Capítulo 3

3999 Palavras
  Aquela noite passou, o dia amanheceu relativamente quente, os dois amigos se encontraram na escola, se impressionaram ao verem Márcia vestida com um casaco de mangas longas:   ― Bom dia Márcia, você tá bem? – disse Sophie.   ― Estou sim, por quê? – respondeu a garota de olhos cinzentos.   ― Porque se vier o frio que você está esperando. . . morreremos todos congelados! – riu Marco.   ― Você é engraçado que nem um tijolo, Marco. Só acordei meio resfriada hoje. Deve ser gripe de calor, sei lá. Preciso ir ao banheiro, e vocês dois se comportem na minha ausência hein? Belas marcas de unha no seu braço, Marco. – disse a garota com uma piscadela – Só vou ficar fora por cinco minutos. Juízo hein?   Os dois amigos se desconcertaram totalmente, Marco se lembrou de repente de algo que deveria fazer num lugar que não era ali, Sophie foi para a sala de aula, faltava um pouco mais de cinco minutos para soar o sinal de início, e ela decidiu ir ao banheiro também. Parecia estar vazio, haveria silêncio total lá se não fossem uns pequenos e baixos gemidos que vinham de uma das várias cabines individuais do banheiro, ela esperou um pouco antes de se aproximar, quando a porta finalmente se abriu ela pôde constatar com horror que os gemidos vinham de Márcia, que trajada com uma camiseta branca, tinha um hematoma enorme no ombro direito, e um certo mau jeito que denunciava um deslocamento. O braço do mesmo lado estava enfaixado, e haviam alguns riscos vermelhos marcados nas costas de sua camiseta:   ― Meu Deus, Márcia! O que aconteceu?! – disse Sophie assustada.   Os olhos cinzentos de Márcia se arregalaram numa expressão de susto e surpresa ainda maiores que da amiga:   ― O quê?!! Há quanto tempo você está aí?!!   ― Não importa Márcia, eu perguntei o que aconteceu!   A garota olhou para os lados como se procurasse uma resposta, e como se ela fosse surgir escrita nas impecáveis e brancas paredes daquele lugar, o sinal soou, ela respondeu à amiga:   ―Não foi nada Sophie, não se preocupe. Eu só. . . só. . . caí. Foi isso, tomei um tombo ontem quando estava voltando pra casa.   ― Tombo Márcia? Sério mesmo? Porque eu não acredito!   ― Então não acredite. – disse a garota vestindo sua blusa de uniforme por cima da camiseta e pegando sua mochila – Vou nessa, tchauzinho!   Sophie a teria parado, mas ficou lá estática sem acreditar na resposta da amiga, que ela perseguiu junto de Marco o intervalo inteiro até finalmente encurralá-la num canto da biblioteca onde ela havia tentado se esconder e que havia dado certo durante uns minutos:   ― Márcia, o que deu em você?! – disse Marco tentando controlar a altura de sua voz - Sophie disse que você está machucada, o que aconteceu ontem?   ― Eu caí gente! Já disse! – disse Márcia se levantando e saindo.   ― Volta aqui! – disse Sophie segurando a amiga pelo ombro.   ― Ai! Meu ombro Sophie! Que d***a! – gritou Márcia num sussurro.   ― Me desculpe Márcia! Foi sem querer! – desculpou-se a amiga sem saber o que mais fazer.   A amiga ainda gemia de dor quando Marco se aproximou dizendo:   ― Marci, o que aconteceu? Olha, a gente só tá te perturbando esse tempo todo, porque nos importamos com você. Não precisa mentir.   Márcia encheu os olhos de lágrimas, e desatando numa torrente de choro, ela desabafou:   ― Eu fui assaltada! Tá bom? Satisfeitos agora? Vocês pensam que é fácil pra mim? Pensam que é fácil lidar todos os dias com a realidade de que eu sou um grande monte de nada? Um grande e inútil monte de nada que vive sendo protegida porque não consegue defender a si mesma? Eu fui assaltada ontem por dois caras, depois que me despedi de vocês e reagi! Reagi mesmo! Chega! Eu tô cansada de ser a menininha indefesa que vocês tem que ajudar! Preciso dizer mais alguma coisa? Eu reagi ao assalto e agora tô aqui cheia de hematomas e faixas pra todo o lado!   