Capítulo 2 – O Dia do Retorno
Duas semanas. Esse foi o tempo que se passou desde o café improvisado na plataforma.
Clara retornava do interior com a mente cheia de imagens e o coração absurdamente leve. A visita à avó sempre lhe fazia bem — os bolos de erva-doce, as histórias repetidas com pequenas variações e o costume da Vó Dó de preparar flores frescas para colocar nos cantos da casa, como se isso afastasse qualquer tristeza.
Mas, desta vez, havia algo a mais.
Desde aquele atraso — talvez o mais bonito de sua vida — ela passava os dias revendo mentalmente cada frase trocada com Ian. O modo como ele inclinava a cabeça quando escutava. A forma delicada com que guardava silêncios. E o som do seu riso, capturado por acaso no gravador dele.
Ela não sabia se voltaria a vê-lo. Tinham trocado nomes, sorrisos e café. Mas não números, nem promessas. A vida poderia ter feito daquilo apenas uma história para guardar. E, ainda assim, Clara não se arrependia. Foi uma manhã bonita. Uma lembrança boa.
Ao chegar à estação, às 9h11, seu coração bateu mais rápido. Não porque esperava vê-lo, mas porque parte dela — a parte mais romântica, talvez — torcia por um novo acaso.
A plataforma estava quase vazia. Apenas uma senhora com um carrinho de feira, um homem lendo o jornal e um rapaz com uma câmera analógica pendurada no pescoço. Nenhum Ian.
Clara suspirou. Entrou no trem. Escolheu uma janela.
Mas, no momento exato em que as portas estavam prestes a se fechar, ouviu o som familiar de passos apressados.
— Espera! — a voz.
— Com licença! — a presença.
Ele entrou.
Ian.
O livro ainda nas mãos, os fones no pescoço, mas agora com um sorriso que parecia ainda mais largo do que ela se lembrava.
— Atrasado? — ela perguntou, quando ele a encontrou com os olhos.
— Pontualmente fora do horário — ele respondeu. — Mas com sorte de sobra.
Ele se sentou ao lado dela. A proximidade era nova, mas estranhamente natural. Como se aquele lugar sempre tivesse sido dele.
— E então? Como foi a visita à avó? — ele perguntou.
— Cheia de jasmins e bolos de milho. Você teria gostado.
— Eu gosto dessas coisas. E das pessoas que gostam delas.
Ela sorriu. Ele também. E por alguns segundos ficaram apenas olhando a cidade se afastar pela janela, como se o mundo lá fora estivesse passando devagar só para não interromper.
— Eu fiquei pensando — Ian disse, depois de um tempo. — Se a gente tivesse se conhecido antes... teria sido diferente?
Clara pensou.
— Talvez. Mas gosto de pensar que foi exatamente quando precisava ser.
Ele assentiu.
— Você acredita em encontros marcados?
— Acredito mais em pessoas que se encontram quando estão prontas para ver o outro.
Ian tirou do bolso o gravador antigo.
— Posso gravar isso?
— O quê?
— Você dizendo isso. Foi bonito demais pra se perder.
Ela riu.
— Só se você desenhar esse momento depois.
— Feito.
Gravou. Ela falou. Ele sorriu. E ali, no banco de um trem comum, duas pessoas pouco comuns decidiram que talvez valesse a pena viver devagar.
Porque quando tudo floresce no tempo certo, o perfume permanece.
Capítulo 3 – O Som do Silêncio
O sábado amanheceu com cheiro de chuva leve e café passado na hora. Clara acordou com a luz filtrando pelas cortinas floridas e um sentimento novo que não sabia nomear, mas reconhecia pelo sorriso que se formava sem aviso.
Na tela do celular, uma mensagem:
“Gravo sons do centro hoje. Quer vir ouvir o mundo comigo?” – Ian
Clara respondeu com um emoji de flor e um “sim” que saiu antes da razão perguntar qualquer coisa.
