amigos saíam da pizzaria e pegavam um táxi assim como a amiga fizera mais cedo. Os homens aceleravam pela rua principal e fechavam os carros em meio à fuga numa tentativa de retardar a aproximação da garota em sua moto, eles não faziam ideia, mas ela os estava guiando a revelar seu esconderijo e área de trabalho sujo. Eles se aproximavam de um ferro velho quase na área residencial ali daquele bairro, o motorista fez uma manobra arriscada ao ganhar mais chão, e com um giro no meio da área livre ele acertou a moto da garota que estava quase de parelha com o automóvel, lançando-a por cima do capô de um carro ali parado, a moto foi chiando a lataria para um lado e a garota caindo para o outro:
― Seus miseráveis filhos da mãe! Eu poli ela hoje de manhã! Ah, mas isso não vai ficar assim não! – disse a garota se levantando com suas duas Heckler e Korsch na mão, as semiautomáticas brilhavam como a luz da lua –Aaaaaaaaah!!! – gritou ela disparando contra o carro que saiu sem demora daquele lugar.
A garota não se deu por vencida, e rolando por cima do capô daquele carro ali parado ela correu até a moto caída ali perto, e após recuperar seu equilíbrio e montá-la, ela partiu atrás dos fugitivos. Os passageiros daquele automóvel comentavam a cena um tanto assustados:
― Ah, meu Deus! Vocês viram aquilo?! Viram só aquilo?! Era aquela garota do noticiário! – disse Lacey impressionada.
― Dessa vez foi um tombo e tanto, será que ela se machucou?
― Eu não sei Sophi, nunca vi ela dessa forma. Mas aposto que bem ela não deve estar. Você viu a forma como ela estava agindo? Parecia meio desnorteada. Sem atenção mesmo com tudo aquilo acontecendo.
― Sim, geralmente é ela quem tira todo mundo do sério com todo aquele sarcasmo e autoconfiança exagerada. O que será que deve estar acontecendo com ela?
― Me desculpem, mas do que vocês estão falando? Vocês a conhecem? - perguntou Lacey.
― Não que sejamos amigos íntimos, mas já nos encontramos com ela por mais vezes do que podíamos imaginar. – respondeu Marco.
― Marco, ela não estava bem. Eu vi as mãos dela, ela estava tremendo. Seu celular, me empresta ele, vamos assistir a notícia online, eles devem estar filmando. – disse Sophie.
― Tá aqui. – disse o amigo entregando-a o celular.
E Sophie estava certa, eles realmente estavam fazendo a filmagem de toda aquela ação, a câmera pegou com perfeição o momento em que a garota fora lançada para fora da janela lacrada de um galpão velho:
― Ué, virou festa agora?! Todo mundo com essa péssima mania de me jogar contra vidraças, portas, e janelas? – disse garota com a mão esquerda a apoiar o braço direito – É o seguinte, vocês conseguiram me deixar muito irritada agora. Não me obriguem a entrar aí de novo. Saiam voluntariamente e eu não machucarei ninguém. Pode ser?
E foi naquele momento que um projétil infeliz irrompeu de dentro do galpão e atingiu a garota de raspão:
― Ai! Que filho mãe! Eu aqui sendo uma pessoa legal, e eles me tratando assim!
― Meu Deus, Marco! Ela foi atingida! – disse Sophie assustada.
― Gente, e cadê a polícia que não chega? – disse Lacey.
― Minha vontade é ir lá ajudar ela. – disse Marco tenso – Mas o que eu poderia fazer? Odeio apenas ter que ficar aqui assistindo!
Os três amigos assistiam as cenas mostradas pelo noticiário em clima de tensão, eles viram a garota entrando novamente no galpão, não viram mais nada após isso, o noticiário não pôde mais cobrir. A garota recarregava suas armas entre um tiro e outro o mais rápido possível, ela tinha improvisado um torniquete no braço ferido, ele estava mais firme agora. Ela calculou o tempo dos disparos e correndo para uma pilastra mais próxima, desarmou um de seus adversários com um tiro, dentro de poucos minutos ela conseguiu se aproximar e atingir o que disparava contra ela. No que se diz de luta corporal, a garota não permitiu uma grande aproximação, sabia que a julgar pelo tamanho e força dos oponentes ela levaria a pior, estava muito ferida e cansada, ela usou seu bastão para dar fim à aquele impasse:
― Ok, eu dei uma chance de vocês saírem na boa, certo? Mas não, vocês decidiram me irritar e atirar em mim. Pois bem, essa é a parte da história em que vocês se arrependem amargamente de terem feito isso. Conhecem aquela dos três caras que entram num galpão e levam uma surra? Não? Eu conto pra vocês. . .
