Capítulo 3 – A playlist esquecida
Era quinta-feira quando Theo esqueceu os fones de ouvido no balcão. Estavam enrolados de um jeito quase meticuloso, ao lado da xícara vazia de café com canela. Amora só percebeu quando já havia limpado todas as mesas e estava fechando o caixa.
Levantou os fones com cuidado, como se segurasse algo íntimo. Eles estavam conectados a um pequeno dispositivo — um daqueles tocadores de música antigos, dos tempos antes do streaming. Curioso.
Ela hesitou por alguns segundos, depois apertou o botão de ligar. A tela acendeu com uma lista curta de músicas. Todas com nomes poéticos demais para uma playlist casual:
“Folhas em Fuga”, “Silêncios de Domingo”, “Esquina 22”, “Ela sorri e o mundo pausa”.
Amora mordeu o lábio. Aquilo era arte. Era ele.
Sentou-se na cadeira mais próxima, colocou os fones e apertou o play.
A primeira música era instrumental. Piano e cordas suaves, com notas que pareciam flutuar como folhas no vento. Era doce, melancólica. A segunda trazia uma voz rouca cantando versos em francês. Ela não entendeu tudo, mas sentiu. Sentiu como se estivesse invadindo um pedaço do coração de Theo — e, de algum modo estranho, se sentiu bem ali.
Passou os próximos quinze minutos sentada, ouvindo faixa por faixa, como se estivesse explorando um mapa emocional. Cada música parecia ter sido escolhida a dedo. Não era uma seleção comum. Era quase uma carta não escrita.
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Na manhã seguinte, quando Theo entrou no café, Amora já estava atrás do balcão, com um sorriso travesso.
— Bom dia, artista distraído.
— Bom dia, barista perspicaz — respondeu ele, já com aquele tom suave de cumplicidade.
Ela estendeu o tocador de música.
— Acho que você esqueceu um pedaço seu aqui ontem.
Theo arregalou os olhos.
— Eu... nossa, nem percebi. Obrigado. Achei que tinha perdido.
— Ouvi. As músicas.
Ele congelou por um segundo.
— Ah...
— São lindas — disse ela, com sinceridade. — Quase como poemas sem palavras. Exceto a francesa, que tem palavras que eu não entendi, mas ainda assim quase chorei.
Theo riu, aliviado.
— É a minha playlist “Dias que merecem ser lembrados”. Eu escuto quando preciso voltar a sentir alguma coisa.
— E ontem era um desses dias?
Ele assentiu, devagar.
— Talvez. Mas... acho que não vou mais precisar dela com tanta frequência.
Amora inclinou a cabeça, curiosa.
— Por quê?
— Porque tem dias que a gente não precisa lembrar. Eles já estão acontecendo. Aqui, agora.
Ela desviou o olhar por um instante, sentindo o coração acelerar. Pegou a caneca verde-clara e começou a preparar o café. A canela foi polvilhada com mais carinho do que nunca.
Quando entregou a bebida, ele segurou sua mão por um breve segundo.
— Obrigado por ouvir.
— Obrigado por me deixar ouvir — respondeu ela, e dessa vez o sorriso veio acompanhado de um leve rubor.
Theo se sentou na mesa de sempre. O sol da manhã entrava pela janela, tocando seus ombros com suavidade. Ele pegou seu caderno de esboços, o que nunca fazia no café. Pela primeira vez, desenhou ali, ao vivo, como se não houvesse mais motivos para esconder.
Enquanto isso, Amora escrevia discretamente num guardanapo:
“A sua playlist virou minha trilha sonora.”
Dobrou o papel e, na hora de levar a conta, o deixou ao lado da xícara.
Theo leu, guardou o bilhete no bolso e, ao sair, olhou pra trás. Pela primeira vez, deixou algo mais do que um desenho ou um sorriso.
Deixou um começo.
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Capítulo 4 – Guardanapos com bilhetes secretos
A nova rotina começou sem que nenhum dos dois percebesse. Theo chegava às 9h22, sempre pontual. Amora já deixava a caneca verde-clara separada, como quem cuida de um ritual secreto.
