Capítulo 9 - Pétalas de Sangue

1652 Palavras
Charlotte Spencer Quando meus olhos finalmente se abriram, fui atingida por uma onda de exaustão tão esmagadora que quase me arrependi de ter despertado. Cada músculo do meu corpo parecia ter corrido uma maratona, e a fome era um vazio insuportável que rasgava meu estômago. Pisquei lentamente, tentando processar onde estava. A cabana. O teto de madeira. E... ele. Samael estava de pé perto da janela, a luz suave do amanhecer delineando seu corpo. Ele estava sem camisa, e por um momento, fiquei hipnotizada pela tatuagem que cobria suas costas. Eram asas. Realistas, intricadas, como se alguém as tivesse gravado em sua pele com cada pena meticulosamente detalhada. E então veio a lembrança. O sonho. As asas. Eu o havia visto com elas antes, mas isso era impossível, não era? No sonho, ele usava jaqueta e camiseta, e mesmo assim, eu sabia que as asas estavam ali. "Isso foi um sonho," pensei. "Mas o que aconteceu naquela cama... aquilo foi real." Meu corpo carregava a verdade. Eu sentia isso em cada fibra exausta, cada ponto de energia drenada. Ele não era humano. E eu havia me entregado a ele de uma maneira que me aterrorizava tanto quanto me atraía. — Por quanto tempo eu dormi? — perguntei, minha voz rouca, quase irreconhecível. Samael virou-se, e o calor que emanava dele parecia tomar conta da sala. Ele era febril, sufocante, mas não de uma maneira r**m. O sorriso preguiçoso que ele me lançou era cheio de desdém. — Dois dias. — Sua resposta foi casual, mas o peso daquilo me atingiu como um soco. — Dois dias? — Minha voz subiu uma oitava, apesar do esforço que me custou. Ele inclinou a cabeça, analisando minha reação como se fosse algum experimento científico entediante. — Humanos são frágeis. Você m*l sobreviveu. Eu, por outro lado... — Ele deu de ombros, o sorriso se transformando em algo quase c***l. — Nunca me senti tão forte. Minha garganta se apertou, um nó de medo e raiva. — O que você fez comigo? — sussurrei. Ele não respondeu de imediato. Apenas caminhou em minha direção, cada passo ecoando como um tambor lento em meus ouvidos. Ele parou a poucos centímetros da cama, inclinando-se levemente para que pudesse me olhar nos olhos. — O que você pediu. — As palavras saíram como um sussurro, um veneno doce que se infiltrava nos meus ossos. Minha respiração vacilou. Ele não estava errado, e isso tornava tudo ainda pior. Ele se afastou antes que eu pudesse dizer qualquer coisa, indo até a mesa onde um copo de água estava sobre a madeira gasta. Ele o segurou por um momento, quase distraído, antes de colocá-lo ao meu alcance. — Beba. Você vai precisar de força para voltar para casa. Voltar para casa. Como se isso fosse possível. Como se tudo pudesse voltar ao normal depois do que eu havia vivido. A caminhada até meu apartamento foi um borrão. Cada passo parecia um esforço monumental, minha mente oscilando entre a realidade e as lembranças do que havia acontecido na cabana. Quando finalmente fechei a porta atrás de mim, me joguei no sofá, deixando que a exaustão me consumisse por alguns momentos. Mas o desconforto dentro de mim não me deixava em paz. Levantei-me e fui até o espelho do banheiro, acendendo a luz. A água fria contra meu rosto era a única coisa que me mantinha ancorada. Minha mente corria em círculos, tentando racionalizar o que era irracional, entender o que nunca deveria ser compreendido. Olhei para o reflexo no espelho novamente, mas não reconhecia a mulher que me encarava. Havia algo diferente em mim. Meu rosto parecia mais fino, como se os dois dias de sono tivessem drenado não apenas minha energia, mas uma parte de quem eu era. A luz dos meus olhos parecia apagada, e, mesmo assim, havia algo novo ali. Algo que eu não conseguia descrever, algo que não pertencia a mim. Eu puxei a gola da camisa que usava, expondo os ombros e o pescoço. Meu corpo era uma tela agora, marcada por algo que não fazia sentido. Não eram hematomas comuns, nem arranhões. Eram linhas, quase imperceptíveis, que pareciam formar padrões intricados sob a luz fraca do banheiro. Toquei a pele com os dedos trêmulos, esperando que desaparecessem como uma mancha de sujeira ou um resquício de sono. Mas elas estavam ali. Reais. Foi então que percebi a verdade. Samael não era apenas um homem. Ele não era um sonho febril, uma alucinação causada pelo meu cansaço ou pelo peso do diário. Ele era exatamente o que dizia ser. Um demônio. Minha garganta apertou, e eu tive que me agarrar à pia para não cair. A palavra soava ridícula, uma fantasia saída de um conto de terror, mas não havia outra explicação. Como eu poderia ter sonhado com aquelas asas antes de vê-las? Como explicar o calor que irradiava de seu corpo, o