E os três meliantes não se deixaram intimidar pela boca grande daqueles meros 1,68cm de altura e partiram para cima da garota com tudo! Embora o braço ferido, a garota foi rápida e certeira no manuseio do bastão, com três movimentos seus adversários contavam carneirinhos no chão. A garota apoiou-se em seu bastão com certa dificuldade, ela sentou-se no chão por alguns minutos enquanto recuperava-se da luta, estava bem ferida, ofegante. Respirava fundo quando ouviu ao longe a sirene da polícia chegando ao longe:
― Ah, agora vocês chegam né? Agora também não precisa mais, eu estou fabulosa! É sério! . . . E o legal é que eu preciso sair daqui antes deles chegarem. Se essa d***a de ferimento não estivesse doendo tanto também me ajudaria bastante. . . – dizia ela se levantando.
A garota tratou de prender os oponentes inconscientes até que a polícia chegasse e os pudesse algemar. Ela não esperou sua chegada, e certificando-se que tudo ficaria bem, saiu do galpão como um raio e montando sua moto fugiu após despistar a mídia provocando um pequena explosão nuns latões vazios ali perto. Ela tão logo saiu e a polícia chegou, jornalistas de várias emissoras não tardaram a chegar também, ninguém havia sequer encontrado nem sinal da Raposa naquele lugar. Os amigos que chegavam agora próximos à casa de Lacey, comentavam animados:
― Essa garota é impossível mesmo! – disse Lacey impressionada – Todos viram ela entrar, mas ninguém a viu sair! Eu acho que ela deve ser algum tipo de ninja, sei lá.
― Graças a Deus por ela estar bem! – disse Sophie aliviada – Meu medo era a polícia sair carregando o corpo dela além dos bandidos apreendidos!
― Nossa, essa garota é demais! Meu Deus, acho que estou apaixonado! – dizia Marco.
― Você se apaixona por qualquer coisa que apareça de capa ou com algum superpoder! – disse Sophie indiferente – Quando é que você vai crescer, Marco?!
― Nossa, isso vai longe! – disse Lacey – Vou ficando por aqui mesmo. Agradeço pelo convite e pela pizza galera! A minha parte do táxi tá aqui. Boa noite! – disse a garota descendo do carro.
E não demorou muito Sophie também desceu, ela não permaneceria ali naquele carro com Marco após ouvir de sua parte algo que ela considerou extremamente grosseiro e rude. Ela decidiu que iria caminhando para casa, mas não ficaria naquele táxi com aquele garoto sem educação. E ele decidiu que iria caminhando também, e embora ela merecesse muito ir sozinha para casa ele não permitiria que isso acontecesse, ele sabia como as ruas eram perigosas à noite:
― Sophie, pare de bancar a ofendida e volte aqui! Você sabe que não foi aquilo que eu quis dizer!
― Tudo bem Marco, me deixa! Não precisa se preocupar não que eu estou muito bem! Eu só acho engraçado, que com a Lacey você não fala assim! Não, claro que não. . .
Os dois jovens seguiam discutindo como duas crianças enquanto o reverendo do templo batista daquele bairro recebia a visita de dois olhos brilhante que o observavam na escuridão:
― Boa noite, reverendo.
― Santo Deus! Garota, você quer me m***r do coração?
― Me desculpe, mas o senhor disse que eu poderia vir quando quisesse.
― E de fato pode. Mas se for possível evite me assustar desse jeito. Eu só tenho um coração, filha. – disse o reverendo um tanto bem humorado – Em que eu posso ajudá-la?
― Se o senhor tiver uma enfermaria por aqui já é um bom começo. . . – disse a garota saindo da escuridão.
O reverendo se assustou ao ver o estado da garota, e ajudando-a a se manter de pé, ele caminhou com ela para uma salinha naquele lugar, ela estava com sorte, naquele templo realmente havia uma enfermaria. A garota sentou-se numa cadeira num canto da sala, ela tirou o sobretudo e o colete que ia por baixo dele, o torniquete pingava sangue. O reverendo pegou tudo o que era necessário para desinfetar, fazer a assepsia e a sutura do ferimento, ele jogou uma pequena toalha para a garota que não se desgrudava de sua máscara:
― Morda isso com força, vai doer.
