O Primeiro Toque
A noite do festival ficou para trás, mas o rastro que deixou em Clara e Miguel parecia ter ficado preso no ar, como perfume doce após um abraço demorado.
Dois dias depois, Clara decidiu caminhar até a beira do rio - seu refúgio desde a infância. Precisava organizar os pensamentos, e nada melhor do que o som das águas e o silêncio do campo.
Ao chegar, percebeu que não estava sozinha.
Miguel estava ali. Sentado numa pedra grande, descalço, com os pés na água e o olhar perdido no horizonte.
- Juro que não te sigo. - Clara disse, meio brincando, meio sem graça.
Ele virou o rosto devagar, e pela primeira vez, não pareceu armado.
- Mas parece que o destino gosta de brincar com a gente.
Clara sentou-se a alguns passos de distância, tirou os sapatos e mergulhou os pés na água gelada. Ficaram em silêncio por alguns minutos. Não era desconfortável. Era denso. Carregado.
- Sabe o que eu odeio? - ela disse, subitamente.
- O quê?
- Que as pessoas sempre acham que sabem o que é melhor pra você. Que vivem tomando decisões por nós, como se soubessem tudo.
Miguel virou o rosto, encarando-a.
- Você parece estar falando de alguém em específico.
Clara desviou o olhar.
- Todos nós temos fantasmas.
Miguel respirou fundo. O vento balançava seus cabelos, e ele parecia mais leve, como se finalmente quisesse falar.
- Meu pai morreu quando eu tinha quinze. Minha mãe tentou manter a fazenda, mas nunca gostou desse lugar. Eu fiquei. Sozinho. Por escolha. A dor era menor que sair por aí tentando fingir que estava tudo bem.
Clara o encarou.
- Eu fui embora porque me disseram que não havia mais nada pra mim aqui. E voltei porque percebi que, talvez... tudo que eu procurei lá fora, sempre esteve aqui.
Os olhos deles se encontraram com uma intensidade que não precisava de explicações. Um silêncio elétrico tomou conta. Miguel se aproximou, com o corpo virado pra ela.
- Se você me deixar, eu posso quebrar um dos muros. Só um.
Clara não respondeu. Mas inclinou-se ligeiramente.
Miguel levou a mão ao rosto dela com uma delicadeza que contrastava com a firmeza de seus olhos.
E ali, à beira do rio onde a água corria livre, eles se beijaram pela primeira vez. Um beijo lento, denso, cheio de hesitações... e ainda assim, inevitável.
Quando se afastaram, Clara respirou fundo, os olhos marejados.
- Acho que o destino decidiu parar de brincar.
Miguel sorriu, encostando a testa na dela.
- Ou talvez só esteja começando o jogo de verdade.
Capítulo Seis - O Eco do Passado
Nos dias seguintes, Clara e Miguel não falaram do beijo. Mas também não fingiram que ele não tinha acontecido. Era como se ambos estivessem pisando num campo desconhecido, com medo de ir rápido demais e estragar tudo.
Dona Iolanda, observadora como sempre, notava o brilho diferente nos olhos da neta. Mas também notava as ausências de Miguel, que andava sumido por mais de um dia inteiro.
Na tarde de uma sexta-feira chuvosa, Clara decidiu ir até a fazenda. Levava um potinho de geleia que Dona Iolanda havia feito, sob a desculpa perfeita de um gesto de vizinhança. Mas no fundo... ela só queria vê-lo.
Foi recebida por um dos empregados da fazenda.
- O doutor Miguel tá no celeiro antigo. Tá mexendo nas coisas do pai dele.
Clara atravessou o terreno molhado até a construção de madeira. Quando entrou, viu Miguel ajoelhado diante de uma caixa de papéis e pastas envelhecidas. Ele não percebeu a presença dela de imediato. Havia lágrimas secas em seu rosto.
- Miguel...
Ele levantou os olhos, surpreso. Mas não afastou o olhar.
- Meu pai... Ele deixou cartas. Diários. E segredos.
Clara se aproximou devagar.
- Do que está falando?
Miguel se levantou, pegou um envelope com as mãos trêmulas.
- Meu pai tinha uma filha. Fora do casamento. Ele sabia. E deixou tudo registrado. Inclusive o nome. Ela... Ela foi criada por parentes em outra cidade. Nunca soube de mim.
Clara tentou absorver a informação. Miguel tinha uma irmã?
- Você está bem?
- Não sei. Não sei como reagir a isso. Mas... eu quero encontrar essa pessoa. Saber quem ela é. Achar esse pedaço da minha história.
Ela assentiu. Tocou seu braço.
- Então eu vou com você. Se quiser.
