o início da guerra

1226 Palavras
O dia amanheceu pesado. Gabriel estava sentado na cama, apoiado nos travesseiros, tomando café devagar. Júlia estava ao lado dele, em silêncio, observando cada gesto, sentindo no ar que algo não estava certo. Ele não a olhava nos olhos. Foi ele quem quebrou o silêncio. — Aquela mulher de ontem… — a voz saiu baixa, dura. — Ela não apareceu por acaso. Júlia sentiu o estômago revirar. — Continua — ela disse, firme, mesmo com o coração acelerado. Ele respirou fundo. — Ela é a mulher que meu pai escolheu pra eu me casar. O café na mão dela tremeu levemente. — Como assim… te escolheu? — Júlia perguntou, tentando manter a voz estável. — Porque o pai dela salvou a vida do meu pai anos atrás. — Ele apertou os maxilares. — E, como dívida de honra, ficou decidido que quando ela tivesse idade… eu me casaria com ela. Júlia soltou uma risada curta, sem humor. — Então é aí que começa o problema, né? — Exatamente. — Ele virou o rosto pra ela, finalmente encarando. — Muito antes de você aparecer na minha vida… antes daquela festa… eu já tinha decidido que não ia me casar com ela. Nunca. Minha família já está em guerra comigo por causa disso. O silêncio voltou, mais pesado. — Então… — Júlia engoliu em seco. — Então a gente já começa errado? — Não. — Ele respondeu rápido demais. — A gente começa verdadeiro. Eu tô com você porque eu escolhi você. Ela balançou a cabeça, sentindo os olhos arderem. — Gabriel… escuta. Se você quisesse mentir pra mim, esconder, eu não estaria aqui. Eu não quero ser segredo. Eu não quero ser alguém que fica nas sombras da sua vida. Ele estendeu a mão, mas ela não segurou. — Se você for assumir alguém no seu mundo — ela continuou — essa mulher tem que ser outra. Não eu. Eu não vou viver escondida. Não vou ser “a que ninguém pode saber”. — Eu não vou te esconder — ele disse, a voz ficando mais dura. — Eu juro. Nunca. Se eu estiver com você, o mundo inteiro vai saber. Ela respirou fundo, lutando contra as lágrimas. — Talvez… talvez seja melhor assim mesmo — ela disse, com dor. — Pra mim. Pra você. Pra todos. Eu não sei viver na mentira, Gabriel. Eu já vivi demais engolindo humilhação, silêncio, medo. Ele fechou os punhos. — Você acha que eu vou te deixar por causa disso? — Eu acho — ela respondeu, sincera — que eu não quero ser o motivo de uma guerra que pode te destruir. — Essa guerra já existe — ele rebateu, com os olhos escurecendo. — E não é por sua causa. É porque eu me recuso a viver uma vida que não é minha. Ela finalmente deixou uma lágrima cair. — Eu só não quero que você pague um preço alto demais… por estar comigo. Ele se aproximou, segurou o rosto dela com cuidado, obrigando-a a olhar pra ele. — Júlia, olha pra mim. — A voz dele era firme, sem hesitação. — Eu já escolhi. Contra meu pai, contra a máfia, contra qualquer acordo antigo. Se alguém vai pagar algum preço… não vai ser você. Nunca mais. Ela encostou a testa na dele, tremendo. — Promessas assim… nesse mundo… custam caro. — Eu sei — ele respondeu, sem desviar o olhar. — E mesmo assim, eu não volto atrás. O clima entre eles ficou tenso, carregado de amor, medo e decisão. Não havia mais volta. O tempo passou silencioso, pesado, como se algo estivesse sendo preparado nas sombras. Naquele fim de tarde, Júlia saiu do trabalho cansada, bolsa no ombro, a mente longe. Quando atravessava a calçada, uma limousine preta parou suavemente ao seu lado. A porta se abriu com elegância calculada. Uma mulher desceu. Bem vestida. Impecável. Postura fria. Olhar afiado. — Você é a Júlia, não é? — perguntou, sem sorrir. Júlia engoliu em seco. — Sou sim. E a senhora? A mulher a analisou dos pés à cabeça antes de responder: — Eu sou a mãe do Gabriel. O coração de Júlia disparou. — Em que eu posso ajudar, senhora? A mulher abriu a bolsa, tirou um envelope grosso e estendeu. — Seja prática. Aqui tem um cheque de quinhentos mil dólares. — … — Separe-se do meu filho. O mundo pareceu parar. — Pegue esse dinheiro — a mulher continuou, impassível — e viva em paz. Você, sua mãe, sua irmã. Esse mundo não é para você, Júlia. Nunca foi. Júlia sentiu as mãos tremerem, mas manteve o queixo erguido. — A mulher certa para o meu filho já foi escolhida — a mãe de Gabriel disse, agora mais dura. — Mesmo que ele não goste dela. Isso não é sobre amor. É sobre alianças. Alianças antigas. Irrevogáveis. Ela deu um passo mais perto. — O meu filho corre perigo real se não se casar com essa mulher. Faça o que é certo. Vá embora. Deixe o Gabriel. Sem esperar resposta, ela virou as costas, entrou na limousine, e o carro partiu como se nada tivesse acontecido. Júlia ficou ali, parada, o envelope pesado nas mãos. — Júlia! A voz dele. Ela se virou. Gabriel vinha apressado, o rosto fechado. — O que aconteceu? — ele perguntou. — Eu vi o carro… eu ouvi parte da conversa. Ela respirou fundo. — Era sua mãe. — Minha mãe? — ele endureceu. — O que ela fez? Júlia estendeu o envelope. — Ela me deu isso. Disse pra eu ir embora. Pra pegar você fora da minha vida. Falou que esse casamento que você se recusa… é uma aliança muito antiga. E que você está correndo risco de vida se não casar com essa mulher. Gabriel fechou os punhos, os olhos escurecendo de raiva. — Eu sabia. — Gabriel… — a voz dela falhou — eu preciso deixar você. — Não. — Ele deu um passo à frente. — Não fala isso. — Eu amo você — ela disse, com lágrimas descendo. — Mas eu não posso ficar com alguém sabendo que a vida dele está em risco por minha causa. Ela colocou o envelope de volta nas mãos dele. — Eu não quero o dinheiro da sua família. Pode ficar com esse cheque. Eu não vou comprar a minha paz com o seu sangue. — Júlia, não — ele implorou. — Você é a minha mulher. A única. — Você já tem uma predestinada — ela respondeu, com dor. — Então casa com ela. — NÃO! — ele explodiu. — A minha mulher predestinada é você! É você que eu escolhi! Não ela! Ela chorava abertamente agora. — Eu não posso permitir que isso aconteça com você, Gabriel. Eu não posso viver sabendo que você pode morrer por minha causa. Eu preciso ir embora. Pra longe. Ele segurou o rosto dela com força, desesperado. — Não faz isso comigo… Ela encostou a testa na dele, tremendo. — Me perdoa… por favor… — sussurrou, quase sem voz. — Eu te amo demais pra te destruir. Ela se afastou devagar, cada passo arrancando um pedaço dela. Gabriel ficou parado, com o cheque amassado na mão, vendo a mulher que ele amava se afastar… sabendo que aquela decisão não era o fim. Era o começo da guerra.
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