Capitulo 4

4913 Palavras
Era de manhã quando Márcia acordava em casa com seu celular ao som de Oh Fortuna, de Carl Orff, era Sophie, estava preocupada com a amiga que não aparecia já há dois dias seguidos sem dar explicação:   ― Ahn. . .alô?   ― Meu Deus, Márcia! O que foi que aconteceu com você?!   ― Mas o quê. . .?   ― Faz dois dias que você não vem na escola e nem dá notícias! Eu te liguei umas cinquenta vezes! Você está bem?! Aconteceu alguma coisa? Com essa onda de sumiços de garotas eu fiquei preocupada!   Realmente haviam cinquenta ligações perdidas registradas no celular da garota. Sophie não estava brincando. A garota podia ouvir o amigo falando do outro lado:   ― Calma Sophie, ela está bem, atendeu o celular, o que já é um sinal de que ela não está morta!   ― Ah, cala a boca Marco! Você é outro irresponsável que quase mata a gente de preocupação! Márcia Bruna Van Basten, estamos te esperando aqui na escola! É bom que você venha hoje nem que seja pra entrar na segunda aula! Está me ouvindo?!   A garota respondeu com qualquer grunhido que parecia uma resposta positiva, antes de desligar ela pôde ouvir o amigo lhe falando ao longe:   ― Vê se você vem mesmo hein? Senão sua mãe aqui vai te por de castigo! Há há há !!! Ai, Sophie! Não precisa me bater!   E a ligação foi encerrada. A garota olhou o relógio, faltavam cinco minutos para as oito horas da manhã, ela levantou da cama de um salto, sabia que nunca chegaria a tempo para a primeira aula. A atrapalhada colegial vestiu-se às pressas, e com meia fatia de pão na boca terminou de calçar suas sapatilhas ao virar a esquina. Ao soar o sinal da segunda aula ela entrou na sala; de repente o chão lhe pareceu muito mais interessante do que olhar para os amigos sentados ali no canto da sala. Márcia quis morrer ao encarar os olhos claros de Sophie lhe fitando como quem dá uma bronca, no intervalo ela ouviu uma ou duas coisinhas da parte da amiga:   ― Mas como é que você some assim sem nem dar uma explicação? Marci, nós achamos que alguma coisa tinha acontecido com você! Qual é o seu problema?!   ― Mas Sophie. . .   ― Não Marci, dessa vez ela está certa. Você poderia ter ao menos mandado uma mensagem avisando. – disse Marco – Onde você se enfiou?   ― Gente, na boa, eu juro que simplesmente cheguei em casa e apaguei! Eu dormi. – defendeu-se a garota – Mas sinto muito por ter causado tanta preocupação. Deve ser doença, eu não sei, mas cheguei em casa exausta e dormi durante dois dias, foi só.   Sophie parecia realmente perturbada, ela caminhou até a amiga, e segurando-a pela gola do uniforme, olhou-a com os olhos brilhando:   ― Marci, presta atenção, o mundo lá fora é diferente das coisas aqui na escola. Você tem visto as coisas que estão acontecendo nestes últimos tempos com esse p********o à solta. Por favor, não some desse jeito! Você não sabe o quanto eu me preocupei com você! Você se lembra daquela garotinha, a Júlia? Pois é, ela foi sequestrada há dois dias, mas foi salva pela Raposa antes que esse miserável que anda solto por aí pudesse fazer alguma coisa. Marci, você desapareceu no mesmo período que ela, e diferente dela que foi encontrada no mesmo dia do sequestro, você sumiu por dois dias! Você não sabe o quanto eu temi que a próxima vítima a aparecer no jornal fosse você! Você não sabe como eu temi por você! – disse a garota com uma lágrima correndo pelo canto dos olhos – Ai, que vontade de bater em você Márcia! Sua irresponsável! Não faça mais isso garota!   Márcia olhou com uma expressão um tanto surpresa para o rosto da amiga que lhe segurava a gola da camisa muito firmemente:   ― Perdão gente, não foi minha intenção, eu realmente passei dois dias dormindo, não queria causar esse alvoroço todo. Olha Sophie, eu juro que. . .   