Samael
Humana frágil. Quase insignificante.
Charlotte desmaiou no meu peito antes que eu pudesse terminar o caminho até a cabana. Não que isso me surpreendesse — o vínculo estava sugando o que restava dela. Não por minha causa, claro. Ela conseguiu abrir um portal para o Inferno, e com ele trouxe mais do que apenas a mim.
Ah, sim, os outros. Como parasitas que rastejam atrás de luz, eles a cercaram. Não fisicamente — ainda não. Mas o bastante para drená-la mentalmente, uma tentativa desesperada de quebrar o vínculo e conquistar o espaço que eu agora ocupava. Era a coisa mais irritante que poderia acontecer. Afinal, Charlotte era minha chave, e eu não gostava de dividir.
A cabana surgiu no meio da floresta, isolada e cercada de silêncio. Um lugar sagrado, há muito esquecido pelos humanos. Outrora um monastério, agora uma estrutura decadente, mas ainda poderosa o suficiente para repelir as forças que tentavam alcançá-la. Por enquanto, estaríamos seguros aqui.
Abri a porta com um chute suave e entrei, a madeira rangendo sob meus passos. O calor do meu corpo parecia se intensificar no ambiente frio e úmido. Depositei Charlotte em uma cama antiga, a única coisa ainda funcional na pequena cabana, e puxei uma manta sobre ela.
Ela dormia profundamente, mas o rosto estava pálido, os traços tensos mesmo no sono. Suas feições eram angelicais, suaves de uma forma que deveria me enojar, mas que, em vez disso, me intrigava. Sua vulnerabilidade era quase irritante. Quase.
A noite se arrastava, sufocante, e eu podia sentir a presença deles lá fora, do outro lado da p******o invisível que cercava a cabana. Pequenos demônios, fracos e insignificantes, mas persistentes. Eles sussurravam meu nome em línguas antigas, clamavam por entrada, imploravam por um pedaço do vínculo que Charlotte havia criado.
Idiotas. Eles não entendiam que esse vínculo era meu.
Charlotte se mexeu na cama, gemendo baixinho. Ela estava lutando, mesmo enquanto dormia. E então, como se fosse chamada pelo inferno, abriu os olhos.
— Onde... estamos? — Sua voz era rouca, fraca, mas curiosa.
— Em um lugar onde eles não podem te tocar — respondi, sem me virar para encará-la.
— Eles? Quem são eles?
Revirei os olhos. Ela queria explicações, como todos os humanos. Eles sempre querem respostas para as coisas que não entendem, como se palavras fossem suficientes para tornar o desconhecido menos aterrorizante.
— Demônios menores. Parasitas. Nada que você precise temer enquanto eu estiver aqui.
— Demônios? — Ela se sentou, apesar da fraqueza, puxando a manta ao redor dos ombros. — Você quer me dizer que demônios são reais?
Virei-me para encará-la, cruzando os braços enquanto me recostava na parede.
— Você realmente não está captando, não é? — inclinei a cabeça, um sorriso preguiçoso surgindo nos meus lábios. — Charlotte, você abriu um portal para o inferno. Você me trouxe aqui. O que achou que aconteceria?
— Eu não... eu não sabia o que estava fazendo! — ela protestou, os olhos se enchendo de algo entre medo e raiva.
— É claro que não sabia. Humanos nunca sabem. Vocês brincam com forças que não entendem e depois se surpreendem quando tudo desmorona.
Ela me olhou com descrença, mas não falou nada. Apenas me observou, como se estivesse tentando juntar as peças de um quebra-cabeça impossível.
— E você? — Ela finalmente quebrou o silêncio. — O que você é?
Sorri, um sorriso lento e perigoso.
— A resposta para essa pergunta é mais complexa do que você está pronta para ouvir.
Ela não recuou, o que era surpreendente. Em vez disso, ela me enfrentou com um olhar firme, desafiador.
— Tente-me.
Eu me aproximei lentamente, deixando que minha presença tomasse conta do espaço ao redor. O calor do meu corpo preencheu o ar, e pude ver o efeito disso nela. Sua respiração ficou superficial, os olhos brilhando com algo que ela não queria admitir.
— Eu sou Samael. — Minha voz era baixa, quase um sussurro. — E eu sou um demônio.
Ela piscou, surpresa, mas não disse nada. Em vez disso, engoliu em seco, os lábios entreabertos enquanto processava o que eu havia dito.
Eu não esperava que ela acreditasse imediatamente, mas não importava. Não era como se ela pudesse escapar da verdade. Não de mim.
— E agora, Charlotte, há algo que você precisa entender. — Inclinei-me, aproximando-me dela. — Você não é mais apenas uma humana. Está ligada a mim. Ao inferno. Às coisas que não deveriam existir neste mundo.
Ela abriu a boca para responder, mas as palavras morreram quando inclinei ainda mais, deixando que o calor do meu corpo envolvesse o dela. Sua respiração falhou, e eu vi o conflito em seus olhos — medo, desejo, negação.
Era fascinante.
Naquele momento, a barreira entre nós se desfez. Eu a puxei para mim, e ela não resistiu. O calor do meu toque parecia consumi-la, mas ela não recuou. Em vez disso, ela se entregou, como se soubesse que resistir seria inútil.
E foi assim que a verdade finalmente se revelou. Não com palavras, mas com ações, com toques, com o calor que ambos compartilhávamos. Ela sabia quem eu era, e, naquele instante, ela aceitou. Mesmo que isso significasse sua própria destruição.