Marco e Sophie não sabiam o que fazer, eles se aproximaram da amiga que saiu correndo da biblioteca, o que os fez sair também, e que particularmente foi bom para os três, visto que depois de um grito daqueles a bibliotecária estava pronta para m***r alguém. O restante das aulas seguiu-se em silêncio da parte dos três, naquele dia Márcia foi embora sem se despedir, Marco e Sophie se sentiam os últimos dos últimos no que se diz a amigos, o restante do dia seguiu-se um tanto silencioso, até que lá pelas cinco da tarde, um alerta de mensagens soou simultaneamente nos celulares dos dois amigos: “Me encontrem na sorveteria. Márcia.” E eles não tardaram a comparecer. A amiga estava lá, esperava por eles, haviam três taças vazias ao lado dela, e ela terminava mais uma quando chegaram. Eles se cumprimentaram um tanto sem jeito, estavam frente a frente agora, Sophie ia tomar a palavra e começar a se desculpar quando a garota abriu a mochila e tirou dois estojos de lá:   ― Toma. Isso é pra vocês.   ― Mas o quê. . .? – dizia Marco.   ― O que foi? As taças? Ah, eu estava nervosa. Olha, eu sei que não fui um poço de gentileza com vocês hoje, e reconheço meu erro, isso aqui é em agradecimento ao que vocês tem feito por mim, eu não tenho muitos amigos como já puderam notar, e pretendo manter os que tenho. Me desculpem por hoje, e espero que gostem do presente.   Os amigos abriram os estojos, Sophie encheu os olhos com seu cordãozinho acompanhado de um lindo pingente de anjo, (ambos eram de ouro) Marco m*l pôde acreditar no relógio que a amiga lhe dera:   ― Oh, Márcia, é lindo! Muito obrigada!   ― Marci, isso aqui é importado! Muito da hora! Eu ia precisar vender minha alma pra poder comprar um desses! Valeu mesmo!   ― Que bom que gostaram, custou a mesada da minha vida inteira! Podem me amar!   E os amigos voltaram às boas. Foi um final de tarde e início de uma noite agradável; tudo estava em paz, não houveram noticiários narrando crimes e nem a chegada da misteriosa garota para detê-los. A Raposa também teve uma noite de descanso. Na manhã seguinte, diferente da tarde do dia anterior, o dia começou cheio de burburinhos, os alunos comentavam agitados a respeito de uma notícia impressa no jornal: uma garota havia sido encontrada morta num rio do outro lado da cidade, o corpo foi encontrado boiando na margem envolto por um saco plástico; suas mãos e pés estavam amarrados, e a boca amordaçada. A polícia encontrou sinais de violência, ao que parecia, ela tinha doze anos e atendia pelo nome de Alícia Hart, era estudante da escola do centro da cidade. Era uma linda garotinha de cabelos loiros e olhos azuis, Márcia olhava para o jornal um tanto seriamente:   ― Sujeito desprezível. . .   ― Bom dia Márcia, vejo que já está a par das notícias! – disse Marco.   ― Bom dia. É, estou sim, e torcendo ardentemente pela prisão desse miserável. – disse a garota.   ― Eu sinceramente não consigo entender o que se passa pela cabeça de uma pessoa dessas, gente, ela era uma criança! Uma criança! – dizia Sophie pasma – Que covarde!   ― Eu não consigo desejar nada menos que a morte para uma pessoa, ou melhor, um monstro que comete umas coisas dessas. – disse Márcia com o tom de voz carregado de ódio.   Ela procurou voltar ao normal ao perceber que estava atraindo a atenção de todos amassando a lixeira próxima a ela com um soco dado com as costas da mão:   ― Ahn. . . Márcia, você está bem? – perguntou Sophie assustada.   ― Na verdade não, acho que trinquei o osso da mão depois dessa. – respondeu a garota como quem segura um gemido - Alguém poderia me trazer gelo e me acompanhar à enfermaria, por favor?   ― Meu Deus, Marci, você é louquinha sabia? Deixa que eu pego o gelo e levo na enfermaria pra você. – disse Marco correndo em direção ao refeitório.   ―Vem que eu te acompanho até lá. Amiga, você precisa se controlar, eu nunca te vi agindo assim e… – dizia Sophie.   No final deu tudo certo, e o osso trincado não passou de uma leve luxação onde os dedos escoriados ficaram roxos e inchados. Aquele gesto imprudente lhe custou uma aula de educação física, ela não jogaria vôlei naquele dia (o que teria matado Sophie certamente, ou, muito provavelmente a Marco, no que se diz de futebol) Márcia ficou sentada lembrando e relembrando as notícias do jornal que lera aquela manhã, enquanto pensava ela distraidamente girava um belo e imponente anel que trazia em sua mão direita, ela parecia relembrar algo quando foi desperta pela voz de seus amigos:   ― Lindo anel!   E era mesmo, ele era prateado e tinha duas letras A intercaladas trabalhadas em prata sobre uma superfície de cor de fundo azul, ela pareceu levar um tremendo choque de realidade ao ser surpreendida com o anel, a garota tentou guardá-lo, não houve mais tempo:   ― Nossa, ele é lindo mesmo! – disse Sophie – Onde foi que você o comprou?   ― Na internet, nesses sites geeks sobre filmes e quadrinhos, não tinha o dos irmãos vampiros daquela série, mas achei que esse também seria legal. – disse ela olhando discretamente para os lados e guardando-o antes que alguém mais pudesse vê-lo.   A conversa teria durado, mas soou o sinal da saída e os alunos correram como loucos para fora da quadra, Márcia se misturou no meio deles e desapareceu cruzando os portões da escola, ela parecia muito diferente naquele dia um tanto mais centrada, um pouco mais, se possível, séria. Bem, tudo aquilo que fora descansado pela Raposa uma noite atrás, foi gasto (e em dobro) pela misteriosa garota dos noticiários nos dias posteriores; quando ela não dava um jeito nas disputas entre traficantes de um lado da cidade, eram brigas de gangues do outro. A misteriosa garota andava cansada e irritada devido o andamento de tais ações quase ininterruptas vindas da parte dos bandidos, Márcia andava irritada com a quantidade de exercícios e trabalhos exigidos pelos professores, e as constantes investidas de Miguel. Não sendo suficiente, ou autor de crimes contra garotinhas havia voltado a atacar; eles estavam perto do velho depósito da escola naquele intervalo, Márcia estava possessa:   ― Quando é que isso vai parar?! Quantas garotas vão precisar sumir para que a polícia, o governo, o Estado, sei lá, a minha avó, faça alguma coisa?! Porque esse desgraçado não morre nunca?! – dizia a garota após amassar e lançar o jornal ao chão.   A garota arfava de ódio e assustava a todos ali perto quando Sophie tocou seu braço levemente:   ― Ei, Marci. . .   ― O que é?!!! – gritou a garota partindo ao meio com um soco uma das mesas ali recém-colocadas.     ― Não. . . é… nada. – balbuciou Sophie em choque – Eu só ia falar pra você ficar mais calma mas. . . eu acho que isso só pioraria a situação.   A pele clara de Márcia ficou vermelha como um tomate diante da expressão de assombro de todos:   ― Ah, caramba, eu fiz de novo! Me desculpe Sophie. Mas aquela mesa já estava quebrada!   ― Tudo bem, só segura a sua onda aí que eu estou começando a ficar com medo de você. – disse a garota – Marci, você precisa se acalmar, talvez parar de ler o jornal um pouco, sempre fica muito abalada com esse tipo de notícia. . .   ― . . .E acaba amassando ou quebrando alguma coisa! Eu quero morrer sendo seu amigo, Marci! – disse Marco assustado – Nunca desejaria estar do seu lado se algum dia você se irritasse de verdade, ou sei lá, quando você ler a próxima matéria do jornal. . .   ― Me desculpem, é sério, eu não vou fazer de novo. . . Vou tentar não fazer pelo menos.   