Encontraram-se às 10h, em frente à banca de jornais que ela sempre admirava, mas nunca tinha coragem de fotografar. Ian chegou com o gravador pendurado no pescoço, como uma medalha de algo invisível. Usava uma camisa azul clara, dobrada até os cotovelos, e o mesmo tênis surrado.
— Pronta pra ouvir o que ninguém escuta? — ele disse, com um brilho de expectativa nos olhos.
— Pronta pra ouvir você ouvir.
E assim começaram a andar. Ian mostrava como posicionava o gravador perto de sons que pareciam insignificantes para o mundo: o rangido de uma cadeira velha numa calçada, o zumbido do poste antigo da Rua das Laranjeiras, o riso de uma criança brincando no beiral da escola.
Clara, curiosa, fazia perguntas. Sobre ruídos, frequências, memórias. Ian respondia com palavras pausadas, como quem escolhe com cuidado o que vale ser dito.
— Eu gosto de silêncios. Mas gosto mais ainda de quando eles são preenchidos por coisas que fazem sentido. — ele disse, segurando o gravador perto de uma fonte que ninguém notava.
— Tipo agora? — ela perguntou.
— Tipo agora.
Pararam num café pequeno, onde a dona reconheceu Ian e trouxe dois espressos com biscoitinhos amanteigados.
— Você vem aqui sempre? — Clara perguntou.
— Sempre que quero silêncio com cheiro de canela.
Ela anotou a frase mentalmente. Ian, ao contrário, apenas a viveu.
Depois do café, seguiram para o Parque das Margaridas, onde Clara sentou num banco de madeira e tirou seu caderninho. Ian deitou na grama e gravou o som do vento passando pelas folhas.
— O que você mais gosta de gravar? — ela perguntou.
Ele pensou. Sorriu.
— Respira fundo.
Ela obedeceu. Ele apontou o gravador para ela.
— Isso. O som de alguém que está feliz, mesmo que não diga. Esse é o meu favorito.
Ela ficou em silêncio. Dessa vez, não para ouvir, mas para sentir.
—
Na volta, caminharam sem rumo pelas ruas do centro. Clara notou como tudo parecia mais bonito ao lado dele — até as calçadas tortas e as árvores com folhas secas.
— Sabe o que eu mais gosto em você? — Ian disse, de repente.
Ela olhou, surpresa.
— Que você presta atenção.
Ela riu.
— Eu achava que era você quem fazia isso.
— Talvez seja por isso que a gente se encontrou.
Na despedida, Clara olhou para os olhos dele por um segundo a mais do que o costume permitia.
— Obrigada por hoje.
— Gravo você dizendo isso?
— Só se prometer que vai me mostrar quando eu esquecer.
Ele acenou com a cabeça, e foi embora devagar, como se o momento precisasse de espaço para durar.
E Clara ficou ali, sentada no banco da esquina, pensando que às vezes, o som mais bonito do mundo é aquele que acontece entre um coração e outro.
Capítulo 4 – A Receita da Avó
A primavera estava no auge quando Clara decidiu que era hora de Ian conhecer Vó Dó.
— Ela vai te oferecer chá de alguma planta impronunciável. E vai saber que você gosta de mim antes de você saber. — Clara avisou.
Ian riu.
— Gosto de gente que entende o tempo das coisas. Igual a você.
Na varanda, Vó Dó os esperava com um avental florido e um sorriso que acolhia.
— Então este é o rapaz do som do vento? — ela perguntou.
Ian ficou vermelho. Clara segurou o riso.
Durante a tarde, Vó Dó contou histórias de amor que começavam com bilhetes trocados na feira e terminavam em cartas guardadas por décadas. Serviu bolo de fubá e chá de jasmin — claro. Ian escutava como quem grava o passado com os ouvidos do presente.
Quando partiram, Vó Dó disse a Clara:
— Esse menino tem alma de quem escuta antes de falar. Guarda ele com carinho, minha flor.
Clara assentiu. E guardou.
