Um Coração Chamado Beatriz

1300 Palavras
Capítulo Oito – Um Coração Chamado Beatriz O dia seguinte amanheceu com o canto de pássaros e o cheiro de pão fresco vindo da cozinha da pousada. Clara já estava acordada, sentada à varanda, tomando café. Miguel saiu do quarto, os cabelos ainda desalinhados, e parou para observar o rosto dela, iluminado pela luz suave da manhã. — Dormiu bem? — ela perguntou, oferecendo um sorriso que parecia ter poder de curar o mundo. — Sim. Pela primeira vez em anos. Eles terminaram o café e, antes das oito, estavam novamente diante da escola de música. Era dia de aula, e Beatriz estava ensaiando com as crianças para a apresentação de fim de ano. Quando ela saiu da sala, enxugando as mãos num lenço floral, quase esbarrou em Miguel, que esperava no corredor. — Oi. Posso ajudar? Ele tentou sorrir. — Oi… Desculpa aparecer assim, mas… preciso conversar com você. É sobre seu pai. Beatriz franziu o cenho. — Meu pai faleceu há muitos anos. — Sim. O meu também. Ela o encarou. O silêncio se estendeu, e algo nos olhos dela mudou. — Espera… você é Miguel Duarte? Ele assentiu. A mão dela voou à boca. — Minha mãe me contou sobre você… anos atrás. Mas achou que você nunca saberia. Ela teve medo de te procurar. Medo de ser rejeitada. Miguel sentiu o peso do passado cair dos ombros, como um cobertor velho sendo retirado. — Eu não vim aqui pra te julgar. Vim porque… precisava saber se você existia. E você existe. E isso muda tudo. Beatriz deu um passo à frente, os olhos marejados. — Então… você é meu irmão. Eles se abraçaram. Um abraço tímido no início… depois apertado, necessário. Clara, à distância, se emocionava. — Mais tarde, os três almoçaram juntos num restaurante da cidade. Riram, compartilharam histórias, fotos, memórias. Era como se um buraco invisível na alma de Miguel começasse a se fechar. Na despedida, Beatriz o segurou com carinho. — Volta sempre, tá? Agora que eu te achei… não quero te perder. — Nem eu a você. — De volta à fazenda… Clara e Miguel chegaram ao entardecer. Mas algo os esperava. Um envelope na varanda. Sem remetente. Miguel abriu. Era um dossiê. Fotos. Cópias de e-mails. Prints de conversas. Tudo comprovando que Maurício havia sabotado negócios, interferido em decisões da fazenda e usado o nome de Miguel para benefício próprio. — Esse desgraçado… — Tem mais. — Clara disse, lendo outro papel. — Ele também teve acesso aos celulares e e-mails da tua mãe e da minha avó. Ele manipulou as mensagens… Ele criou as mentiras entre nós dois. Miguel ficou estático. — Então foi ele quem nos afastou. Durante anos. Clara respirou fundo. — Mas agora... agora temos as provas. E chegou a hora dele pagar por tudo. — E naquele instante, não eram mais só dois corações tentando se entender. Eram dois corações com sede de justiça. Com raízes no passado, mas olhos firmes no futuro. Capítulo Nove – O Baile das Máscaras Que Caem Era noite de gala na cidade. O tradicional evento beneficente da Fundação Esperança, que reunia empresários, autoridades, jornalistas e toda a elite local. Clara vestia um elegante vestido verde-esmeralda, com f***a lateral e um decote delicado. Seu cabelo preso com flores pequenas e discretas, revelava o pescoço gracioso. Ao seu lado, Miguel exalava imponência e sobriedade num terno cinza-escuro perfeitamente ajustado. Mas eles não estavam ali apenas para socializar. Aquela seria a noite em que as máscaras cairiam — literalmente e simbolicamente. — Maurício, como sempre, circulava pelo salão como se fosse o dono do mundo. Taça na mão, sorriso falso nos lábios, e uma arrogância que beirava o patético. Quando viu Miguel e Clara entrarem juntos, o sorriso congelou no rosto. Mas ele logo disfarçou, aproximando-se com aquele tom untuoso de sempre. — Ora, ora... O casal do