Capítulo 5: Ciúmes Silenciosos

1118 Palavras
— Adivinha quem conseguiu um encontro? — Alanna entrou na sala com aquele sorriso sapeca, os olhos brilhando como se tivesse acabado de ganhar um prêmio. Kael ergueu os olhos do notebook devagar. Estavam no pequeno lounge da agência, tomando café como faziam quase todas as tardes. Aquela rotina casual entre os dois tinha virado uma espécie de refúgio. E, até aquele momento, era só deles. — Um encontro? — ele repetiu, com a sobrancelha arqueada. — Você? Ela deu um passo à frente, jogando o corpo no sofá ao lado do dele com um sorriso orgulhoso. — Isso mesmo, senhor sarcasmo. Não sou feita de gelo. Kael disfarçou o incômodo, mas sentiu um baque no peito. Alanna nunca falava de encontros. Nunca parecia interessada em alguém que não fosse… bom, ele. Ou pelo menos era assim que ele queria acreditar. — E quem é o sortudo? — a voz dele saiu firme demais. — Um cara que conheci na cafeteria nova da esquina. Alto, simpático, riu das minhas piadas ruins. Parece um bom sinal, né? Kael soltou um sorriso que não chegou aos olhos. O estômago revirava, e ele odiava aquilo. O jeito como ela falava, animada, como se tivesse esquecido completamente dele. De todos os olhares trocados. De todas as vezes em que os dedos dela esbarraram nos dele como se fossem feitos pra se encaixar. — Legal — ele murmurou. — Espero que ele goste de piadas ruins. Ela riu. — Nossa, obrigada pela empolgação. Achei que você fosse ficar feliz por mim. Ele não respondeu de imediato. Seus olhos fixaram a caneca entre os dedos. O calor do café não era nada perto do calor que crescia no peito. — É só... — ele suspirou. — Você nunca comentou sobre estar procurando alguém. — E eu não estava. Mas... sei lá. Foi inesperado. Acho que estava na hora de tentar. "Tentar o quê?"Kael pensou. Tentar esquecer de mim? De nós, mesmo que nem exista um ‘nós’ ainda? — E você? — ela virou pra ele de repente. — Nunca falou se está com alguém ou se está procurando. — Não estou — ele respondeu rápido. Rápido demais. — E nem sei se conseguiria. Alanna o observou por um segundo a mais do que o necessário. Mas logo desviou o olhar, voltando a brincar com a alça da caneca. — Bom, então acho que temos histórias diferentes, Kael. Ele ficou em silêncio. Mas por dentro, tudo gritava. Raiva. Medo. Desejo. E um ciúmes tão irracional que ele quase se odiou por isso. Porque ela não é sua. Nunca foi. Mas você quer que seja. Mais tarde naquela noite... Kael estava no sofá do seu apartamento, o mesmo andar do dela, escutando passos no corredor. Ela ia sair. Vestido? Batom? Cabelo solto? O pensamento do cara a esperando do lado de fora o corroía por dentro. Sem pensar, ele se levantou e encostou no olho mágico. Viu a silhueta dela se afastando. Linda. Confiante. E indo se encontrar com alguém que não era ele. "Maldito seja esse cara." Ele fechou a porta com força e voltou pra sala. Não ia conseguir se concentrar. Não ia conseguir fingir que estava tudo bem. Porque não estava. O ciúmes corroía como ácido. Kael não conseguiu dormir. Nem por um segundo. Passava da meia-noite e ele estava no sofá, uma garrafa de uísque pela metade ao lado, o copo esquecido na mesa. Bebi, sim. Mas nem o álcool me tirava a sobriedade de saber que tinha outro homem sorrindo pra ela agora. Tocando nela talvez. Vendo aquele sorriso que ela me dava todo dia. Aquela risada que parecia música quando eu era o motivo. — Filho da p**a sortudo — ele murmurou para o vazio. Ele tentou se convencer de que não era nada. Um encontro bobo. Ela voltaria. Mas o problema era esse: ela havia ido. Escolheu ir. E isso doía mais do que ele estava preparado pra admitir. A imagem de Alanna rindo de algo que aquele cara dissesse o deixava possesso. Ele imaginava as mãos do outro tocando o braço dela durante uma piada. O olhar devorador disfarçado de charme. O beijo no fim da noite. O copo se estilhaçou contra a parede antes que ele percebesse que o tinha arremessado. — p***a! — rosnou, passando a mão pelos cabelos. Ela o deixava e******o sem nem perceber. Fazia piadas que o desmontavam. Dizia “Kael” com aquele sotaque doce, com uma confiança inconsciente que fazia os joelhos dele amolecerem. Mas agora… agora ela estava com outro. “No dia que isso tudo for pra mim, ela não vai conseguir nem andar depois,” ele pensou, o maxilar travado, o corpo rígido de tensão e desejo m*l resolvido. A campainha tocou. Kael franziu a testa. Eram quase uma da manhã. Se fosse ela… Correu até a porta, abriu com um ímpeto que nem tentou conter. E ali estava. Alanna. Com os olhos mais brilhantes do que antes, mas não de felicidade. De frustração. Cabelo bagunçado pelo vento, batom um pouco borrado. Nada demais. Mas suficiente pra ele querer matar alguém. — Preciso de um drink — ela disse, empurrando a porta antes que ele dissesse algo. — Como foi? — Um desastre — respondeu, largando a bolsa no sofá. — Ele era bonito, sim. Mas... não era você. Kael ficou paralisado. O coração dele deu um salto e depois travou no peito. Ela percebeu o silêncio e riu, virando-se pra ele com as mãos na cintura. — Não se empolga. Isso não é uma confissão de amor. É só a constatação de que talvez eu tenha criado uma imagem irreal na minha cabeça. — Que imagem? — ele perguntou, a voz mais rouca do que pretendia. — De alguém que me entende sem falar nada. Que me olha como se estivesse me despindo com os olhos... — ela deu um passo à frente. — Que me provoca e me protege ao mesmo tempo. Kael engoliu seco. Ela estava perto. Muito perto. — Você tá bêbada? — Só um pouco. Mas não o suficiente pra dizer algo que eu não sinta. — Ela ergueu o olhar pra ele. — Você me olha diferente, Kael. Eu só não sei o que fazer com isso. Ele podia beijá-la. Tocar. Dizer tudo. Mas não. Não agora. Em vez disso, ele apenas estendeu a mão, pegou a dela e disse: — Vem. Vou te fazer o melhor drink da sua vida. Ela sorriu. E, por um momento, mesmo com o ciúmes ainda queimando sob a pele, Kael soube que ainda havia espaço entre eles. Um espaço que podia ser preenchido por algo muito maior. Algo que talvez, só talvez… fosse amor.
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