Capítulo 5 – Desenhos no Ar
No sábado seguinte, Clara levou Ian a seu ateliê.
Era um pequeno cômodo no último andar de um prédio antigo. Tinha janelas altas, plantas penduradas e um varal de desenhos por todos os lados. Ilustrações de ruas, cafés, sorrisos. Dele também.
— Você me desenhou muitas vezes. — Ian disse, admirando um retrato em aquarela.
— Você apareceu muitas vezes. — ela sorriu.
Ele ficou em silêncio por um instante. Então, estendeu o braço.
— Posso desenhar você?
Clara, surpresa, entregou um lápis. Ian não sabia desenhar. Mas fez uma linha simples, com mãos trêmulas e olhar fixo. E no final, escreveu: Te escuto.
Era imperfeito. Mas também era inteiro.
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Capítulo 6 – A Barista e o Presságio
Na estação, Rita, a barista, notou os dois entrando de mãos dadas.
— Sabia. Vocês têm cheiro de coisa que vai dar certo. — ela disse, servindo dois cafés.
— Cheiro? — Ian perguntou.
— Cheiro de jasmim e sorte. Uma combinação rara.
Sentaram no mesmo banco do primeiro encontro. E perceberam como aquele lugar havia mudado só porque agora estavam juntos.
Ian mostrou uma nova gravação: o som da risada de Clara misturada ao tilintar de colheres numa tarde qualquer.
— Parece música. — ela disse.
— Parece você. — ele respondeu.
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Capítulo 7 – Ruídos e Revelações
Em um passeio pela feira, Clara e Ian se perderam por minutos — ele parou para gravar um violonista, ela se distraiu com tecidos coloridos.
Quando se reencontraram, Clara parecia distante.
— Achei que você tivesse ido embora.
— Eu? Sem você? Nem o som teria sentido.
Ela respirou fundo. E confessou:
— Às vezes eu tenho medo. De sentir demais. De perder.
Ian segurou suas mãos.
— A gente não precisa correr. Só continuar. Um passo de cada vez. E eu não vou embora.
A frase ficou gravada — no coração dela e no gravador dele.
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Capítulo 8 – Um Lugar Só Nosso
Clara o levou a um mirante escondido da cidade. Era seu lugar secreto desde a infância.
Sentaram em silêncio, vendo o sol se esconder atrás das casas baixas.
— Nunca trouxe ninguém aqui. — ela disse.
— Então vou guardar esse silêncio com cuidado. — ele respondeu.
Ela o desenhou ali. Ele gravou o som do vento naquele exato momento. E prometeram: sempre que quisessem lembrar de quem são juntos, voltariam ali.
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Capítulo 9 – A Chuva que Aproxima
Uma tempestade os pegou de surpresa. Correram pelas ruas até se abrigarem na portaria de um prédio antigo.
Encharcados e rindo, Ian olhou para Clara com um novo olhar. Como quem entende, enfim, que encontrou.
— Posso te beijar?
Ela não respondeu com palavras.
O beijo aconteceu entre gotas e risos, entre um tremor e a certeza.
Depois disso, não havia mais dúvidas — apenas o desejo de continuar descobrindo um ao outro.
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Capítulo 10 – O Primeiro Desencontro
Nem tudo era perfeito. No capítulo dez, vem o primeiro ruído.
Clara tinha uma entrega importante e Ian, uma gravação marcada com um músico famoso. Os horários colidiram. E as inseguranças também.
— Parece que sua arte importa mais. — ela disse, ferida.
— Não é isso. Eu só... não quero atrapalhar seu caminho. — ele respondeu.
Ambos voltaram para casa com silêncios que doíam.
Mas naquela noite, Ian deixou um envelope na porta do ateliê dela. Dentro, um áudio em pendrive com uma única frase gravada entre sons de chuva:
“Eu escolho você. Sempre.”
Clara chorou. E soube que o amor também passa por isso — por aprender a ouvir até quando o outro não fala.