Gabriel ficou ali parado por longos segundos, sentindo o chão sumir debaixo dos pés. O barulho da cidade continuava, as pessoas passavam, mas tudo parecia distante demais.
Quando Júlia começou a se afastar de verdade, ele reagiu.
— Júlia! — a voz saiu rouca, carregada de algo perigoso.
Ela parou, mas não virou.
— Se você der mais um passo longe de mim achando que isso acaba aqui… — ele continuou, controlando a raiva com esforço — você não me conhece como pensa.
Ela se virou, os olhos vermelhos.
— Gabriel, por favor… não torna isso mais difícil.
— Difícil? — ele riu sem humor. — Difícil é viver sem você. Difícil é aceitar que minha mãe ache que pode comprar a mulher que eu amo como se fosse um acordo qualquer.
— Não é só isso — Júlia disse, a voz falhando. — É a sua vida. Eles falaram em perigo real. Morte, Gabriel. Eu já vi homens ruins demais na minha vida. Eu não vou ser a sentença de ninguém.
Ele se aproximou devagar, com cuidado, como se estivesse lidando com algo frágil demais pra quebrar.
— Olha pra mim — ele pediu.
Ela olhou.
— Você acha mesmo que eu sobrevivi todos esses anos porque obedeci alianças? — ele falou baixo, intenso. — Eu sobrevivi porque enfrentei tudo. E agora você acha que eu vou abaixar a cabeça?
— Eu não quero que você enfrente isso por mim.
— Tarde demais — ele respondeu. — Porque eu já escolhi você. E quando eu escolho… eu vou até o fim.
Ela balançou a cabeça, em negação.
— Eles não vão parar, Gabriel. Eles não aceitam um “não”.
— Então eles vão aprender — a voz dele endureceu de vez. — Porque ninguém tira você de mim. Nem minha mãe. Nem meu pai. Nem aliança nenhuma.
Júlia respirava com dificuldade.
— Você tá falando de guerra…
— Eu tô falando de proteção — ele corrigiu. — A mesma que eu prometi pra você no dia em que te tirei daquele chão, machucada, sangrando, desacordada. Eu não te salvei pra te perder agora.
Ela chorou em silêncio.
— Eu só queria uma vida simples… — sussurrou. — Trabalhar, cuidar da minha mãe, da minha irmã… amar alguém sem medo.
Ele segurou as mãos dela com firmeza.
— Então você vai ter. Comigo. Mesmo que eu tenha que destruir tudo que colocaram no meu caminho pra isso.
— E se você morrer? — ela perguntou, quase num fio de voz.
Ele aproximou o rosto do dela.
— Então eu morro sendo quem eu sou. Não sendo um homem vendido a um acordo antigo.
Ela fechou os olhos, sentindo o peso da decisão esmagar o peito.
— Me dá um tempo… — pediu. — Só um tempo pra pensar. Pra proteger quem eu amo.
— Eu te dou tempo — ele respondeu. — Mas não te dou adeus.
Ela assentiu lentamente.
— Eu vou embora por enquanto.
— Eu vou te encontrar — ele disse, com certeza absoluta. — Onde você estiver.
Júlia se afastou dessa vez sem olhar pra trás.
E Gabriel ficou ali, sentindo algo muito mais perigoso do que dor nascer dentro dele.
Não era tristeza.
Era determinação.
Naquela noite, ele ligou apenas para uma pessoa.
— Chegou a hora — disse, frio. — Prepare tudo. Se querem guerra… vão ter.
Em algum lugar da cidade, alianças antigas começaram a ruir.
E a mulher predestinada à máfia ainda não sabia…
…mas ninguém mais decidiria o destino dela.
Os dias seguintes foram tensos. Júlia voltou para casa com a mãe e a irmã, tentando recuperar algum senso de normalidade. Mas a cada mensagem que Gabriel enviava, cada ligação ou aviso de movimento suspeito, ela lembrava do que estava em jogo. Ele não deixava nada passar. Cada detalhe da vida dela era protegido com obsessão, cada ameaça silenciosa era respondida antes mesmo que ela percebesse.
Gabriel organizou suas peças. Contatos da máfia, aliados antigos, qualquer pessoa que pudesse ser um problema para Júlia ou sua família — ele começou a neutralizar antes que chegasse perto dela. Sua frieza era assustadora, mas ninguém ousava questioná-lo. Ele não era mais apenas o homem ferido no hospital; era um predador que se movia pelas sombras, determinado a garantir que Júlia jamais fosse tocada.
Enquanto isso, Júlia tentava manter a vida normal, trabalhando, cuidando da mãe e da irmã, mas não conseguia desligar a mente do que acontecia fora do seu controle. Cada carro estranho na rua, cada mensagem sem remetente, fazia o coração disparar. E ainda assim, ela não queria fugir, porque sabia que Gabriel nunca permitiria que ela se afastasse.
Uma noite, ele apareceu de repente na porta de sua casa. Silencioso, como sempre. Seus olhos revelavam tensão, mas também uma promessa não dita.
— Está tudo seguro — ele disse, tomando a mão dela com força —. Mas precisa confiar em mim. Nada vai te tocar. Nada.
Ela olhou para ele, sentindo o peso da vida que ele carregava, mas também a intensidade da proteção que oferecia.
— Eu confio — respondeu, firme, embora o coração ainda batesse acelerado. — Sempre confiei.
Ele puxou-a para perto, envolvendo-a num abraço forte, protetor. Um abraço que dizia mais do que palavras poderiam expressar: que ela não estava sozinha, que o mundo podia ser c***l, mas enquanto ele estivesse vivo, ela estaria segura. E se alguém ousasse quebrar isso…
— Ninguém vai tocar em você — ele sussurrou ao ouvido dela. — Eu juro.
E naquele momento, Júlia percebeu que, mesmo cercada por perigo, medo e alianças antigas, ela tinha escolhido o único homem capaz de fazer com que ela se sentisse verdadeiramente protegida, mesmo em um mundo cheio de sombras e ameaças.
A guerra estava apenas começando, mas ela não teria que enfrentá-la sozinha. Gabriel estaria ao lado dela, até o fim.