Capítulo 4: Sorrisos e Mentiras

1474 Palavras
O som da chuva contra os vidros parecia sincronizado com a batida do coração de Alanna. Era sábado à noite, e ela estava, mais uma vez, atravessando o corredor do prédio em direção ao apartamento de Kael. Já se tornara rotina: os dois jantando juntos, dividindo piadas e confidências sob a luz suave da sala de estar. Amigos, como ela repetia para si mesma. Apenas amigos. Mas havia algo naquela noite. Algo diferente. Kael abriu a porta antes mesmo que ela batesse, como se a esperasse. — Você leu minha mente? — ela brincou, com um sorriso largo. — Eu sempre leio — ele respondeu, num tom que fez o estômago dela revirar, sem que ela entendesse bem o motivo. A sala estava aquecida, iluminada por abajures que deixavam o ambiente quase íntimo demais. Alanna notou a mesa posta, duas taças de vinho já servidas e uma lasanha assando no forno. — Que chique. Vai receber alguém especial hoje? — ela provocou, jogando a bolsa no sofá. — Já estou recebendo — ele disse, encarando-a por tempo demais. Ela riu, tentando afastar o incômodo delicioso que aquela frase provocou. Caminhou até a cozinha para disfarçar o rubor nas bochechas, servindo-se de vinho. Nos últimos dias, a convivência tinha se tornado mais densa, carregada de algo que não queria nomear. Kael continuava com seu jeito relaxado, engraçado, mas os olhares demoravam mais, os toques se prolongaram. E Alanna... bem, ela começava a se perguntar se sua convicção de que tudo não passava de amizade era mesmo verdadeira. A janta foi repleta de risadas e provocações. Kael a observava como se fosse um enigma delicioso. Alanna, entre uma garfada e outra, fazia piadas sobre a vida de solteira, e ele sorria, mas seus olhos diziam outra coisa. Algo mais cru, mais faminto. Quando a lasanha acabou e as taças foram esvaziadas, eles se jogaram no sofá, os corpos mais próximos do que deveriam estar. — Preciso confessar uma coisa — Kael disse, com um sorriso travesso nos lábios. — Manda — ela respondeu, virando-se para ele. — Eu não cozinho assim pra qualquer um. Alanna gargalhou. — Achei que fosse porque está entediado demais para pedir delivery. — Não. É porque você me faz querer impressionar. Ela o olhou, e por um instante, o ar pareceu desaparecer dos pulmões. Aquela frase. Aquela maldita frase. Ele falava como se não fosse nada, como se não tivesse acabado de bagunçar tudo dentro dela. — Você é bom com as palavras, hein? — ela desconversou, ajeitando-se no sofá, afastando-se levemente dele. Mas Kael se aproximou. Os joelhos se tocaram. O olhar, de novo, demorou tempo demais. Havia um silêncio carregado entre eles. Não era conforto. Era expectativa. — Alanna... — O quê? — Já pensou que talvez você subestime o quanto é desejada? Ela riu, nervosa. — Ah, Kael, lá vem você com essas... — Não é brincadeira. Ela o encarou. Por um segundo, quis acreditar. Mas aquilo doía. Porque se ela acreditasse e fosse mentira, seria demais. — Por que você está dizendo isso? Kael hesitou. O disfarce, a mentira, pesavam mais a cada dia. Mas ele não podia dizer a verdade. Ainda não. — Porque eu quero você — ele respondeu, com uma sinceridade que fez os olhos dela tremerem. Alanna respirou fundo, tentando rir de novo, tentando manter o jogo. — E você me quer... como amiga, é isso? Kael tocou o rosto dela, de leve. — Se eu disser que não, você vai fugir? Ela deveria fugir. Era o mais sensato a se fazer. Mas não se moveu. Ficou ali, parada, entre o medo e o desejo. — Você me confunde — ela sussurrou. — E você me enlouquece — ele retrucou, a voz baixa, carregada. O silêncio voltou. Mas era outro agora. Denso. Quente. Então ela se levantou, como se precisasse respirar. Caminhou até a janela e ficou ali, observando a chuva. Kael se levantou também, indo até ela. Parou perto, tão perto que ela podia sentir o calor do corpo dele. — Isso não devia estar acontecendo — ela disse, sem olhar para ele. — Mas está. Ela fechou os olhos. Ele era perigoso. Ela sabia disso. E mesmo assim... Kael tocou sua cintura, leve, apenas o suficiente para que ela soubesse que ele estava ali. Que queria mais. — A gente não precisa fingir, Alanna. Não aqui. Não