Eu acordei com um ar sufocado, sentando bruscamente na cama. O suor frio colava a camiseta dele nas minhas costas. O quarto estava na mesma penumbra, mas algo havia mudado. A presença dele não vinha mais do sofá.
Ele estava sentado na beira da cama, de costas para mim, a postura rígida, a cabeça levemente inclinada como se escutasse algo além do meu coração aos tropeços. Eu não sabia há quanto tempo ele estava ali.
— Foi só um pesadelo — minha voz saiu rouca, quebrada, pedindo desculpas por ter interrompido seu repouso.
— Eu sei — ele disse, sem se virar. — Você falou meu nome.
Eu não lembrava. O frio no estômago se intensificou.
— Eu... posso pegar um copo d'água?
Ele não respondeu com palavras. Levantou-se, a silhueta imponente bloqueando a fraca luz da janela, e foi até uma pequena mesa onde havia uma garrafa e um copo. Encheu e voltou. Parou ao lado da cama, olhando para baixo, onde eu me encolhia.
— Bebe — ordenou, estendendo o copo.
Minhas mãos tremiam tanto que, quando estiquei para pegar, quase derrubei. Seus dedos fecharam sobre as minhas, firmes e quentes, estabilizando o copo contra minha palma. O toque foi breve, mas suficiente para fazer um calafrio percorrer minha espinha. Eu bebi, desesperada por algo que ancorasse a realidade. A água estava fria.
Quando terminei, ele pegou o copo de volta e colocou de lado. Em vez de voltar ao sofá, porém, permaneceu ali. O ar entre nós ficou carregado, pesado com tudo o que não havia acontecido horas antes.
— Você não vai conseguir dormir mais — ele afirmou, não perguntou.
Eu balbuciei um "não", incapaz de mentir.
Ele observou meu rosto, meus olhos arregalados, meus lábios que ainda retinham o gosto da água e do medo. Seu próprio rosto era uma máscara, mas nos olhos havia uma guerra silenciosa. A mesma que eu vira antes, quando ele se afastou.
— O medo cansa — murmurou, mais para si mesmo. — Cansa e deixa a carne fraca.
Eu não entendi bem, mas meu corpo entendeu antes de mim. Um tremor involuntário, que não era só de terror, me percorreu. Ele viu. Sempre via.
Lentamente, como se se movesse contra a própria vontade, Dante se ajoelhou na beira do colchão. O movimento foi surpreendentemente submisso, a postura de um servo, não de um senhor. Mas os olhos que fitavam os meus eram de domínio absoluto.
— Você tem medo de mim — repetiu a afirmação da noite anterior.
— Tenho — sussurrei, presa naquele olhar.
— E ainda assim — continuou, a voz baixa e áspera como seda rasgada — seu corpo responde. Quando eu me aproximo. Quando eu seguro seu queixo. Quando eu toco em você.
Era uma verdade que me envergonhava, que me fazia sentir traidora de mim mesma. Mas era inegável. No fundo do pavor, um fio de tensão elétrica, proibida, pulsava.
— Não posso controlar isso — defendi fracamente.
— Eu sei — ele disse, e pela primeira vez, algo que se parecia com uma sombra de compreensão cruzou seus traços duros. — É a parte mais honesta de você. A que não mente.
Ele ergueu a mão, mas desta vez não foi para meu rosto. Seus dedos pairaram sobre o punho da camiseta - a sua camiseta -, que cobria meu braço.
— Posso? — a pergunta ecoou no quarto, carregada de um significado terrível e imenso.
Era uma permissão que ele pedia. Um limite que ele, claramente, se forçava a respeitar. Aquele "posso?" era a confirmação de que tudo estava nas minhas mãos, mesmo quando nada estava. A contradição me deixou tonta.
— Para... para o quê? — minha voz m*l saía.
— Para tocar. Para provar para os seus nervos que nem todo toque é para machucar. Para provar para mim... — ele interrompeu-se, a mandíbula tensionada.
— Para provar o quê? — instiguei, com uma coragem súbita nascida do desespero.
— Que eu posso controlar o que sinto por você — a resposta foi um sopro áspero, uma admissão que parecia arrancada a força.
Aquilo me chocou mais do que qualquer ato de violência. Dante Valentini, admitindo uma luta interna. Admitindo sentir algo. O poder dessa revelação foi intoxicante e aterrorizante. Minha boca estava seca.
Hesitei. Cada instinto gritava para recuar. Mas havia algo mais profundo, algo corrompido e curioso, que sussurrava para ceder. E o medo... o medo era agora um aliado estranho, aguçando cada sentido, tornando a pele supersensível.
Fechei os olhos por um segundo, não em submissão, mas em busca de coragem. Quando os abri, dei um leve, quase imperceptível, aceno com a cabeça.
Foi como soltar uma fera da coleira.
Seus dedos, que antes pairaram, fecharam com posse deliberada, mas não brutal, em volta do meu pulso. A sensação foi imediata: calor, força, uma afirmação esmagadora. Ele puxou meu braço para longe do meu corpo, colocando ao meu lado, a palma da minha mão aberta sobre o lençol escuro.
— Olha para mim — ordenou, e era uma ordem, mas uma que pedia consentimento a cada sílaba.
Eu olhei.
Ele não quebrou o contato visual enquanto sua outra mão se movia. Começou pela ponta dos meus dedos, um toque surpreendentemente leve, quase exploratório, traçando as linhas da minha mão, os nós dos dedos, o pulso onde meu sangue batia acelerado sob a pele fina. Era um toque de estudo, de reconhecimento. Como se ele estivesse mapeando um território que agora reivindicava.
— Você treme — observou, a voz ainda baixa, mas agora com um tom rouco que não existia antes. — Mas não tenta fugir.
— Para onde eu fugiria? — a resposta saiu como um suspiro trêmulo.
Um som baixo, quase um rosnado, saiu de sua garganta. Pode ter sido um riso amargo.
Sua mão subiu pelo meu braço, sempre sobre o tecido da camiseta, mas a pressão era tal que eu podia sentir a textura de cada dedo, a palma larga, a força contida. Quando alcançou meu ombro, sua mão parou, pesada, ancorando no lugar. Seu outro braço veio se apoiar na cama, ao lado da minha cintura, ms enjaulando sem realmente me prender. Seu rosto estava agora a centímetros do meu, seu hálito quente batendo em meus lábios.