Mas naquela manhã, havia um bilhete esperando por ele sob a xícara:
> “Hoje o café tem um gosto diferente. Talvez seja a canela... ou você.”
Theo leu, riu com o canto dos lábios e respondeu com outro guardanapo. A troca virou hábito. Um diálogo silencioso de palavras dobradas e tintas azuis.
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Capítulo 5 – Canela no ar, no nome e no coração
Era outono, mas Amora sentia primavera por dentro. Ela passou a colocar mais canela nos doces do dia, usar perfume de baunilha com especiarias e batizar o novo bolo da vitrine de “Theo”.
Theo, por sua vez, passou a chegar mais cedo. Dizia que era o trânsito. Ou a luz perfeita da manhã. Mas Amora sabia: ele gostava era de vê-la abrir a cafeteria, com o cabelo preso de qualquer jeito e o rosto ainda com traços de sono.
Canela passou a ser mais que um sabor. Era presença.
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Capítulo 6 – Um café a mais, um motivo a menos
Numa sexta-feira, Amora preparou dois cafés. Theo estranhou.
— Alguém vai chegar?
Ela hesitou.
— Eu só... queria sentar um pouco. Posso?
Theo puxou a cadeira ao seu lado.
Foi o primeiro dia em que tomaram café juntos. Falaram sobre livros, infância, viagens que não fizeram. Theo contou sobre a irmã mais nova e o medo que tinha de altura. Amora revelou que sonhava abrir um café itinerante e rodar o país numa Kombi.
Riram. Muito. E não perceberam o tempo passar. Nem os olhares cúmplices de Dona Bia na calçada.
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Capítulo 7 – Domingo de chuva, xícara de lembranças
O domingo amanheceu cinza e chuvoso. Amora decidiu abrir o café mesmo assim. A cidade parecia dormir.
Theo apareceu com os cabelos molhados e um livro debaixo do braço.
— Vim buscar abrigo.
— E encontrou.
Sentaram perto da janela. A chuva caía lenta, como um pano molhado sobre o mundo. Theo começou a ler em voz alta. Amora fechou os olhos. O som da leitura, misturado ao cheiro de café, criou um instante perfeito.
Ele não sabia, mas aquele era o livro preferido da mãe dela, que já não estava mais ali.
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Capítulo 8 – Theo desenha Amora (sem perceber)
Enquanto Amora preparava um novo bolo, Theo rabiscava em silêncio. Só percebeu o que havia feito quando ela olhou por cima do ombro.
— Sou eu?
— É...
O desenho era delicado: Amora com as mãos sujas de farinha, o avental torto e um sorriso largo. O cabelo preso num coque apressado.
— É assim que você me vê?
— É assim que você me inspira.
Ela não disse nada. Mas pegou o desenho, colou na parede do café e escreveu embaixo: “Feito com afeto.”
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Capítulo 9 – Dona Bia e a profecia do amor ao lado
Dona Bia entrou no café como quem entra num palco.
— Eu disse que ia acontecer. Vocês estão se apaixonando.
Amora corou. Theo fingiu tossir.
— Não é assim tão simples, Dona Bia.
— É sim. Eu tenho 78 anos, já vi amor em mil formas. Mas o de vocês tem cheiro de canela e gosto de verdade.
E saiu, deixando um silêncio cheio de sorrisos contidos.
Amora olhou para Theo. Ele para ela. Nenhum dos dois negou. Também não confirmaram. Mas naquele dia, a troca de bilhetes foi substituída por olhares longos e quietos.
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Capítulo 10 – Primeira saída, primeiros tropeços
Theo convidou Amora para um passeio no parque da cidade. Levaram café em copos térmicos e sentaram sob uma árvore de folhas amarelas.
Conversaram sobre música, medos e planos. Theo segurou a mão dela por alguns segundos. Ela deixou.
Na volta, ele tropeçou numa raiz e caiu. Riram tanto que choraram. Amora disse que era um bom sinal: tropeços sempre precedem coisas bonitas.
Ele respondeu:
— Então espero tropeçar em você muitas vezes.
Ela apertou a mão dele. E aquele gesto simples valeu mais do que qualquer declaração.