E a garota respirou fundo, o processo de curativo teve início:
― Onde foi que aprendeu a fazer isso? – perguntou a garota.
― Eu não fui reverendo minha vida toda sabia? A enfermagem já fez parte da minha vida. Você aprende muitas coisas quando serve ao exército.
― Muito interessante. Afinal, quem diria que um reverendo serviria ao exército e saberia fazer todas essas coisas?
― Concordo, quem diria que uma garota tão jovem como você estaria aqui agora com ferimentos feitos à bala, e um sentimento de vingança maior que o próprio ego? E olha que você tem um ego grande!
― Xeque mate, reverendo! O senhor me pegou agora, eu admito! Um a zero para o senhor! – riu a garota.
O reverendo terminava a sutura, a garota bufava de dor, ela suspirou aliviada quando ele terminou:
― Prontinho, terminei. Vai precisar limpar regularmente e trocar o curativo. Você tem os materiais necessários para isso?
― Tudo bem, eu tenho sim. Agradeço muito a ajuda. Eu não teria conseguido sozinha. – disse a Raposa vestindo seu colete e sobretudo novamente.
― Dia difícil?
― Um pouco. As lembranças e a saudade foram minhas piores inimigas hoje.
― Minha filha, por que motivo ainda você continua insistindo nisso? Por que simplesmente não deixa tudo isso de lado e volta para casa? Por que não abandona tudo isso e volta para os seus?
― Porque eu já cheguei até aqui. O senhor não tem ideia de quanto sacrifício eu tive que fazer para eu chegar onde estou. Agora não tem mais volta.
― Sim filha, tem sim. Basta se arrepender disso. Basta se arrepender dessa ideia suicida minha filha.
― Reverendo, eu prometi para os meus amigos que eu encontraria esse canalha e vingaria a eles, e é o que eu vou fazer, nem que eu tenha que morrer para isso.
―Filha, veja bem o preço!
― Eu já vi, e estou disposta a pagá-lo. Não morrerei enquanto não cumprir a promessa que fiz a eles! Bem, obrigada reverendo, muito obrigada mesmo pela ajuda, me sinto muito melhor! É bom saber que se pode contar com um amigo nesses dias frios. – disse a garota com um aperto de mão amigável - Bom, preciso ir agora. Boa noite! – disse a garota apanhando seu bastão.
― Por nada filha, volte com mais tempo para conversarmos melhor! Vá com Deus!
E a garota acenou antes de sumir na penumbra do corredor. Ela saía da área correspondente ao templo quando topou com dois jovens ali perto. Eles a olharam espantados:
― Um templo batista? Sério?
― O que foi? Não posso mais ir à igreja agora?
― Vimos o noticiário mais cedo, inclusive você rolou por cima do capô do carro em que estávamos hoje. Você está bem?
― Sim, Sophie. Eu estou. Obrigada. Recomendo que não se demorem nas ruas agora, assim vão garantir que também ficarão bem.
― Sim nós sabemos que sim, afinal, temos você para nos proteger! Ah, cara! Você é tão irada! Foi incrível o que você fez hoje, aliás, tudo o que você faz é incrível! Eu amo você! Por favor, você não gostaria de ter alguém do seu lado? Não gostaria de alguém para fazer uma “dupla” com você?
Sophie sentiu que morreria naquele mesmo momento. A garota mascarada respondeu:
― Não seja i****a garoto, se aproximar de mim é o mesmo que flertar com a morte. Eu trabalho sozinha. E qualquer i****a pode notar que vocês são louquinhos um pelo outro. – disse a garota dando partida e acelerando a moto em seguida.
Os dois jovens ficaram lá se olhando completamente sem jeito e nem assunto. Marco acompanhou Sophie até em casa, os dois se despediram no portão, haviam feito as pazes em meio a olhares e silêncio, eles já sabiam o que o outro queria dizer, se despediram com um abraço, Marco seguiu para sua casa. Na manhã seguinte Sophie despertou ao som do celular vibrando com uma mensagem de Márcia. A garota ficaria fora durante alguns dias, seus pais viriam buscá-la para visitar sua avó que não estava lá muito bem de saúde. A amiga mandou uma mensagem de volta, desejou melhoras à avó da garota, e se despediu. Aquele foi o primeiro dia de vários outros muito longos por sinal. Eles pareceram se arrastar, e para completar, o jogo de paintball de Marco que aconteceria naquela semana foi adiado pela falta de mais dois integrantes em sua equipe, até mesmo o passeio ao clube que Sophie havia programado foi adiado, uma corrente fria baixou sobre a cidade, os programas foram adiados para a semana seguinte. A Raposa também não apareceu naqueles dias:
―É, faz tempo que a gente não tem notícias da Raposa. . . – dizia Marco sem assunto.