Não houve a conclusão da frase. A garota foi puxada para um abraço, fazia muito tempo que ela não recebia algo assim, fazia muito tempo que ela não abraçava ninguém daquele jeito. Marco ficou olhando as duas amigas:   ― Que linda reconciliação! Isso é porque é com você, se fosse eu, já teria levado uma facada dela!   ― Não seja i****a Marco, você sabe que me preocupo com vocês!   O amigo riu ao ver a expressão de indignação no rosto da amiga, ele caminhou todo sorrisos e de braços abertos na direção dela:   ― Calma Sophi, eu sei que sim! Só estava brincando com você! Eu sei que nós temos a melhor amiga do mundo! – disse ele abraçando-a seguido de um beijo no rosto.   ― Ah, sim! Agora sim! É assim que eu gosto de ver vocês! Vê se não estraga tudo hein Marco? – disse Márcia com uma piscadela.   Ela teria que dar algumas explicações se Júlia não aparecesse correndo por um dos portões do pátio com um longo casaco n***o perseguindo alguns de seus coleguinhas disparando tiros imaginários com os dedos:   ― Eu sou a Raposa! Vocês não podem fugir de mim!   ― Que energia hein? – riu Sophie.   ― Olá! Como vão vocês? – cumprimentou-os a garota animadamente.   ― Como vamos nós? Como vai você! Fiquei sabendo que você viveu uma aventura e tanto nos últimos dias, e que foi muito corajosa! – disse Márcia.   ― Se foi! – disse Marco - Ela enfrentou tudo aquilo e voltou para a escola no dia seguinte! Eu não sei se eu conseguiria!   ― Eu não poderia deixar de vir! Se a Raposa foi corajosa pra me salvar daquele lugar e daqueles caras, eu também posso ser e vir pra escola! E eu vou ser igual a ela!   ― Eu não duvido! Se continuar assim, forte e corajosa, vai mesmo! – sorriu Márcia.   A garotinha sorriu, e voltando-se para Márcia e seus amigos ela disse sacando suas armas imaginárias:   ― Obrigada gente, mas agora tenho que ir, o dever me chama! – disse ela com uma pose heroica – Nossa, você tem um belo crucifixo aí hein moça? Isso pode chamar atenção, cuidado com os malfeitores! Até mais!   E partiu correndo atrás de um colega que ela viu passar próximo ao jardim. Os amigos que até então não haviam reparado no pingente que a garota usava em um cordãozinho no pescoço, admiraram-se ao ver aquela delicada peça que havia sido revelada por um botão acidentalmente desabotoado em meio a tantos sacolejos pela gola da camisa:   ― Nossa, ele é lindo mesmo, eu nunca tinha reparado isso em você Marci. – disse Sophie aproximando-se da peça.   ― É melhor tomar cuidado mesmo, parece ser caro. Quem te deu? – disse Marco.   ― Foi uma amiga. Mas isso faz muito tempo. Ganhei de aniversário. Éramos melhores amigas na época, seu nome é Melissa.   ― Vocês deviam se gostar muito mesmo, esse pingente é lindo! – disse Sophie enquanto caminhavam até o bebedouro.   ― Éramos como irmãs. Ela era minha única amiga na verdade, simplesmente fantástica! Era a coisa mais doce e carinhosa que você pode imaginar! – dizia ela de maneira tenra – Ela também jogava duro comigo quando precisava. Era como você Sophie, com a diferença de que não tentava me m***r. Realmente maravilhosa! Pena que não pude ser… Não consegui chegar à altura dela. – disse Márcia agora num tom um tanto pesaroso e melancólico.   Marco percebeu a tristeza nos olhos cinzentos da amiga, Sophie entendeu o olhar do amigo em relação a ela, não houveram mais perguntas, ele tirou uma pequena barra de chocolate do bolso e a deu a Márcia:   ― Não fica triste não Marci, pega, isso vai melhorar o seu humor.   ― Uau, chocolate! E de graça! Será que se eu chorar você me dá uma caixa de bombons também? – riu a garota tentando parecer melhor.   ― Que nada! Você já está é bem! Sua cara de p*u! Devolva o meu chocolate! – disse o garoto rindo do cinismo da amiga.   ― Devolvo sim, só um momento! Pronto! Pode pegar! Está com sabor de Márcia agora. – disse a garota estendendo o chocolate na direção do amigo após lambê-lo dos dois lados.   ― Credo! Vocês são muito nojentos! Alguém já disse isso pra vocês alguma vez? – disse Sophie com uma careta de nojo.   ― Ah, que isso Sophie! Eu tenho um pedacinho pra você também, toma pode pegar! – disse a garota aproximando o doce lambido da amiga.   ― Credo Marci, tira isso de perto de mim! Anda, sai com isso pra lá! Para com isso Marci! Credo! Sai! – correu Sophie.   ― Pega ela Marco!   ― Pego, sim! Pode deixar! Ei Sophi, volta aqui! Prova um pedacinho, tá uma delícia!   ― Credo Marco! Que nojo! Não chega de perto de mim!   ― Então me dá um abraço!   ― Não! Sai pra lá!   ― Ô Sophi, só um. . .   ― Não Marco, vocês dois são nojentos, credo! Sai pra lá! Sai!   E os três sumiram correndo pátio afora. Sophie corria na frente e seus dois amigos nojentos atrás; tudo estava bem agora, e assim permaneceu até certo tempo após o período em que a Raposa salvara Júlia e descobrira o local de esconderijo do tal maníaco, e c*******o das garotas sequestradas por ele. Aquele mês foi bem tranquilo, os alunos conseguiram colocar suas matérias em dia, a rotina da Raposa não lhe consumia mais montes energia. . . Tanto, que a garota havia arranjado tempo até para fazer algo há muito não fazia: expiar os seus pecados. Havia um pequeno templo batista no centro da cidade, os fiéis já haviam ido embora e as portas já haviam se fechado quando caminhando para a saída o reverendo sentiu uma presença às suas costas, havia alguém ali, observando-o na escuridão. Ele se assustou com um movimento:   ― Jesus!   ― Não, me desculpe, eu não sou ele. Longe disso na verdade.   ― Quem é você?   ― O que é isso reverendo, o senhor não tem assistido ao noticiário? Eu sou a Raposa n***a. – disse a garota saindo das sombras com a mão estendida em sua direção – Muito prazer.  O senhor tem um tempinho para uma ovelha desgarrada?   ― Bem, e porque não? Todos são bem vindos à casa de Deus. – respondeu o reverendo retribuindo o gesto da garota – Reverendo Thomas. Muito prazer. Vamos lá, fique à vontade, sente-se. – disse o reverendo lhe mostrando um banco mais próximo após acender a luz.   ― Obrigada.   ― Então minha jovem, o que te traz aqui?   ― Quem eu sou. Ou melhor, quem me tornei. Acontece reverendo, que ao contrário do que todos pensam, eu não sou uma h*****a. Eu sou apenas uma pessoa em busca de vingança. E farei o que for preciso para alcançá-la.   ― Como alguém tão jovem pode pensar em vingança? É apenas uma menina ainda. . .   ― Não deixe meu rosto e aparência jovial enganarem o senhor, reverendo. Esses olhos já viram, e esse corpo já sofreu muito mais do que se pode imaginar. Já vivi, digamos que. . .um pouco mais do que aparento.   ― Tudo bem, então me diga, o que te perturba minha filha? Qual é o motivo da sua vingança?   ― Um ser desprezível. Um homem que não estando satisfeito com minha miséria, teve de levar outras pessoas comigo. . . O grito dela ainda ecoa na minha cabeça todas as noites.   ― O grito de quem?   ― De Missy. Ele a torturou na minha frente, e na frente do meu amigo Joshua. Eles o espancaram sem nenhuma misericórdia e o forçaram a ver. Eu estava ferida e sem forças no chão, mas antes que ele pudesse matá-la, eu o presenteei com um corte de garrafa e lhe abri um lindo sorriso no rosto. Ele me socou de volta e eu bati com a cabeça numa parede, pouco antes de desmaiar eu vi os pés de alguém que nos salvou. Eu não sei quem essa pessoa é, mas sei que depois que acordei e enfrentei toda aquela vergonha e humilhação que passei, eu me empenhei, e tornei minha missão pessoal, caçar, encontrar, e m***r o desgraçado que acabou com nossas vidas!   ― Eu compreendo e realmente sinto muito por isso. Pelo jeito como você fala, deve estar se referindo a. . .   ― . . .Um predador de menininhas, reverendo. É disso que eu estou falando.   ― Eu lamento muito que isso tenha lhe acontecido. A polícia não tomou providências quanto a isso? Não fizeram nada a respeito?   ― E o que poderiam fazer? Ele se tornou como um fantasma, não conseguiam encontrá-lo, já eu, enquanto me recuperava e me preparava, tive que aprender a seguir seus rastros. Então, quando eu finalmente estava pronta, ele saiu do país e veio para o Brasil.   ― Um país onde tudo é mais fácil, e a impunidade é muito maior? – sugeriu o reverendo.   ― Um país onde com um pouquinho a mais de dinheiro, dá pra fazer muita coisa. – concluiu Raposa – Um lugar onde após muitos anos, eu finalmente o reencontrei e lhe patrocinarei pessoalmente uma passagem só de ida pro inferno.   ― Eu compreendo seus motivos, mas está ciente de que se matá-lo, estará praticamente lhe dando direito a um acompanhante (que será você) nessa viagem só de ida ao inferno, certo? – disse o reverendo.   ― E o que o senhor quer que eu faça? Que eu espere que Deus me vingue?   ― Bem, sim. Ele é o nosso vingador.   ― Vai me desculpar, mas estou preferindo os de Nova York. Eu não posso esperar por tanto tempo, daqui a pouco a polícia chega na cola dele e ele foge de novo. Mas antes que isso aconteça eu vou agir! Sim, ele vai pagar o que fez à mim e aos meus amigos, e será pelas minhas mãos! Eu vou fazê-lo ciente dos motivos do sofrimento dele. . . O salário do pecado não é a morte? Então, pode deixar que eu mesma assino a folha de pagamento dele! – disse a garota num tom raivoso – Bem, preciso ir agora, agradeço a agradável conversa reverendo. – disse ela se levantando do banco onde havia se sentado.   ― Volte quando quiser. E lembre-se, se matá-lo, apenas estará acumulando milhagens para uma viagem só de ida pro inferno junto com ele.   ― Te mando um cartão postal de lá! – disse ela com um aceno enquanto caminhava em direção à porta.   ― Mas filha, se você fará isso de qualquer jeito, e eu não pude dissuadi-la, porque veio?   ― Eu não vim para que me dissuadisse de nada.   ― Então para quê?   ― Ué, não está escrito que devemos confessar nossos pecados uns aos outros para que saremos? Pois é, eu tô toda arrebentada por dentro. Os curativos que eu faço nos ferimentos do meu corpo são apenas externos, e a não ser alguns ossos, eu não consigo consertar o que está quebrado por dentro.   ― Filha, matá-lo não vai curá-la.   ― Mas vai impedir que ele machuque outras pessoas. . .   ― Que Deus tenha misericórdia de você filha!   ― Que tenha daquele desgraçado! Por que eu não vou ter! Bem, obrigada reverendo, graças a sua ajuda estou muito melhor! Deus abençoe o senhor! – disse ela antes de sumir na escuridão.   ― Que abençoe você, filha. . . – disse ele olhando-a sumir na porta.   A garota cujo sobretudo esvoaçava com o vento da moto em alta velocidade segurava a câmera confiscada no último resgate. Ela estava de volta à sua toca agora, e dando entrada no cartão de memória contido na pequena filmadora, ela encontrou imagens e vídeos realmente perturbadores:   ― Deus! Como esse homem pode ser tão imundo? Quanta crueldade! Elas são apenas meninas! Que porco miserável! E ele se aprimorou nisso. . . Argh! Você gosta de dominar, não é seu s****o? – dizia ela olhando para o rosto do maníaco no vídeo – Vamos ver se você vai gostar das correntes que eu tenho preparadas pra você! Eu vou te pegar. . . Sim, você não perde por esperar! Vou destruir você, seu desgraçado! Missy, Josh, vocês tem a minha palavra!   No outro dia após as aulas, Márcia e seus amigos tomavam sorvete enquanto caminhavam pelo parque, Marco comentava animado sobre um jogo de paintball que ocorreria no dia seguinte, ele precisava de mais duas pessoas para fecharem as equipes:   ― Marci e eu podemos ir se quiser!   ― Vá você! – disse Márcia – Com a sorte que tenho, e desastrada do jeito que sou, no máximo vou acertar um tiro na minha própria cara! Não, obrigada!   ― Agradeço o interesse Sophi, mas não sei não. . . Você pode ser boa em esportes e tudo mais, mas, não acho que paintball seja a sua praia. Ou da maior parte das garotas lá da escola. . .   ― Entendo, inclusive vou deixar o número do meu celular com você, assim, quando você parar com esse seu ataque de machismo você me liga, ok? – disse a garota empurrando o peito do amigo com o indicador.   ― Por favor Sophi, já vai começar? – disse o garoto com cara de tédio.   E enquanto os dois discutiam a questão, Márcia observava tudo à sua volta: as cores, as árvores, as flores. . . Ela sentia o aroma que exalava em conjunto de todas elas, sua pele clara deliciava-se com a brisa que soprava naquele lugar, os três amigos dirigiam-se para uma frondosa árvore ali perto quando sua atenção fora chamada para uma garota muito bonita que acabava de entrar no parque. Seus olhos eram cinzentos como os de Márcia, contudo seus lisos e negros cabelos lhe davam um pouco mais para baixo dos ombros. Sua pele era tão clara quanto da espectadora, ela estava de uniforme, assim como os amigos que ali passeavam, também havia saído da escola há pouco:   ― Nossa, ela é linda. – disse Márcia involuntariamente.   ― Quem? – perguntou Marco distraído.   ― Aquela menina que acabou de chegar. – respondeu Sophie seguindo o olhar da amiga.   ― Uau, é mesmo! – concordou o garoto - Mas Márcia, o que você está dizendo? Ela é praticamente a sua cara! Uma versão mais alta de você, eu diria, mas a sua cara!   ― É verdade! Marco está certo!  Se fossem do mesmo tamanho eu poderia confundir vocês! – disse Sophie.   Márcia olhou para os lados por um momento, sentia como se estivessem sendo observados, ela não conseguiu ver ninguém, mas havia alguém ali no parque além deles a observá-la. Márcia sentia-se incomodada com aquela sensação, por algum motivo ela sentia-se m*l por aquela garota, poderia se dizer que até inexplicavelmente, medo. Sua expressão mudou involuntariamente, seus amigos notaram:   ― Nossa, que cara é essa Marci? – perguntou Sophie.   ― O quê?   ― Tem alguma coisa errada? – perguntou Marco – Foi algo que eu disse?   ― Não, não foi nada não. Só estava pensando um pouco mesmo sobre nós duas sermos tão parecidas. – respondeu a garota.   ― E isso por acaso é r**m? Vocês duas são lindas! – disse Sophie.   Márcia olhou para a garota mais uma vez, e olhando para os lados como se esperasse encontrar alguma coisa ali naquele lugar, ela voltou-se para a amiga:   ― Olha, digamos que se parecer comigo pode não ser a melhor coisa do mundo. . .   ― Porque amor próprio é tudo, né Marci? – disse Marco num ligeiro tom de sarcasmo.   ― Acho que já cheguei a mencionar que você é engraçado como um tijolo, certo? – disse a garota colocando seus óculos escuros - O dia hoje está realmente lindo! Mas o que tem de lindo tem de quente também! E como não pretendo ter uma insolação, vou colocar um boné bem estiloso aqui pra combinar com o sorvete e meus óculos escuros. Pronto, estou fabulosa!   Sophie riu:   ― Está parecendo mais um rapper!   ― Mas eu sou um rapper fabuloso! Não é Marco?   ― Se é! Nossa, essa merece até uma foto! Cheguem mais pra cá! Pronto. Todo mundo de careta na foto hein? Faz uma cara de mano, Marci. . . isso! Vamos lá, no três hein. . .? Um, dois. . . Pronto! Vou mandar imprimir e fazer um quadro pra eu olhar quando levantar de manhã.   ― Inspirador! – disse Márcia com cara de deboche.   E as fotos não pararam por ali, aquela primeira rendeu muitas outras! Márcia até chegou a esquecer aquela sensação incômoda por um momento, ela realmente estava se divertindo. Eles se revezavam volta e meia para tirarem as fotos com o celular do amigo. Houveram umas duas em particular que Márcia havia gostado muito Marco e Sophie estavam mais próximos, havia mais que amizade naquela troca de olhares, e Márcia apreciava aquilo. O amigo ainda quis mais uma foto antes de encerrarem, mas precisariam de uma quarta pessoa para aquilo, queria uma foto em que os três aparecessem de maneira integral; e foi naquele momento que Marco se dirigiu até aquela garota que havia lhes chamado a atenção devido à grande semelhança com a amiga. Eles se posicionaram, Marco ficou à esquerda de Sophie, e ela à direita de Márcia, que ficou no meio, entre os dois. Por serem mais altos que a amiga, a foto saiu parecendo a de uma antiga família tradicional, Marco a colocaria como papel de parede, o que fez a fotógrafa rir:   ― Bela família essa de vocês.   