Mas, afinal, destruição também pode ser um tipo de renascimento.
Eu não planejava. Não tinha vindo aqui para isso. Mas então ela estava ali, tão vulnerável e tão irritantemente humana, com aqueles olhos que brilhavam de uma mistura de descrença e fascinação. Charlotte. Sempre Charlotte. O nome dela parecia uma corrente, mas ao mesmo tempo, um convite irresistível.
Quando a puxei para mim, não houve resistência. Não de verdade. Havia hesitação, sim, mas era o tipo de hesitação que vem do desejo contido, do medo que antecede a entrega. E então, quando minhas mãos envolveram sua cintura, puxando-a mais para perto, ela deixou escapar um pequeno suspiro. Não de medo. De algo muito mais primal.
— Você realmente não entende, entende? — murmurei contra a pele do pescoço dela, minha voz rouca e carregada de sarcasmo. — Você abriu uma porta para o inferno, Charlotte. Você trouxe a mim.
Ela tentou responder, mas as palavras morreram antes de sair. Em vez disso, ela agarrou minha jaqueta, como se precisasse de algo para ancorá-la, algo para evitar que fosse tragada pelo abismo que eu representava.
— Eu não... não acredito em nada disso — ela finalmente conseguiu dizer, a voz fraca, mas cheia de teimosia.
Sorri contra sua pele, os dentes raspando levemente em seu pescoço.
— Não acredita? — murmurei, deslizando as mãos por suas costas. — E ainda assim, está aqui. Comigo. Deixe-me adivinhar, Charlotte... — Inclinei-me, pressionando meu corpo contra o dela, deixando que ela sentisse o calor febril que irradiava de mim. — Você não acredita, mas quer acreditar. Quer tanto que isso seja real que está disposta a se perder no processo.
— Eu não quero... — começou, mas a mentira era tão óbvia que nem ela conseguiu terminá-la.
— Não minta para mim. — Minhas palavras saíram como um rosnado baixo, os dedos apertando sua cintura. — Não minta para você mesma.
Ela finalmente parou de tentar argumentar. Em vez disso, cedeu. Suas mãos subiram, envolvendo meu pescoço, enquanto seus olhos encontraram os meus. Havia algo quase desesperado naquele olhar, uma necessidade que ela provavelmente não entendia, mas que eu conhecia muito bem.
Eu a beijei, e não foi suave. Não havia espaço para suavidade em algo tão visceral. Foi uma colisão, uma batalha de vontades e desejos. Minhas mãos exploraram seu corpo, sentindo cada curva, cada tremor sob meu toque. E ela, para minha surpresa, não recuou. Ela me encontrou de igual para igual, respondendo com uma intensidade que parecia incompatível com sua fragilidade aparente.
— Você não deveria estar aqui — ela sussurrou entre beijos, mas não havia convicção em suas palavras.
— Não, eu não deveria — respondi, a voz rouca contra sua pele. — Mas você me chamou. Agora, lide com as consequências.
Ela me olhou, os lábios entreabertos, o rosto corado.
— Você não pode ser... não pode ser um demônio.
Eu ri, um som baixo e carregado de algo que não era nem de perto humano.
— Oh, Charlotte, eu sou muito pior do que isso.
Minhas palavras a fizeram estremecer, mas ela não recuou. Em vez disso, ela se agarrou mais a mim, como se estivesse se afogando e eu fosse a única coisa mantendo-a à tona.
Minha jaqueta foi jogada ao chão, seguida pela camiseta. Eu podia sentir o frio do ambiente, mas meu corpo permanecia quente, uma chama que parecia consumir tudo ao meu redor. Quando suas mãos tocaram minha pele, foi como se o ar entre nós se inflamasse.
— Está quente... — ela sussurrou, os dedos deslizando pelo meu peito.
— Sempre estou. — Minha voz era um sussurro rouco. — É o que acontece quando você carrega o inferno dentro de si.
Ela não respondeu, mas seus olhos permaneceram nos meus, desafiando, questionando. E então ela cedeu completamente.
Eu a deitei sobre a cama, o colchão antigo rangendo sob o peso de nossos corpos. Cada toque era uma batalha, uma afirmação de quem éramos. Eu não era gentil, porque não havia espaço para gentileza em algo tão selvagem. Ela não pediu por isso.
Meu corpo movia-se contra o dela, e o calor entre nós era quase insuportável. Suas unhas arranharam minhas costas, seus gemidos entrecortados enchendo o silêncio da cabana. Eu poderia tê-la quebrado, mas ela era surpreendentemente resiliente, mais forte do que eu esperava.
— Diga que não acredita em mim agora — murmurei contra sua pele, minha voz carregada de algo entre raiva e desejo.
Ela não disse nada, apenas me encarou, os olhos brilhando com algo que parecia um misto de desafio e aceitação.
Naquele momento, eu soube que ela não precisava dizer nada. Não importava se ela acreditava ou não. Ela era minha, e isso era tudo que importava.
Quando finalmente nos separamos, ambos estávamos ofegantes, os corpos cobertos de suor, mas satisfeitos.
Ela olhou para mim, os lábios inchados, o cabelo desgrenhado, e eu sabia que ela estava prestes a fazer a pergunta.
— Então, você realmente é um demônio?
Sorri, inclinando-me para sussurrar em seu ouvido.
— Sou. E agora, você é minha, Charlotte. Em todos os sentidos. A sua alma me pertence.