- Você pode ficar no quarto de hóspedes com a Liv. - Diz Sabina. O apelido carinhoso que a morena deu, involuntariamente à pequena, faz Joalin sorrir.
- Você está de roupão desde ontem. - Sabina avaliou o próprio corpo e notou que era verdade. - Me desculpa...
- Ei... Sem problemas. - Diz Sabina, em seguida suspirou. - Olha, você de certa forma me salvou, então me sinto em dívida com você. - Joalin não entendeu o que ela quis dizer. - Eu não vou te cobrar nada, mas irei querer saber o motivo de você não ter para onde ir e essas coisas, está bem? - Joalin encarou Livia e assentiu. - Mas se não quiser me contar agora, ou hoje, tudo bem.
Parecia loucura estar abrigando uma desconhecida em sua casa, mas Sabina realmente se sentia em dívida com a garota, ela iria tirar sua própria vida, iria tentar pôr um fim na sua dor, e ela iria ignorar a chamada em sua porta, mas algo a puxou para àquela garota.
- Eu só quero descansar um pouco... Onde... - Começou.
- Lá em cima, segunda porta à direita, é o quarto de hóspede. - Joalin assentiu e ajeitou a filha nos braços subindo as escadas.
- Espera... - Sabina a impediu. - Você pode subir escadas? - Indagou.
- Acho que sim. - Joalin respondeu sem muita certeza. - Não tenho pontos, acho que tenho que repousar e não fazer muito esforço, não sei, sou nova nisso. - Sabina assentiu.
- Ahm... Ok, então. - Joalin se virou e voltou a subir as escadas com a filha nos braços.
. . .
A chuva caía forte encharcando o corpo da loira que corria e tentava proteger sua filha dos pingos grossos que a castigava, sentiu seus braços vazios e olhou para baixo. Nada. Ela não levava nada, sua filha não estava com ela, olhou ao redor, gritou pelo nome. Nada. Sua garganta de fechou e ela se ajoelhou chorando.
Abriu os olhos e sentou ofegante, mas um pesadelo, respirou com dificuldade e levou a mão ao peito, sentindo aos poucos aquela dor tão real que sentira em seu sonho, aos poucos ir sumindo conforme ela se acostumava com a realidade.
Olhou para o lado. A dor retornou. De forma tão intensa que Joalin chorou. Se levantou e olhou ao redor à procura de Livia, saiu desesperada pelo corredor e parou em frente ao quarto de Sabina, a porta estava aberta, a morena dormia, Livia estava ao seu lado, Joalin soltou o ar que prendia se sentindo aliviada por sua filha estar bem e segura, entrou na ponta dos pés no quarto e observou mais a cena, Sabina colocou travesseiros ao lado de Lívia e estava deitada ao seu lado, com a mão apoiada em seu peito, pela posição dava para perceber que ela não depositava peso no local, Joalin sorriu involuntariamente. Tentou pegar, Livia sem acordar Sabina, mas a mesma abriu os olhos.
- Que horas são? - Pergunta instantaneamente. Joalin franziu a testa.
- Acho que passa um pouco das três da tarde. - Sabina se levantou em um pulo, pegando um frasco laranja em seu criado-mudo e seguindo para o banheiro, Joalin reparou que abaixo da atadura em seu pulso, havia pequenas marcas profundas, algumas ainda arroxeadas, mas não falou nada, apenas pegou Lívia e voltou para o quarto de hóspedes.
. . .
Sabina tomou o remédio e se olhou no espelho, uma lembrança invadindo sua mente. Devia ter seus seis ou sete anos, estava deitada na cama com seu pai. Fernando sempre foi um homem que apoiou suas filhas em tudo que elas faziam e sonhavam, era um pai nota mil.
A jovem Sabina estava deitada no peito de seu pai na enorme cama de casal enquanto revisavam o roteiro com seu pai. O filme 'Procura Obsessiva' seria filmado em breve e ela interpretaria uma criança chamada Delimar, mas identificada como Aaliyah. O filme foi baseado em fatos em reais e Sabina queria impressionar à todos e mostrar com seu primeiro trabalho que ela nasceu para atuar. Seu pai treinava suas falas e sorria orgulhoso com a feição da sua filha.
- Você tem um futuro brilhante pela frente, mi hija. - Diz Fernando repousando a mão na bochecha da filha. - Ainda vai me encher de orgulho. - A pequena Sabina sorriu, era muito apegada ao seu pai e mesmo tão nova, a coisa que ela mais queria era que ele sentisse orgulho dela.
Mas agora ela estava ali, meses sem falar com seu pai, tinha certeza que ele não se orgulhava do que ela se tornou, da dor que ela causou não só para ele, mas para toda a família, se viu chorando de frente ao espelho e esfregou os olhos, seu pulso coçou, ela retirou as ataduras, estavam quase cicatrizando, ela passou a ponta dos dedos ali, a lâmina na borda da pia, tão convidativa. Ela suspirou e a pegou a encarando, engoliu em seco, aquele pequeno objeto aliviaria sua dor por alguns instantes e depois o quê? Voltaria tudo novamente, tirar sua própria vida estava fora de cogitação naquele momento, engoliu em seco mais uma vez antes de abrir uma gaveta e jogar a lâmina lá dentro, saindo do banheiro.