agora. Ela se virou, devagar, e o olhou. O olhar dele a despia. A desmontava. — Eu tenho medo — ela confessou. — Eu também — ele disse, antes de se aproximar mais, o rosto a poucos centímetros do dela. — Mas o que eu sinto é mais forte que isso. Os lábios quase se tocaram. O desejo estava ali, pulsando entre eles. Mas Alanna deu um passo para trás. — Ainda não — ela disse, a voz trêmula. Kael assentiu, respeitando. Mas os olhos dele prometeram: não era o fim. Era apenas o começo. E, naquela noite, entre sorrisos e mentiras, os dois se perderam um pouco mais um no outro. Mesmo sem se tocarem. Mesmo sem se beijarem. A i********e, aquela que realmente importa, já os estava consumindo. Kael sabia que estava andando em uma linha perigosa. Cada palavra trocada com Alanna, cada sorriso disfarçado de amizade, era um lembrete constante de que ele estava mentindo. Mas como resistir? A forma como ela o olhava sem perceber, como seu riso preenchia qualquer silêncio constrangedor, como sua presença o deixava mais vivo do que em anos. Era um jogo perigoso... e ele estava perdendo. Naquela noite, Kael apareceu no apartamento dela com duas taças de vinho e um filme r**m. Alanna abriu a porta de moletom e cabelo preso de qualquer jeito, o rosto limpo e natural — e mesmo assim, ele achou que nunca a tinha visto tão bonita. — Sessão de tortura visual? — ela brincou, pegando uma das taças. — Eu chamo de cinema cult — ele respondeu com um sorriso torto. Sentaram-se no sofá, rindo dos diálogos ridículos do filme. As pernas dela roçaram nas dele algumas vezes, sem intenção... ou talvez com. Kael não sabia mais onde terminava a brincadeira e começava a tentação. Ela se inclinava para ele para comentar algo, e o perfume leve que usava invadia os sentidos dele. Ela mordia o lábio ao rir. Tinha noção do que fazia com ele? Ou era mesmo inocente assim? — Você é estranha — disse ela, rindo de algo que ele comentou. — Estranho como? — Não sei... misterioso. Parece que você esconde alguma coisa — ela ergueu a sobrancelha. Estavam próximos demais. — E se eu esconder? — Então você vai ter que me contar em algum momento. Eu sou boa em arrancar segredos — ela piscou, brincando. Kael precisou de toda sua força para não puxá-la para si. Deus, ela estava tão perto. Bastava um movimento e seus lábios estariam nos dela. Mas ele não podia. Ainda não. Um silêncio denso se instalou. As respirações ficaram mais lentas. Ele a encarou. Os olhos de Alanna pareciam duvidar de tudo e desejar ao mesmo tempo. Ela mordeu o canto do lábio e ele quase cedeu. Quase. Mas então, um barulho vindo do corredor os fez sobressaltar. Um estalo alto, como algo metálico caindo. Alanna pulou do sofá. — O que foi isso? Kael se levantou rápido. — Parece ter vindo do corredor — ele disse, indo até a porta. Alanna segurou seu braço. — Espera. Vai armado? — ela riu nervosa. — Tá achando que eu sou o quê? Um agente secreto? — ele brincou, tentando descontrair. Mas seu coração estava disparado. Não pelo barulho — mas porque aquela tensão entre eles foi interrompida no exato segundo em que ele poderia ter quebrado todas as regras. Talvez fosse um aviso. Talvez um lembrete de que a mentira ainda estava ali, entre eles. Do lado de fora, era só uma bicicleta infantil caída, provavelmente deixada por um dos vizinhos do andar de cima. Nada demais. Mas quando voltaram para o sofá, algo tinha mudado. O clima tinha esfriado um pouco. A tensão, interrompida, agora parecia mais perceptível. Kael voltou a sentar-se ao lado dela, mas não tão perto. Alanna ficou em silêncio por alguns segundos, depois riu sem graça. — Parece cena de filme. Um quase beijo, um barulho estranho e tudo acaba. — Você queria que acontecesse? — ele perguntou, sem pensar. Ela desviou os olhos. — Achei que era só brincadeira. — E se não for? Ela o encarou por um momento, séria. Mas então sorriu de novo. — Aí é você quem tá brincando agora. Kael riu também, mas por dentro, doía. Porque tudo ali era verdade — menos o que ela sabia sobre ele. E ele não tinha ideia de quanto tempo conseguiria manter a mentira antes que o desejo o fizesse explodir.
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