Miguel olhou pra ela como quem encontra chão. Mas antes que pudesse responder, um outro funcionário apareceu na porta do celeiro.
- Dona Amália chegou. E não parece nada contente.
Clara sentiu o corpo de Miguel enrijecer. Ele suspirou, passou as mãos no rosto e saiu, com Clara logo atrás.
Na sala da fazenda, Amália, a mãe de Miguel, esperava com postura dura e olhar de aço.
- Fiquei sabendo que andou mexendo no passado, Miguel. Não era pra isso acontecer.
- Você sabia dessa menina? Sabia que eu tinha uma irmã e me escondeu tudo?
- Seu pai me traiu. E eu o perdoei. Mas não ia permitir que aquela criança atrapalhasse sua vida.
Clara arregalou os olhos. O veneno nas palavras da mulher era mais forte do que qualquer rancor velado.
Miguel se aproximou da mãe.
- Não sou mais um garoto, mãe. E não preciso da sua proteção. Se você tentou esconder isso por medo, entenda: o medo agora é seu. Porque eu não vou fingir que nada aconteceu.
Amália virou o rosto. Orgulho ferido. Dor reprimida.
Clara segurou a mão de Miguel. Forte. Presente.
-
Do lado de fora, a chuva havia parado. Mas dentro deles, as águas do passado começavam a se mover.
O beijo havia sido só o início. Agora, estavam ligados por algo maior: a busca pela verdade... e talvez, pela redenção.
Capítulo Sete - Na Estrada da Verdade
Dois dias depois, com o sol nascendo tímido por trás das montanhas, Miguel e Clara colocaram as malas no porta-malas da caminhonete e partiram. A estrada era longa até a cidade onde, segundo as cartas deixadas pelo pai de Miguel, sua irmã havia sido criada.
No banco do passageiro, Clara olhava pela janela, mas seus pensamentos estavam em Miguel. Ele dirigia com o maxilar tenso, o olhar fixo no asfalto, como se cada quilômetro o aproximasse tanto da verdade quanto do abismo emocional que evitou por anos.
- Sabe... é estranho como a vida nos vira pelo avesso, só pra mostrar quem realmente somos. - Clara disse, quebrando o silêncio.
Miguel desviou o olhar por um segundo, antes de voltar à estrada.
- Eu achei que tinha controle sobre tudo. A fazenda, meu silêncio, meu passado... Mas agora percebo que não era controle. Era fuga.
Clara tocou de leve sua mão sobre o câmbio.
- Talvez encontrar essa irmã não seja só sobre ela. Talvez seja sobre você finalmente se permitir viver.
Eles se entreolharam. E, naquele instante, a estrada deixou de ser apenas caminho. Tornou-se cura.
Ao chegarem na pequena cidade, procuraram o cartório local. A funcionária, uma senhora simpática, pegou a antiga ficha da família que havia acolhido a menina.
- Ela foi registrada como Beatriz. Beatriz Martins Duarte. Parece que usaram o sobrenome do pai... discretamente. Está vivendo em Flor do Monte. Professora de música.
Clara sorriu.
- Flor do Monte. Conheço. Cidadezinha charmosa. Tem uma pracinha linda e um coreto no meio.
Miguel assentiu, emocionado. Os olhos marejados.
- Então é pra lá que vamos.
No fim da tarde, chegaram à cidade. O céu tinha tons dourados, e as árvores balançavam suavemente. A escola municipal ainda estava aberta. Ao perguntar por Beatriz, indicaram a sala dos fundos, onde ela terminava uma aula de violão com crianças.
Pela janela, Miguel a viu pela primeira vez.
Jovem. Cabelos castanhos ondulados. Um sorriso leve. E algo nele se agitou. Ela não sabia quem ele era, mas ele já a amava.
Clara tocou seu ombro.
- Vai falar com ela?
- Ainda não. Quero entender o que sinto primeiro. Quero saber se tenho espaço na vida dela... antes de invadir.
Naquela noite, Miguel e Clara se hospedaram numa pousada simples. Depois do jantar, sentaram-se no jardim iluminado por pequenas luzes.
- Você foi incrível hoje. - Clara disse, deitando a cabeça no ombro dele.
- Você que foi. Se não fosse por você, eu nunca teria vindo.
Silêncio.
Então Miguel se virou, pegou o rosto dela entre as mãos e beijou-a. Um beijo mais firme, mais entregue que o primeiro. Um beijo de quem está se despindo do medo.
E quando se afastaram, Clara sorriu, os olhos brilhando.
- Acho que a gente acabou de atravessar a linha do 'só amizade'.
Miguel riu, o riso mais sincero em muito tempo.
- E ainda bem. Porque com você... eu não quero mais fugir.