O nome da atual garota encontrada pela polícia era Natalie, tinha quinze anos, era de um colégio a algumas quadras do da aluna do primeiro caso, o corpo apresentava os mesmos sinais que o primeiro encontrado pela polícia, a única diferença foi o cenário em que o corpo foi encontrado (um lote vago) e a cor dos olhos da vítima (verdes). O clima ainda se seguia meio pesado, até que uma bola veio rolando até os pés de Márcia e a dona dela surgiu em seguida:   ― Então você veio parar aqui né? – dizia a garotinha.   ― Tá aqui sua bola. - sorriu Márcia simpaticamente - Você chuta forte hein?   ― Que nada, a gente é que tá brincando aqui perto. – sorriu a garotinha.   ― Aham, sei! Mais uma pra nossa seleção Marco! – sorriu Sophie.   ― Camisa dez na cabeça! – disse o amigo com uma piscadela simpática.   A garotinha pareceu encabular-se com tantos elogios, mas não pôde terminar a conversa, o intervalo estava acabando e ela precisava virar o placar:   ― Obrigada! Vocês são engraçados, mas tenho que ir antes que o intervalo acabe! Até mais! Ah, e eu sou Júlia! – disse a menina acenando enquanto partia com a bola recuperada.   ―Tchau, Júlia! –  os amigos despediram-se com um aceno.   Júlia era uma linda garotinha de sete anos, seus olhos eram azuis como o céu de uma manhã ensolarada, e os cabelos desgrenhados presos em um r**o de cavalo, eram longos e dourados como o sol.     A presença da garotinha foi se tornando comum entre eles, volta e meia ela e seus amigos apareciam. Algum tempo se passou desde o ocorrido.   Naquela noite em que o vento começava a soprar frio, Raposa encontrava-se sentada no parapeito do terraço do sétimo andar de um pequeno edifício, ela estava com as pernas voltadas para a rua, pernas que ela balançava distraidamente enquanto lia o jornal daquele dia:   ― Olha só quem resolveu aparecer de novo. . . Finalmente, depois de anos você decidiu reaparecer seu filho da mãe!   A garota lia as notícias daquela matéria que fizera Márcia quebrar uma velha mesa ao meio quando sentiu-se observada, já vinha se sentindo assim fazia algum tempo, incomodada, ela voltou-se para trás:   ― Quem está aí? É melhor sair enquanto pode andar! Oi. . . Tem alguém aí? – disse a garota sacando suas duas armas de debaixo do sobretudo – Ué, estranho isso. . .não tem ninguém aqui. Devo estar pirando. Também, depois de tantas pancadas na cabeça. . . Bem, quanto a você. . . – disse ela voltando ao jornal – Parece que se tornou um assassino serial hein? Duas colegiais com o mesmo perfil: loiras, olhos claros, o uniforme tradicional. . . Mesmo método de mortes, mesmo método de ação. . . Entendo, um dominador com fetiche por colegiais. . . Parece que estou no caminho certo não é mesmo? Finalmente eu vou pegar você seu desgraçado miserável! – disse a garota amassando o jornal em suas mãos.   A noite estava tranquila até que Raposa percebeu uma movimentação estranha ali por perto, dois homens saíram de uma van recém-estacionada e foram ao encontro de mais dois que os esperavam num sedan preto, conversaram durante alguns minutos, os homens voltaram para a van e seguiram o sedan até determinado ponto, a garota também achou que seria interessante segui-los para descobrir do que se tratava, algo parecia não cheirar bem naquilo tudo. Os homens pararam próximos à zona rural da cidade, tiraram da van algo que parecia estar envolto por panos; enquanto um deles o levava ao sedan colocando-o no banco de trás, o outro recebia o que parecia ser dinheiro do carona do automóvel. Ela fotografou os carros e suas respectivas placas para mais tarde, a prioridade agora era saber onde aquele carro pararia; a van foi embora e ela partiu seguindo o sedan. Ao que parecia aquele lugar era meramente um ponto de encontro, visto que, uma vez que a van