momento. Quem diria que o campo rende mais que soja. Rende romance. Clara sustentou o olhar, afiada. — Cuidado, Maurício. Às vezes, o que se planta é veneno. E a colheita… pode ser fatal. Ele sorriu de canto, confiante. — Você nunca me engoliu, não é? Pena que não me deram ouvidos quando eu avisei quem você era. — Engraçado, — Miguel disse, entrando na conversa — porque agora temos provas de quem você realmente é. E vamos entregá-las aos investidores. Hoje. Aqui. O rosto de Maurício empalideceu. — Está blefando. Mas antes que ele pudesse dizer mais, uma voz feminina ecoou pelo microfone no palco. — Boa noite a todos! Antes da próxima apresentação musical, peço um minuto da atenção de vocês. Era Lorena, melhor amiga de Clara, vestida de vermelho como uma deusa da verdade. Com um sorriso feroz, ela continuou: — Tenho aqui documentos que revelam fraudes empresariais, manipulação digital e sabotagem dentro da própria Fazenda Duarte. O nome do responsável? Maurício Brandão. O salão mergulhou num burburinho ensurdecedor. Olhares se voltaram para Maurício, que tentava manter a pose. — Isso é uma armação! Você não tem direito... — Tenho o dever. — Lorena o cortou, levantando a voz. — E mais: a empresa será auditada a partir de segunda-feira. Você está suspenso das funções. E o Conselho já está sendo notificado. Miguel aproximou-se, cara a cara com o ex-sócio. — Você brincou com a vida de muita gente, Maurício. E agora, a sua máscara caiu. Maurício saiu escoltado pelos seguranças do evento, sob os flashes de fotógrafos e os cochichos escandalizados dos presentes. Horas depois, Clara e Miguel estavam na varanda do salão, olhando as luzes da cidade ao longe. Ela se encostou no peito dele, aliviada. — Acabou. — Não. Está só começando. — ele disse, beijando sua testa. — Agora é só você, eu… e o que vem pela frente. Capítulo Dez – Amores Para a Vida O tempo passou. E com ele, os ecos do passado foram dando lugar a novos começos. A fazenda voltou a florescer sob a liderança firme de Miguel e Clara. Beatriz, agora presença constante, trazia música e ternura para os domingos em família. Lorena tornara-se uma espécie de guardiã do legado emocional daquelas terras, sempre atenta, sempre leal. Mas nada — absolutamente nada — brilhou tanto quanto o olhar de Gabriel, agora com dezoito anos. Mais alto que Miguel, os mesmos olhos da mãe e a determinação herdada dos dois. Era apaixonado por cavalos, esportes e… por uma garota chamada Júlia, com quem trocava cartas e sorrisos no coreto da praça, o mesmo onde Clara um dia revelou seu coração. — Pai? — ele disse certa tarde, enquanto caminhava com Miguel entre os campos floridos. — Acha que um dia vou saber amar como você ama a mamãe? Miguel parou, olhou o filho e sorriu com o peso e a leveza que só os anos trazem. — Se for com verdade, com entrega, e mesmo com medo… então já está amando melhor do que eu amei um dia. — Na varanda da casa, ao entardecer… Clara folheava um álbum antigo. Fotos dela, de Gabriel pequeno, de Beatriz na formatura, de Lorena e Júlia cantando num festival local. Miguel se aproximou, trazendo dois cafés. — Lembra de quando tudo era silêncio e saudade? — ela perguntou. — Lembro. Mas hoje… tudo é som e amor. Ela riu, emocionada. — Acha que merecemos tudo isso? Miguel segurou sua mão com força. — Não sei se merecemos. Mas escolhemos. Lutamos. Perdoamos. E isso é mais que merecimento. Isso é destino. — E naquela noite, enquanto o céu se enchia de estrelas e risadas ecoavam na varanda, Gabriel tocava violão. Júlia cantava baixinho. Beatriz sorria entre os amigos. Clara e Miguel dançavam descalços na grama. Era como se o tempo tivesse se curvado diante do amor. Porque, no fim, foi exatamente isso: Um amor para a vida.
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