Samael
Os humanos têm uma noção patética de inferno. Fogo eterno, correntes, tortura. Eles imaginam sofrimento físico porque é tudo que conseguem entender. Mas o verdadeiro inferno não é dor física. É a ausência completa de propósito. É o vazio absoluto.
Por séculos, fui um rei sem trono, uma faísca aprisionada na escuridão. Nada para ver, nada para sentir, exceto a vastidão do nada. Ali, você não sente calor ou frio, não ouve som, não há textura para tocar. Apenas existe. Um eco sem fim de quem você era, esmagado pelo que nunca mais será.
Agora, sentado nesta cabana, sentindo o calor de Charlotte ressoando como um tambor fraco contra o frio do ambiente, percebo algo que jamais admitiria em voz alta: eu sinto medo. Não por mim, é claro. Eu não tenho medo da morte ou do vazio. Mas essa conexão — esse vínculo maldito — me enfraquece de maneiras que eu não compreendo.
Ela está deitada na cama atrás de mim, o corpo frágil e pálido, m*l respirando. Humanos não foram feitos para suportar o que ela enfrentou. Não foram feitos para suportar a mim.
Abri o caderno que encontrei em uma gaveta velha da cabana, e minhas mãos começaram a escrever sem hesitar.
Diário de Samael
16 de novembro,
Cabana esquecida pelo tempo, cercada por memórias humanas e forças que desprezo.
O inferno é uma prisão invisível, sem muros e sem chão.
Imagine um lugar onde não há sol, mas também não há escuridão completa. Apenas um cinza sufocante que se estende para sempre. Ali, cada pensamento é um grito que ninguém escuta. Cada memória é uma faca que você vira contra si mesmo.
Por eras, fui a única luz em meio àquele nada, mas luz no inferno é uma maldição. É um lembrete constante do que você perdeu. Fui um príncipe. Fui uma força a ser temida. Agora sou apenas uma sombra.
Até que ela me chamou.
Charlotte. Ela pronunciou as palavras com a inocência de quem não sabe o que está fazendo. Mas algo em sua voz, algo em sua alma, me alcançou. Ela me puxou para fora daquele abismo, e, por isso, agora estamos conectados. Ela é minha porta para este mundo, mas também minha corrente. Ela não sabe, mas somos prisioneiros um do outro.
E talvez eu odeie isso. Ou talvez eu não saiba mais o que significa ser livre.
Fechei o caderno, minha mente ainda ressoando com o que havia escrito. A cabana estava mergulhada em um silêncio pesado, interrompido apenas pela respiração fraca de Charlotte. Ela dormia desde a noite anterior, uma fraqueza profunda a havia dominado, algo previsível considerando o que compartilhamos.
Eu me aproximei dela, observando-a mais uma vez. Seu rosto estava pálido, mas tranquilo, como se o sono fosse um refúgio. Suas feições eram suaves, quase angelicais, algo que deveria me irritar, mas que, de alguma forma, me fascinava. Ela parecia tão pequena, tão frágil, mas havia uma força inexplicável nela.
— Você deveria me odiar — murmurei, sabendo que ela não podia ouvir. — Qualquer criatura sensata odiaria.
Lá fora, o ar estava carregado. Eu podia sentir os demônios menores rodeando a cabana, rosnando em suas formas invisíveis, pressionando contra a barreira que me mantinha invulnerável.
Levantei-me e saí pela porta, deixando-a dormir. Assim que cruzei o limiar, o calor do meu corpo pareceu intensificar o ar ao meu redor, como se até o próprio ambiente reagisse à minha presença.
Eles vieram como cães famintos, sombras escuras que rastejavam pelo chão e pelas árvores. Eles eram numerosos, mas fracos. Parasitas.
Um sorriso lento surgiu em meus lábios.
— Vocês realmente são tão idiotas a ponto de pensar que podem me derrotar?
Eles avançaram, mas eu os recebi com uma fúria que há muito estava enterrada. Minhas mãos queimaram com um fogo invisível, e cada golpe que eu desferia era uma explosão de poder.
A batalha foi breve, porque eu estava mais forte do que nunca. O vínculo com Charlotte, embora odioso, me enchia de energia. O s**o que compartilhamos havia transformado minha força em algo absoluto, enquanto ela ainda pagava o preço com sua fragilidade.
Eles não tinham chance. Cada um caiu, se dissolvendo em sombras antes de desaparecerem completamente.
Quando o último deles se foi, fiquei ali por um momento, deixando a energia selvagem que corria em minhas veias se acalmar. Meus punhos estavam cerrados, os nós dos dedos brancos, e o sorriso ainda estava no meu rosto.
— Tentem de novo — murmurei, olhando para a floresta vazia. — E prometo que vou gostar ainda mais.
Voltei para a cabana, fechando a porta atrás de mim. Charlotte ainda dormia, mas sua respiração estava mais estável. Ela se recuperaria, eventualmente. Humanos sempre o fazem, mesmo que nunca sejam os mesmos depois.
Peguei o caderno novamente, sentindo uma necessidade inexplicável de escrever.