tivesse partido, eles se dirigiram para outra região da cidade chegando numa boate. Eles entraram pela porta dos fundos, havia um segurança lá, o que fez Raposa entrar por uma das precárias janelas do segundo andar. O lugar que se assemelhava a um corredor era escuro e cheio de portas, não se podia ouvir nada senão o som das batidas ritmadas pelo DJ lá em baixo, a garota caminhava em meio à escuridão em busca de uma porta quando ouviu o som de passos na escada. Ela escondeu-se a tempo de ver uma porta se abrindo e os dois homens sendo recebidos por um terceiro:   ― E aí, tudo certo?   ― Sim, trouxemos a encomenda.   ― Espero que esta seja resistente, a última não durou muito, e ele não ficou muito feliz com isso. Entrem, vamos pelo elevador pessoal, ele está no quinto andar.   E a garota escutava tudo atenciosamente:   ― Quinto é? Vamos ver se lá é melhor do que essa pocilga aqui em baixo! – disse a garota olhando para aquele quarto imundo com um insuportável cheiro de cigarro e bebida. – Que nojeira!   Esperar pelo próximo elevador ela não poderia, tão pouco ir pelas escadas e correr o risco de se encontrar com alguém indesejado ou dar de cara com eles, ela teria que ir pelo lado de fora, pelas escadas externas:   ― Eu e minha maldita curiosidade. . .!   Ela se esgueirou para a janela de onde havia saído e subiu através das precárias e enferrujadas escadas do lado de fora do prédio, caminhando até uma que parecia estar lacrada por dentro, ela olhou por uma fresta na janela, parecia o quarto de um cenário medieval, castiçais, velas, uma cama, alguns chicotes, e aparentes instrumentos usados no s************o, havia um tripé com uma câmera voltada para tudo aquilo. Ela ainda observava através da fresta quando o hóspede do quarto recebia aqueles três homens e sua encomenda. Ele pareceu sorrir quando puxou parte do tecido que envolvia a sua “entrega”. Analisou-a bem:   ― Perfeita! Do jeito que eu gosto. Podem colocar em cima da cama.   E um dos homens adentrou com a encomenda, o pano que a envolvia foi retirado, e a garota que a tudo observava do lado de fora pôde finalmente constatar atônita que se tratava de uma garotinha parecendo beirar seus nove anos. Ela m*l podia acreditar! Os desaparecimentos, as garotas encontradas mortas com sinais de violência. . . Ela estava certa, era ele! Ele era o culpado! Ela não permitiria que aquela garotinha ali dentro se tornasse mais uma notícia daquele caso no jornal do dia seguinte. Ela não hesitou em colocar um pequeno explosivo naquela fresta e detoná-lo fazendo um rombo na janela:   ― O que foi isso?!!!   ― Surpresa! Adivinhem quem vai de primeira classe pro inferno hoje!   Os homens ali dentro estavam armados e atiraram contra a garota que não deixou barato para eles, no meio da confusão dos tiros e da explosão, alguns castiçais tombaram e as velas caíram sobre os tecidos daquele quarto começando um incêndio, o homem que parecia ser o contratante dos serviços fugiu junto dos demais que ainda permaneceram trocando tiros com Raposa durante algum tempo. As chamas entraram em contato com as bebidas e outras substâncias inflamáveis contidas ali no quarto, o que piorou consideravelmente a sua intensidade. Eles finalmente desceram as escadas correndo, uma vez que o elevador havia sido travado devido um tiro nos botões de comando externo. O fogo começou a se espalhar depressa, a garota mascarada teve que pensar rápido, o elevador era algo realmente fora de cogitação, e naquele ritmo o andar em que se encontravam estaria em chamas antes mesmo de chegarem ao terceiro lance de escadas, ela ouviu um som às suas costas:   ― Oh, meu Deus! Onde eu estou?! O que tá acontecendo?   