O bilhete que não foi entregue

2095 Palavras
Capítulo 11 – O bilhete que não foi entregue Theo escreveu, dobrou, desdobrou. Reescreveu. > “Se você soubesse o quanto mudou meus dias, talvez entenderia o porquê de eu não conseguir mais passar um sem te ver.” Mas o bilhete nunca foi entregue. Ele deixou na mochila, guardado entre páginas de rascunhos. Amora, naquele mesmo dia, deixou um pedaço de bolo “por engano” na mesa dele com um bilhetinho escrito às pressas: > “Você é meu pedaço favorito da rotina.” Os dois estavam dizendo. Só ainda não usavam a palavra “amor”. --- Capítulo 12 – Fotos 3x4 e lembranças 10x mais doces No café, Amora encontrou uma caixinha antiga com fotos 3x4 de clientes antigos, coladas num mural de cortiça. Decidiu reativar o “Mural do Coração Quente”. — Vai querer colocar a sua? — ela perguntou a Theo, sorrindo. — Só se for ao seu lado. Eles tiraram a foto numa cabine improvisada, usando uma moldura de quadro como adereço. Ficaram ridículos. E perfeitos. E felizes. A foto foi colocada no centro do mural, com a legenda escrita por Dona Bia: “Quando o café vira casa.” --- Capítulo 13 – Aurora de risos e confissões Num sábado, o café amanheceu com fila na porta. Um grupo de turistas tinha descoberto o lugar e queria experimentar o famoso “Café Theo”. Amora corria, Theo ajudava com os pedidos, Dona Bia apareceu para "organizar o fluxo". Em meio à confusão, Amora cochichou: — Quero fazer isso com você por muito tempo. Ele parou, olhou nos olhos dela e respondeu: — Já estamos fazendo. Naquela noite, ela deitou no sofá com a cabeça no colo dele. Ele desenhou estrelas invisíveis no braço dela com a ponta do dedo. Foi a primeira vez que ela dormiu ali. E não foi preciso nada além disso. --- Capítulo 14 – A receita da mãe de Amora Amora achou, entre cadernos antigos, uma receita de bolo de tangerina da mãe. Tinha a letra meio tremida e uma anotação no final: > “Faça só para alguém que te faça sorrir com os olhos.” Ela fez o bolo. Serviu a Theo com chá de camomila e um guardanapo em forma de coração. Ele comeu devagar, sentindo cada pedaço como se fosse infância. — Tem gosto de lembrança boa — disse. — Tem gosto de amor — pensou ela. Mas ainda guardou a frase para outro dia. --- Capítulo 15 – Madrugada na calçada e um quase beijo Depois de fecharem o café juntos, decidiram ficar sentados na calçada, observando a rua vazia e os postes alaranjados. A brisa era fria, mas o silêncio entre eles aquecia. Theo falou: — Você sente quando algo está prestes a mudar? — O tempo todo — ela respondeu. Ele se virou devagar. Ela também. Ficaram a centímetros um do outro, os olhos entreabertos, as respirações quase se tocando. Mas Amora recuou, com um sorriso tímido: — Ainda não. Theo assentiu. Não forçou. E naquele “ainda”, ele entendeu tudo. QUANDO O SILÊNCIO TAMBÉM É RESPOSTA Capítulo 16 – Quando o silêncio também é resposta Naquela semana, Theo não apareceu por três dias. Amora não quis invadir. Não mandou mensagem. Mas todos os cafés tinham canela, mesmo sem ele. O bolo da vitrine ficou com nome nenhum. Na manhã do quarto dia, ele entrou, os olhos cansados. — Desculpa o sumiço. Meu pai passou m*l. Precisei viajar. Amora apenas o abraçou. Longo. Quente. Silencioso. Ele encostou o rosto no cabelo dela e fechou os olhos. Era isso que ele precisava. Não perguntas. Apenas a presença. E naquele abraço, ele soube que estava em casa. --- Capítulo 17 – A carta não enviada De volta ao seu apartamento, Theo abriu a gaveta e encontrou a carta que nunca entregou. Estava amarelada pelas semanas, mas ainda viva. Releu. Dobrou. Levou até o café. Na hora de sair, deixou na xícara dela, junto com uma flor de papel dobrada à mão. Amora leu no silêncio da cozinha. > “Eu te amo desde o primeiro café. Só precisei de tempo para entender que era isso o que sentia — e que não precisava ter medo. Você é a arte