·Algumas horas depois·
A chuva lá fora era intensa, Sabina estava em seu quarto assistindo TV quando as luzes se apagaram. Típico de um dia de chuva. Se levantou para pegar uma lanterna e ouviu um barulho de porta se fechando, ligou a lanterna rapidamente e a direcionou para a porta vendo Joalin, que levou uma das mãos ao rosto.
- Meu Deus, Joalin. - Esbravejou. - O que está fazendo andando pela casa no escuro?
- Desculpa, eu... - Um barulho alto fez Joalin dá um pulo no lugar e segurar forte a pequena Livia.
- Tem medo de trovões? - Joalin assentiu, fechando o olho quando mais um barulho se fez presente junto com uma claridade no céu. - Não pode andar pela casa com a Livia assim, e se você caísse da escada? - Sabina foi até ela e a levou até sua cama. - Coloque a Liv na cama e pegue esse travesseiro. - O medo nos deixa vulneráveis, nosso corpo não reage ao nosso próprio estímulo, ela estava paralisada e sujeita à comandos de outras pessoas. Fez como Sabina pediu, colocou Livia na cama e pegou o travesseiro, o agarrando com força e fechando os olhos ao ver o clarão e já saber o que viria. Sabina achou fofo e riu um pouco da situação. - Está tudo bem, Joalin. – Ela diz com a voz serena e acariciando as costas da loira. Joalin tentou acreditar, mas apenas se encolheu mais ainda ao ouvir novamente o som do trovão.
Sabina já não tinha ideia do que fazer, então apenas deu a volta na cama e se sentou, colocou a lanterna no criado-mudo de forma que iluminasse o ambiente que as duas estavam e se virou para a loira.
- Vamos tentar dormir... – Pediu e Joalin negou.
- Os pesadelos vêm com o barulho da chuva. - Disse e Sabina procurou na mente algo que pudesse fazer para espantar aquele medo da garota.
- Ok... E que tal olharmos a chuva? - A forma com que Joalin olhou Sabina foi cômica.
- Você está maluca? Janela atrai raios. - Diz Joalin e Sabina riu.
- Ok... Eu costumava olhar a chuva com meu pai. - Respondeu ficando com o semblante triste. - Mas a gente pode fazer outra coisa. O que você fazia em dia de chuvas?
Era como voltar a ser criança. Sabina pegou alguns lençóis e com muita dificuldade, improvisou uma cabana e com a ajuda de Joalin, penduraram a lanterna no centro. Livia ainda dormia tranquila, estava entre Sabina e Joalin, que estavam deitadas, uma de frente para outra, se encarando, admirando a beleza uma da outra. Sabina sentia vontade de acariciar Joalin, mas seria novamente, invasivo, a observou piscar devagar duas vezes antes de fechar os olhos completamente e a sua respiração ficar mais leve, havia adormecido, Sabina poderia passar o resto dos seus dias admirando aquela visão, e, foi admirando a beleza de Joalin, que ela adormeceu também.
. . .
Sabina acordou de madrugada, não chovia mais, estava um pouco frio, se virou e não viu Joalin, ou Liv na cama e se levantou. Olhou no quarto de hóspedes e ela estava lá. Desceu as escadas e seguiu até a cozinha, a luz deveria ter voltado horas atrás, afinal, as coisas na geladeira estavam geladas. Pegou um iogurte e se sentou à mesa. Suspirou.
Por que estava ajudando aquela garota? A que ponto sua vida havia chegado? Talvez tivesse se identificado por ela, talvez ela também precisasse de sua ajuda, eram muitos talvez.
Já Joalin não estava dormindo. Como poderia? Sempre que fechava os olhos, tinha pesadelos, ela fingiu dormir quando ouviu os passos de Sabina e quando viu que ela havia se afastado, voltou à abrir os olhos e encara Livia, assistindo-a dormir, como se alguém fosse tirá-la de lá.
Joalin suspirou. Qual o motivo de Sabina querer ajudá-la? Quais boatos sobre a queridinha de Hollywood eram verdadeiros e quais não eram? Como ela poderia sair dali? Negou. Sua filha precisava de um futuro, precisava de segurança, ela não podia negar a ajuda de alguém, mesmo que esse alguém tenha problema com drogas, bebidas e muitas outras coisas que a mídia insiste em falar.
Livia abriu os olhos e encarou Joalin, seu lábio se curvou e seus olhos se fecharam novamente, seu rostinho ficou vermelho, ela iria chorar. Joalin se sentou e pegou sua filha para prepará-la para mamar. Liv abocanhou o seio da mãe e sugou o leite com vigor, Joalin sorriu e acariciou as pequenas maçãs do rosto da menina, delicadamente, sorriu levemente ao ouvir o pequeno suspiro de satisfação de sua pequena. Foi então que Joalin teve a certeza de que teria que ficar ali, teria que aceitar a ajuda de Sabina no momento, mas para isso ela precisaria contar a verdade.
- Eu vou fazer de tudo para você ficar bem, Liv... - Joalin sussurra. - Eu prometo.