A garotinha havia acordado. Raposa voltou-se para ela:   ― Calma, calma, está tudo bem, eu estou aqui. – disse ela se aproximando - Olhe pra mim, fique calma, pronto. . . Qual é o seu nome?   ― Eu sou Júlia, o que tá acontecendo? Meu Deus!   ― Oi Júlia, eu sou a Raposa. Olha, uns caras maus te trouxeram pra cá, mas eu vim aqui pra te ajudar. Só que eu vou precisar muito da sua ajuda agora, pode ser?         A garotinha fez que sim com a cabeça:   ― Eu preciso que você seja muito corajosa agora, tá bem? – disse Raposa cortando as cordas que prendiam mãos e pés da garotinha – Tente não respirar essa fumaça ok? Vista meu casaco e cubra seu rosto com ele, pronto, isso vai ajudar você. Nós vamos ter que sair pela janela, você confia em mim?   ― Sim, você é aquela h*****a da televisão.   ― Isso mesmo, você sabe quem eu sou. Agora, segure-se bem forte em mim ok? Nós vamos sair. Ouça, você acha que pode segurar essa câmera pra mim? – disse Raposa mostrando a garotinha o objeto que havia acabado de pegar – Você pode? Ah, muito obrigada Júlia! Está pronta? Então vamos!   E lá foram as duas descendo pelas escadas externas que começavam a ruir. A garotinha agarrava-se firmemente ao pescoço da Raposa que teve de segurar firme após a explosão de um andar acima. A garotinha gritou de medo, e a garota mascarada abraçou-a protegendo-a dos estilhaços de vidro que vieram em seguida:   ― Calma Júlia, está tudo bem, está tudo bem! Nós já estamos quase lá!   E após uma manobra evasiva para evitar uma barra de ferro que caía em direção a elas, finalmente chegaram ao chão. Devido às chamas algumas unidades dos bombeiros e também da polícia não demoraram a chegar ao local, Raposa conversava com a garotinha:   ― Muito bem Júlia, você foi muito corajosa e me ajudou bastante! Muito obrigada! Olha, a polícia está chegando, você consegue ouvir a sirene?   A garotinha acenou afirmativamente com a cabeça.   ― Olha, seus pais devem estar muito preocupados com você, vou deixá-la com a polícia e eles vão te levar pra casa ok? Você consegue andar?   ― Mais ou menos, minhas pernas estão doendo aqui neste lugar. Elas estão formigando. – disse ela apontando para a panturrilha acompanhada de um tornozelo inchado.   ― Foram as cordas, te amarraram com muita força, prenderam a circulação por muito tempo. Pode deixar, eu levo você até eles tá bem?   As viaturas foram chegando, e correndo até uma delas, a garota mascarada carregou a garotinha nos braços até entrega-la nos braços de um oficial:   ― O que está acontecendo aqui?   ― Ela foi vítima de um sequestro, um pedófilo com cúmplices. O cenário do crime pegou fogo. Ela provavelmente está desaparecida desde o meio dia, é uma menina muito forte e corajosa! Leve-a para os pais. Preciso ir agora! Foi um prazer te conhecer mocinha! Até mais Júlia!   ― Ei, Raposa! Seu casaco! Pegue! – disse a garotinha jogando-o para a h*****a – Obrigada!   Ela voltou-se para garota com um aceno simpático, e correndo para a escuridão tendo aquela câmera em um de seus bolsos, ela deu partida em sua moto e saiu rápida como o vento. Ela não sabia descrever o que sentia, estava agitada, um tanto nervosa, mas ainda assim, bem, por ter conseguido salvar aquela menininha tão esperta que acabara de conhecer. Seu sangue circulava de maneira rápida pelo corpo, ela conseguia ouvir as batidas de seu próprio coração. Sua mente fervilhava com todas aquelas informações, e enquanto ela pilotava mergulhava numa torrente de lembranças, ela ainda se lembrava do resgate daquela noite quando, ao tocar um crucifixo prateado que carregava no pescoço, o segurou com firmeza por um momento antes de acelerar e sumir na escuridão:   ― Essa foi por você. . . Missy.   E ela seguiu em sua moto ainda que com aquela mesma impressão de estar sendo observada, até chegar em sua toca. 
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