Os amigos riram, Marco agradeceu, e com um sorriso disse:   ― Obrigado!  Até porque é isso que somos! Uma família. Obrigado pela foto, eu sou Marco.   ― Lacey. – disse a garota apertando a mão do garoto com um sorriso.   E a partir dali eles começaram a interagir com a garota, ela era realmente simpática e agradável, o senso de humor era parecido com o dos amigos, então não foi lá muito difícil manter um bom diálogo com ela. Puxaram assunto, falaram da escola de onde vinham, perguntaram se ela era nova por ali, e num vai e vem de sorvetes descobriram que ela era americana, tinha se mudado com os pais para o Brasil havia dois anos, contudo, aquele lugar era novidade para ela. Passaram um bom tempo juntos, tiraram mais algumas fotos, Márcia voltou a sentir aquela sensação, houve mais uma pessoa em uma das fotos daquele dia, Márcia guardou seu celular:   ― Bem, já está ficando tarde. . . – comentou Lacey.   ― Concordo. – apoiou Márcia – O tempo voa quando a gente se diverte. Preciso estudar hoje para aquela prova de biologia, e se eu não der um jeito de começar o quanto antes, não estudo nunca mais. Bem, foi um prazer te conhecer Lacey, espero que possamos nos encontrar mais vezes. – disse a garota com um aperto de mão.        ― Eu que o diga! O prazer foi todo meu! Nossas escolas não são tão distantes, podemos marcar de nos encontrarmos mais vezes. – disse a garota retribuindo o gesto de Márcia.   ― É claro! Anota meu número aí! – Ofereceu-se Marco.   Por um momento Sophie fez um movimento involuntário com os olhos, uma expressão mista de reprovação e incredulidade, suas bochechas se avermelharam por um segundo, aquilo seria ciúme? Ela tratou de se recompor e anotar o número da garota com a mesma disposição do amigo antes que alguém pudesse supor alguma coisa. Márcia pegaria com eles mais tarde, ela realmente precisava ir estudar, quase havia perdido média naquele trimestre e isso não poderia acontecer novamente, ela sumiu andando ao atravessar a rua na próxima esquina. O tempo foi passando, logo Lacey e os amigos estavam mais próximos, volta e meia saíam para algum lugar, Márcia ficou maravilhada e particularmente interessada no momento em que a garota mencionou algo sobre a cidade de onde viera, eles estavam numa pizzaria quando Márcia revelou uma parte sanguínea de seu temperamento que ninguém conhecia até então:   ― Desculpa Lacey, você disse que veio dos Estados Unidos, mas, não disse de onde. – dizia Sophie entre um gole de refrigerante e outro – De que região você é?   ― De Boston. – respondeu a garota.   ― Boston?! – disse Márcia com um t**a na mesa.   Os amigos se assustaram, Lacey riu da reação da garota de olhos brilhantes ali em sua frente e continuou:   ― Sim, inclusive meus pais e eu viemos para cá a negócios da empresa para que eles trabalham. Não sei se vocês já ouviram falar, mas, são os Ashford da indústria de alimentação. Na verdade, são produtos naturais, agrícolas, cultivados sem agrotóxicos, eles tem muito prestígio no meu país.   ― Que mundo pequeno! – disse Márcia - E como eles estão?   ― Eles quem?   ― Os Ashford!   ― Bem, da última vez que meus pais falaram com eles estavam bem. Nunca mais foram os mesmos depois do desaparecimento da única filha deles. Você os conhece?   