olhar que parecia despir minha alma, os padrões que agora marcavam minha pele? E, acima de tudo, como explicar o vazio dentro de mim, como se ele tivesse levado algo que eu nem sabia que tinha? Lembrei-me do toque dele, da intensidade de seus olhos âmbar, do calor febril de seu corpo que parecia queimar sem consumir. Não era humano. Não poderia ser. Mesmo assim, meu corpo o queria. E esse desejo me apavorava mais do que qualquer outra coisa. Fechei os olhos, tentando acalmar a tempestade dentro de mim. Mas as lembranças eram implacáveis. O som de sua voz, rouca e carregada de sarcasmo. O toque de suas mãos, firmes e implacáveis. O sorriso predatório que ele usava como uma arma. Eu queria odiá-lo. Queria gritar, quebrar algo, arrancá-lo da minha mente como se fosse uma praga. Mas, no fundo, sabia que seria inútil. Ele estava lá, em cada canto da minha mente, em cada célula do meu corpo. — O que você fez comigo? — murmurei, mas minha voz soou vazia, fraca, como se eu já soubesse a resposta. Samael era uma presença que não podia ser ignorada, e agora, ele fazia parte de mim de uma forma que eu não conseguia desfazer. Ele era real. Ele era um demônio. E eu estava perdida. Mais tarde, enquanto me sentava no sofá da sala, puxei as pernas contra o peito e me encolhi em um casulo. A respiração vinha curta e irregular, e cada músculo parecia gritar em protesto contra o simples ato de me manter ereta. O apartamento, antes meu santuário, agora parecia uma prisão sufocante, cheia de memórias e sombras que não me deixavam em paz. Meu corpo não era mais meu. Eu sentia isso em cada fibra, em cada célula. Estava fraca, quase doente, como se algo tivesse sido arrancado de dentro de mim e substituído por um vazio que parecia pulsar em sincronia com ele. Samael. Era inevitável pensar nele. O calor febril que emanava do corpo dele, tão intenso que fazia a própria atmosfera vibrar ao seu redor, ainda queimava minha pele como uma lembrança viva. Mas junto com essa lembrança vinha outra, muito mais terrível: a sensação de que ele estava me matando. Porque era isso, não era? Cada vez que ele me tocava, eu podia sentir a vida sendo drenada de mim, como se meu corpo fosse incapaz de suportar a energia que o dele irradiava. Humanos e demônios. Dois opostos, duas forças incompatíveis. Eu era mortal, limitada, enquanto ele era... algo além do que eu conseguia compreender. Eu sabia que ceder ao desejo que ele despertava em mim era um risco que eu não podia correr. Não importava o quanto meu corpo clamasse por ele, o quanto minha mente se perdesse na lembrança do que aconteceu entre nós. Era mais do que prazer. Era uma batalha pela minha própria sobrevivência, e toda vez que ele vencia, eu ficava mais fraca. Levantei-me do sofá, as pernas trêmulas. Caminhei até o espelho do banheiro, forçando-me a encarar o reflexo que parecia cada vez menos meu. Meu rosto estava pálido, os olhos fundos, com um brilho inquietante que não reconhecia. Puxei a gola da camisa, expondo a pele do pescoço e dos ombros. As marcas estavam ali, visíveis mesmo sob a luz fraca. Linhas tênues, quase invisíveis, mas que pareciam queimar com uma intensidade que eu não conseguia ignorar. Era como se ele tivesse me marcado, como se cada toque deixasse um rastro que não podia ser apagado. "Isso vai me m***r," pensei, o peso da verdade esmagando meu peito. Eu não sabia o que era mais assustador: o fato de que meu corpo não podia suportá-lo ou o fato de que, mesmo sabendo disso, eu ainda o desejava. Meu coração acelerava só de pensar na voz dele, no toque dele, na maneira como ele parecia despir minha alma com um único olhar. Mas eu precisava ser forte. Precisava lutar contra isso. Contra ele. Samael era uma força destrutiva, uma chama que consumia tudo o que tocava, e eu não podia permitir que ele me destruísse também. Fechei os olhos, tentando afastar o pensamento. Mas a verdade era c***l. Eu estava presa em um ciclo vicioso, desejando algo que poderia me m***r, tentando me libertar de algo que meu corpo não queria abandonar. — Não, Charlotte — murmurei para mim mesma, a voz trêmula, mas cheia de determinação. — Você não vai deixar ele vencer. Talvez, se eu me afastasse o suficiente, Samael desaparecesse. Talvez, com o tempo, o desejo se dissipasse, e eu pudesse voltar a ser quem eu era antes. Mas, no fundo, uma parte de mim sabia que nunca seria tão simples. Porque ele não era apenas um demônio. Ele era uma força da qual eu nunca poderia escapar. E, por mais que lutasse contra isso, sabia que ceder seria o mesmo que morrer. E, ainda assim, meu corpo ardia com a memória dele. Uma memória que eu sabia que nunca seria capaz de apagar.
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