― Que estranho. . . – disse Sophie pensativa.
― É mesmo, será que ela não gosta de frio? – disse Marco pensativo.
― Eu não estou falando disso, estou falando da última vez que nos encontramos com ela. – interrompeu-o Sophie.
― E o que tem isso?
― Ela me chamou pelo nome. Como ela poderia saber? Você nunca me chamou pelo nome na presença dela.
― Talvez eu tenha, e só não nos lembramos.
― Tenho absoluta certeza que não Marco.
― Ah, não vai cismar com isso né Sophi? Como é que ela poderia saber? Ela nem nos conhece! Não vai me dizer que está suspeitando dos nossos colegas, né? Um bando de playboys e patricinhas mimadas. Nem rola de serem eles! O primeiro grito um pouco mais alto que escutassem, se deitariam no chão e ligariam para o papaizinho. . .
― Deixa pra lá Marco, não dá pra conversar nada com você mesmo. . .
E a garota não tocou mais no assunto, ela guardou aquilo para si e ficou remoendo tudo em silêncio, pensando em como aquela misteriosa garota mascarada poderia saber seu nome. A semana foi passando, com muito custo o Domingo chegou, e com ele, Márcia. A garota que chegaria na Segunda de manhã desembarcava no aeroporto no Domingo à tarde, Marco, Sophie e Lacey foram recebê-la, Sophie havia planejado uma pequena recepção em sua casa, fizeram um bolo de chocolate com recheio e cobertura de brigadeiro decorado com confeitos coloridos, os amigos se assustaram ao ver a amiga com uma tipoia no braço e leves escoriações pelo rosto e cotovelos puxando sua mala de rodinhas pelo saguão do aeroporto:
― Quem é vivo sempre aparece! – disse Marco andando na direção da amiga com os braços abertos – Deixa eu te ajudar com isso. – disse ele pegando a mala da amiga.
― Meu Deus Márcia, o que foi que você arrumou nesse braço? – disse Sophie após abraçá-la.
― Você quer dizer no braço, e em todo o resto da cara né? - disse Lacey após cumprimentar a amiga - Olha só os cotovelos! Menina, você anda se metendo em brigas ilegais é?
― Antes fosse! Pelo menos eu teria grana! O que aconteceu é que tomei um tombo daqueles! – respondeu a garota em meio às risadas – Minha avó mora num sítio no interior, e numa bela manhã de sol, após a chuva que caiu por lá na noite anterior, eu estava indo alimentar as galinhas quando levei o maior tombo da minha vida descendo numa parte meio íngreme do terreno. No final das contas foi minha avó que teve que cuidar de mim. Mas meus pais estavam certos, como sempre, era só manha dela mesmo, estava ótima, apenas carente de atenção. Se eu tivesse puxado ela, já tinha pirado há muito tempo!
― É verdade, ter os pais sempre viajando à trabalho e morar sozinha deve ser difícil. – disse Sophie.
― Ah, eu já me acostumei. Difícil mesmo é quando a gente fica doente ou se machuca sem ninguém por perto, aí a coisa complica, mas felizmente. . . – dizia Márcia.
― . . .Você vai pra minha casa, e vai ficar comigo lá até melhorar. – interrompeu-a Sophie.
― . . . Eu ia dizer que felizmente já acostumei com isso também, mas. . . – retomou Márcia novamente.
― “Mas” nada! Você vai ficar lá sim e pronto. Além do mais, você está com o braço machucado e não pode fazer nada pra nos impedir. Já estamos te levando direto pra lá agora. – disse Sophie enquanto caminhava ao lado da amiga.
Os três pegaram um táxi, (nada de dirigir o carro dos pais enquanto não tirassem a habilitação) dentro de pouco estavam na casa da amiga, Márcia alegrou-se com seu bolo de boas-vindas:
― Chocolate é vida! – disse Márcia com a boca suja.
― Então você vai viver eternamente depois de tanto chocolate espalhado pela cara. – brincou Lacey.
― Fazia tempo que eu não comia algo assim! – disse Márcia servindo-se de mais um pedaço de bolo.