Charlotte não sabe, mas o vínculo que nos une é mais profundo do que ela imagina. Ela é minha força, minha âncora neste mundo. Mas também é meu maior perigo.
Eu deveria matá-la. Deveria ter feito isso no momento em que a vi. Mas não o fiz. Talvez por fraqueza. Talvez porque, depois de tanto tempo no inferno, encontrei algo que não consigo explicar.
Ela é frágil, irritante e confusa. E, ainda assim, não consigo imaginar voltar ao vazio sem ela.
Talvez eu esteja condenado de uma maneira que nem mesmo o inferno conseguiu alcançar.
Fim
Charlotte se moveu, um gemido baixo escapando de seus lábios. Minha atenção, que estava presa no caderno, se desviou para ela. Aquele som era irritante. Não apenas pelo tom frágil que me lembrava o quão humana ela era, mas pelo que ele provocava em mim.
Ela deveria ser apenas uma ferramenta. Uma porta. Uma corrente. Mas agora, ela era também um obstáculo. Um lembrete constante do que ainda me prendia.
Abracei o ódio que sentia por ela. Era fácil. Quase natural. A ideia de simplesmente acabar com sua existência me era tentadora. Um corte rápido, um momento de dor, e eu estaria livre. Eu seria invencível.
Levantei-me, caminhando até a beira da cama. O calor que irradiava de mim era sufocante, preenchendo a cabana com a intensidade de um sol moribundo. Charlotte se mexeu novamente, e meu olhar fixou-se em sua garganta. Tão fácil. Tão simples.
Minha mão subiu lentamente, como se tivesse vontade própria. Eu podia sentir o poder em meus dedos, o peso da decisão que estava prestes a tomar.
— Você não tem ideia de como é fácil — murmurei, a voz baixa e rouca, carregada de desprezo.
Meu ódio por ela não era apenas por sua humanidade irritante. Era porque ela havia me colocado nessa posição. Antes dela, eu sabia o que era. Um demônio, uma força de destruição, uma sombra que carregava apenas a certeza do vazio. Mas agora... agora, eu sentia coisas que não deveria sentir. E eu odiava isso.
Charlotte abriu os olhos. Lentamente, como se a simples ação fosse exaustiva. Seu olhar encontrou o meu, e por um momento, ficou claro que ela estava tentando entender onde estava, quem eu era, e o que havia acontecido.
— Você está acordada. — Minhas palavras soaram mais como uma acusação do que uma constatação.
Ela tentou se sentar, mas sua fraqueza a impediu. Caiu de volta contra os travesseiros, respirando pesadamente.
— O que... o que aconteceu? — Sua voz estava rouca, quase inaudível.
— Você sobreviveu. Contra todas as probabilidades. — Minha resposta foi seca, e a amargura em meu tom era impossível de ignorar.
Seus olhos buscaram algo no meu rosto, como se procurassem uma verdade que eu não estava disposto a dar.
— Sobrevivi ao quê? — ela perguntou, sua voz mais firme, mas ainda tremulando.
Inclinei-me, deixando que meu rosto se aproximasse do dela. Meu olhar encontrou o dela, fixo, penetrante.
— A mim. — As palavras saíram baixas, carregadas de algo sombrio e inegavelmente verdadeiro.
Ela recuou levemente, mas não o suficiente para esconder o brilho de confusão e medo em seus olhos. Algo nela, no entanto, me irritava profundamente. Talvez fosse o fato de que, mesmo naquele estado, ela parecia determinada a entender, a confrontar o que estava além de sua compreensão.
— Você poderia ter me matado? — Sua pergunta era direta, quase desafiante, mas sua fraqueza traiu qualquer ousadia.
Um sorriso lento surgiu em meus lábios.
— E deveria. — Minha voz era quase um rosnado. — Acredite, Charlotte, sua existência é um fardo que eu não pedi para carregar.
Eu me levantei, afastando-me dela antes que minha própria raiva me consumisse. Minhas mãos estavam cerradas, e o calor que emanava de mim parecia intensificar-se, tornando o ar da cabana mais pesado.
— Então, por que não fez? — ela perguntou, sua voz fraca, mas firme.
Parei, minhas costas voltadas para ela. A resposta estava na ponta da minha língua, mas era uma que eu não queria admitir.
Por que não a matei? Porque algo nela me fazia hesitar. Talvez fosse o vínculo, ou talvez fosse o que ela despertava em mim — algo que eu odiava ainda mais do que a própria Charlotte.
Virei-me lentamente, meu olhar duro encontrando o dela novamente.
— Porque m***r você agora seria fácil demais. — As palavras saíram lentas, quase perigosas. — E eu gosto de desafios.
Era mentira, é claro. Mas era uma mentira que eu estava disposto a contar a mim mesmo, pelo menos por enquanto.
Ela não respondeu. Apenas me observou, seu olhar cheio de uma mistura de medo, raiva e algo que eu não conseguia decifrar. Talvez fosse melhor assim. Porque enquanto ela continuasse fraca, enquanto ela continuasse a acreditar que eu era apenas uma força que ela não podia compreender, ela não perceberia a verdade mais simples de todas:
Eu precisava dela mais do que ela precisava de mim. E isso era a maior maldição de todas.