mais bonita que meus olhos já viram.” Ela chorou. Sorriu. Dobrou a carta e guardou junto das receitas da mãe. --- Capítulo 18 – Quando enfim choveu por dentro (e lavou tudo) Eles não se beijaram ainda. Mas começaram a se tocar com mais verdade. A mão na mão. O ombro no ombro. O riso no riso. Naquela tarde, ela trancou a porta do café mais cedo. Estava chovendo. E ela queria que fosse ele o primeiro a provar o novo bolo de cardamomo. — Fechei só pra você — disse, com um brilho nos olhos. — Então vou ficar — ele respondeu. Na segunda fatia, ele se levantou, foi até ela. E a beijou. Devagar. Como quem escreve um poema com a boca. Foi chuva e sol ao mesmo tempo. E ali começou outra estação. --- Capítulo 19 – Pequenas bagunças e grandes certezas Theo passou a dormir no sofá do café às vezes. Fazia desenhos novos para o mural. Criaram juntos um caderno de ideias chamado “Receitas e Rabiscos”. Amora espalhava xícaras em lugares aleatórios, ele esquecia as tampas de caneta, Dona Bia dizia que o amor se nota nas pequenas bagunças que não irritam. E, numa noite de vento forte, Amora disse, sem pensar: — Fica. — Já fiquei — ele respondeu, sem pestanejar. E foi assim, entre um tropeço e outro, que começaram a planejar uma vida a dois. --- Capítulo 20 – A Kombi branca e a nova receita No aniversário de Amora, Theo apareceu com uma Kombi branca, enfeitada com balões e flores. Na lateral, pintado à mão: “Café Aurora Sobre Rodas”. — É seu sonho. Quero estar nele — disse ele, com a voz embargada. Ela não soube o que dizer. Apenas chorou, depois riu, depois chorou de novo. Naquele mesmo dia, criaram uma nova receita juntos: Café Aurora, com lavanda, canela e casca de tangerina. Era delicado, raro e, acima de tudo, verdadeiro. Assim como eles. --- Epílogo – Onde moram os dias bons O café ainda existe. Fica numa esquina qualquer, às vezes em uma cidade, às vezes noutra. À frente, uma Kombi branca com cortinas floridas. Dentro, duas canecas: uma verde-clara e outra com desenhos à mão. Amora e Theo viajam contando histórias, servindo bolos com bilhetes dobrados e desenhando lembranças nas xícaras das pessoas. Dizem que quem prova o Café Aurora sente saudade de algo que ainda não viveu — e vontade de encontrar alguém para dividir. Mas o segredo, dizem eles, não está na receita. Está em quem prepara. E ali, entre a canela e o afeto, vivem felizes os dois que se reconheceram no sabor doce da coincidência. ****** Título: Estação Jasmin Gênero: Romance leve Tom: Doce, encantador, com ares de destino — como um sopro de flor em manhãs de outono. Ambientação: Uma cidade com estações bem marcadas e uma velha estação de trem com jasmins que florescem no início da primavera. --- Sinopse: Todos os anos, Clara viaja para visitar sua avó no interior, sempre pegando o mesmo trem, na mesma estação, na primeira semana da primavera. E todos os anos, ela cruza com o mesmo desconhecido: um rapaz de fones nos ouvidos, sempre lendo o mesmo livro, sempre esperando o mesmo horário — mas embarcando no sentido oposto. Ela nunca soube seu nome. Nunca ousou mais do que um sorriso ou um olhar curioso. Até o dia em que perdeu o trem. Nesse encontro inesperado, entre jasmins floridos e cafés de máquina, começa uma história sutil, construída em passos leves, como trilhos que se encontram devagar. Porque, às vezes, o amor não precisa de pressa — só de tempo certo e flores abertas. --- Personagens Principais: Clara Lima 27 anos, ilustradora freelancer. Doce, observadora e um pouco sonhadora. Sempre anota detalhes de desconhecidos em seu caderninho amarelo. Ian Rocha 29 anos, engenheiro de som e colecionador de silêncios. Lê o mesmo livro há três primaveras. Guarda suas memórias em áudios curtos gravados no celular. Dona Dorotéia (Vó Dó) Avó de Clara. Ama jasmim, coleciona xícaras e dá conselhos disfarçados de receitas de bolo. Rita Barista