― Fomos à confeitaria um dia desses. . . – dizia Sophie enquanto observava a amiga se esbaldar em brigadeiro e confeitos.
― Eu me refiro a algo que alguém tenha feito especialmente para mim. A última vez que alguém fez isso, ganhei esse pingente. Era meu aniversário. – disse Márcia pensativa.
― Belo crucifixo. – disse Lacey.
― Não é mesmo? E quando é seu aniversário Marci? – perguntou Marco.
― Por incrível que pareça. . . hoje. – respondeu a amiga.
― Que legal Márcia, parabéns! – disse Lacey – Por que não falou antes?
― Porque ninguém perguntou. Nem eu mesma me lembrava, já passou em branco tantas vezes. . . Meus pais são tão esquecidos como eu. – respondeu Márcia lambendo os dedos.
― Olha só, estávamos comemorando sem saber! – disse Sophie - Quantos anos?
― Dezessete.
Os amigos quase caíram da cadeira, não criam que aquele pequeno ser menor que todos ali na sala completava dezessete anos:
― Mas garota, você parece um bebê! – disse Lacey incrédula.
― É, fazer o que se eu tenho poderes élficos de juventude eterna? Me invejem! – brincou Márcia com uma expressão de soberba.
― Então deixa eu te dar um abraço de parabéns seu elfo! – disse Marco levantando-se de sua cadeira.
― Pra você é senhorita elfo. – brincou a amiga com uma expressão esnobe.
Sophie foi a próxima, só não demorou-se um pouco mais no abraço porque Márcia lembrou-a de que a tipoia estava ali por um motivo, a garota olhou para a amiga de um jeito tão materno fraternal, que a fizera estremecer ao olhar aqueles olhos azuis:
― . . . Melissa? – pensou a garota antes de voltar à realidade com um abraço de Lacey.
― Que engraçado . . . – dizia à garota ao abraçá-la – Você tem cheiro de avelã.
― Fazer o que se eu sou um doce de pessoa? – brincou Márcia novamente.
― Porque a humildade por aqui é farta, né Marci? – provocou o amigo.
― Acho que você deve se lembrar da mesa que estava quebrada, né Marco? – disse a garota.
― A que você quebrou? – continuou o amigo.
― Quer o mesmo destino? – disse a garota com os olhos semicerrados num fingido tom de ameaça.
―Você tá com o braço machucado, lembra?
― Não vai ficar assim pra sempre Marco. Um dia ele vai melhorar, e você terá esquecido o assunto, só que eu não . . .
― Parei, Marci! Agora você me deu até medo! Que garota sinistra que você é. . .
- Que isso! Eu sou um amor de pessoa . . .
E os amigos seguiram a comemoração da volta (e do aniversário) de Márcia em meio às brincadeiras e risadas. Eles assistiram um filme naquele dia, Lacey teve que ir embora um pouco mais cedo à pedido de seu pai que precisaria sair para comprar um presente e necessitaria de sua ajuda, o que foi muito melhor para evitar qualquer incidente vindo da parte de Sophie uma vez que ela fosse embora com Marco. Ela despediu-se de todos e partiu após um beijo na testa da amiga menor que todos ali:
―Você até me lembra minha irmã . . . Bem, vou indo galera, bye!
Márcia agradeceu a todos, estava realmente satisfeita com tudo aquilo. Há muito ela não recebia uma homenagem daquelas. No mais, ela não passou mais que três dias na casa da amiga, ao final do terceiro dia ela inventou uma desculpa qualquer e foi para casa, ela já estava acostumada com a solidão. A garota recuperava-se rápido, e no final daquela semana já havia arrancado a tipoia, o que quase fez com que Sophie batesse nela. A semana seguinte seguiu-se tranquila, a frente fria ainda persistia um pouco, contudo, o sol já apontaria forte no final dela. Marco finalmente havia conseguido as duas pessoas de que precisava para sua equipe (Sophie quase morreu ao saber que uma delas era Lacey, que tivera sua mira impecável descoberta pelo amigo numa das barraquinhas do parque ali da cidade) e no mesmo dia após o jogo, os amigos iriam à um clube que por mera coincidência ficava lá perto. As coisas iam bem, tudo estava tranquilo na cidade. Nada de roubos com reféns, nada de desmanches, nada de nenhum crime que a polícia não desse conta de resolver sem a ajuda da Raposa. Talvez nem ela mesma precisasse retornar, se uma coisa não tivesse saído diferente: O maníaco havia voltado.