Márcia que até então aparentava grande inquietação, pareceu ter sido atingida com um balde de água fria quando percebeu os olhares dos amigos em sua direção:   ― Não, não, é que. . . Bem, um de meus tios já chegaram a conhecê-los certa vez num jantar de negócios e chegou a mencioná-los numa conversa com meus pais quando eu estava por perto. Disseram algo sobre eles serem pessoas muito boas, mas, é só. – disse a garota enfiando meio pedaço de pizza na boca e afundando-se em seu banco no estabelecimento.   ― É verdade, eu sempre ouvi falar muito bem deles. – disse Lacey.   ― Imagino que então eles realmente sejam ótimos! – disse Sophie.   ― Sim. – afirmou Lacey – Eles são mesmo. Nenhum de seus funcionários tem do que reclamar, são patrões muito bons. Depois do desaparecimento da filha é que ficaram mais reservados, contudo, continuam bondosos para todos.       ― O que aconteceu? Quero dizer, você disse que a filha deles desapareceu, o que aconteceu com ela? – perguntou Marco se servindo de mais um pedaço de pizza.   ― Bem, é um assunto meio complicado. . . Meus pais me contaram meio por alto, os Ashford não gostam de falar no assunto, então eles não souberam muito, mas parece que a filha deles, Ayden, foi vítima de um maníaco. Ela e seus amigos. A garota nunca havia saído de casa sem a companhia dos pais, e a primeira vez que saiu isso aconteceu. Ela e os amigos passaram por maus momentos nas mãos do psicopata. O rapaz foi espancado de maneira c***l e forçado a ver Ayden e sua amiga sendo abusadas pelo maníaco. Depois de tudo isso ela passou por uma série de tratamentos psicológicos e num belo dia ela desapareceu sem deixar rastros. – contou Lacey – Eles não a encontraram até hoje. Os Ashford pagaram os melhores detetives, mas até hoje eles não tiveram nem uma notícia de Ayden.   ― Pobre garota. – disse Márcia olhando para os cubos de gelo no seu copo – Ela deve ter enlouquecido com tamanha desgraça.   ― Que horror! – disse Sophie chocada - Nossa, eu nem sei quem ela é, mas eu sinto tanto! Imagino o horror que ela e os amigos devem ter sofrido!   ― Pra mim um cara que é capaz de fazer uma coisa dessas merece a morte. – disse Marco servindo-se de mais refrigerante.   ― Tin tin. – disse Márcia erguendo o copo como se brindasse com o amigo – Espero que este homem queime no inferno.   ― Márcia! – corrigiu-a Sophie – Pega leve, né?! Desculpa Lacey, é que ela não lida muito bem com esse tipo de assunto.   ― Você ainda não viu nada! Teve uma vez que ela partiu uma mesa no meio! – riu Marco lembrando-se do episódio.   ― Já disse que a mesa já estava quebrada. – protestou Márcia.   ― Ah, claro! E foi por isso que você partiu ela, certo? – provocou o amigo.   ― Não, mas posso partir sua cara se você quiser! – respondeu Márcia.   ― Ei, vocês dois, podem parar agora mesmo! Parecem dois idiotas agindo desse jeito! – interveio Sophie.   Lacey divertia-se ao ver a forma como os amigos interagiam entre si, ela sentia saudade dos amigos que havia deixado em seu país, e agora tinha se afeiçoado aos novos. Tudo ia bem até o repentino silêncio de Márcia que mantinha-se quieta com os olhos fixados no nada enquanto apoiava o queixo com as mãos unidas como se para uma prece. A convidada notou:   ―Você está bem?   ― Sim. Mais ou menos. Quero dizer. . . Não.   ―Foi algo que eu disse?   ― Não, não, tire isso da sua cabeça, você foi ótima o tempo todo, eu é que não estou me sentindo muito bem. Preciso ir pra casa.   ― Ah, não vai não, fique aqui, está tão agradável. . . – pediu Lacey.   ― Desculpe, eu realmente preciso ir. Não estou me sentindo bem mesmo. Vou pegar um táxi. A minha parte da conta está aqui. Mas vocês não precisam ir só porque eu estou indo, fiquem aqui e curtam sem mim mesmo. Obrigada por vir Lacey, e me desculpe, depois a gente se fala mais galera. Beijo no coração de vocês! Tô indo!   E deixando o dinheiro em cima da mesa antes que seus amigos tentassem impedi-la, a garota saiu pela porta do estabelecimento.  
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