da estação. Sempre sabe quando um casal vai se apaixonar. Capítulo 1 – A Menina do Trem das 9h12 O perfume de jasmim sempre chegava antes dela. Clara passava pela catraca da estação às 9h05 em ponto. Sete minutos antes da partida do trem das 9h12. Sempre com o mesmo casaco creme, a mochila cheia de livros e um caderninho amarelo na mão. Quem observava com atenção — como Ian, por exemplo — podia notar que ela fazia um gesto automático: olhava para o relógio de parede, suspirava e procurava um lugar para esperar. Era seu ritual silencioso. Clara não sabia que era observada. Na verdade, achava que ela era quem observava. E talvez fosse verdade, até certo ponto. Anotava coisas. Pessoas. Detalhes. O rapaz que encostava a bicicleta toda quarta-feira no mesmo pilar enferrujado. A senhora que usava um lenço diferente a cada semana. O casal que parecia brigar só em silêncio, olhos desviados e mãos afastadas. E ele. O rapaz de fones. Sempre no banco do lado oposto da plataforma. Livro no colo, postura serena, tênis azuis um pouco gastos. Clara nunca soube o nome dele. Mas já o chamava mentalmente de O Menino do Trem das 9h14, porque era nesse horário que o trem dele passava. O dela, das 9h12, sempre ia para o sul. O dele, para o norte. Trilhos que nunca se cruzavam. Até aquela manhã. Tudo começou com o despertador mudo. E o café que derramou. E o ônibus que não passou. Clara chegou na estação às 9h13, arfando, ofegante, a mochila batendo contra as costas. O trem partia, indiferente, como os trens costumam ser. A fumaça, o som, a partida. E ela ficou parada ali, no meio da plataforma, como se tivesse perdido muito mais que um transporte. — Perdeu, hein? — disse uma voz atrás dela. Ela se virou. E era ele. Os fones pendurados no pescoço, o livro fechado, os olhos castanhos e tranquilos. — Perdi. — sorriu, meio frustrada. — E olha que sou fiel ao trem das 9h12. — Eu sei. — ele respondeu, sem pensar, e piscou devagar como quem acabou de se entregar. — Quer dizer… eu… te vejo sempre. Ela riu. Ele ficou vermelho. — E você? Sempre esperando o das 9h14. — ela devolveu. — Acho que somos vizinhos de trilho. — Ian. — ele estendeu a mão. — Clara. — ela apertou. Foi estranho como foi natural. Como se o mundo sempre tivesse esperado aquele atraso. Como se os ponteiros tivessem feito um desvio só para que eles pudessem se encontrar entre um trem e outro. — Quer um café? — ele apontou para a máquina. — Não é o melhor do mundo, mas serve como consolo por perder compromissos. Ela hesitou. Pensou na avó esperando. Pensou no tempo. Depois pensou que aquele perfume de jasmim estava mais forte que nunca, e que talvez fosse um sinal. — Quero sim. Sentaram-se num dos bancos da lateral, com vista para os trilhos vazios. Os copinhos de plástico aquecendo as mãos, a conversa ainda tímida, os sorrisos escapando entre uma pergunta e outra. Ela falou da avó que morava numa casa cheia de plantas. Ele contou sobre os áudios que gravava com sons de lugares. Sons que ele captava com um gravador antigo, como se quisesse guardar o tempo em arquivos pequenos. — E você? Guarda o tempo em desenhos? — ele perguntou, apontando para o caderno. Ela abriu. Mostrou um rabisco da estação. O pilar com a bicicleta. O casal de mãos afastadas. — E você… já apareceu algumas vezes aqui. — ela disse, mostrando um esboço dele com o livro no colo. — Então estamos quites. — ele sorriu. — Eu te observei por anos, você me desenhou. Empate técnico. Riram juntos. O som ficou guardado no gravador dele, que estava ligado sem que ela soubesse. — Sabe o que é engraçado? — Clara disse. — Eu sempre achei que a gente… quase se conhecia. — E agora? Ela olhou para ele. O vento suave mexia nos cabelos dele. Os olhos castanhos pareciam ainda mais claros sob a luz da manhã. — Agora a gente começa a se conhecer.
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