19. Elena

1068 Palavras
— Por que você fez isso? — eu perguntei, a voz tremendo. — Na frente de todo mundo. Dante continuou o movimento por mais um segundo, depois parou e ergueu o olhar. — Porque ninguém aprende com aviso — ele disse. — Aprende com consequência. Eu senti um frio no peito. — E eu? Eu aprendi o quê? Dante ficou em silêncio por tempo demais. Depois ele se levantou e ficou de pé diante de mim. Ele era grande. Não só fisicamente. Grande como presença, como perigo. — Você aprendeu que eu não hesito — ele respondeu. — E que, se você for usada como arma contra mim, eu corto a mão antes. Eu engoli em seco. — Isso era pra me deixar tranquila? Dante inclinou o rosto, o olhar descendo pros meus lábios por um segundo que me queimou. — Não — ele disse. — Era pra você entender. O silêncio caiu de novo, mas dessa vez era diferente. Não era só medo. Era uma tensão elétrica no ar, como se alguma coisa fosse acontecer mesmo sem ninguém querer. Dante deu um passo mais perto. Eu senti o corpo travar e ao mesmo tempo uma parte de mim prendeu a respiração como se esperasse. Ele parou tão perto que eu senti o calor dele. — Você tá com medo de mim — ele murmurou. — Tô. — Mas você não saiu correndo — ele disse, e a voz dele ficou mais baixa. — Por quê? Eu não consegui mentir. Não ali. Não daquele jeito. — Porque eu não tenho pra onde ir — eu sussurrei. Dante levou a mão até meu queixo, mas dessa vez o toque foi mais lento. Ainda firme. Ainda dono. Só que... controlado. — Você tem — ele disse. — Você tem um lugar. Aqui. Eu arrepiei inteira. — Isso não é lugar. É prisão — eu repeti, porque era a única coisa que me fazia sentir que eu ainda era eu. Dante aproximou o rosto, devagar. O nariz quase roçou no meu. Eu senti o mundo diminuir até virar só aquela distância mínima. Eu não conseguia respirar direito. — Se eu quisesse te prender de verdade — ele murmurou — você não estaria me encarando agora. Você estaria quebrada. Minha visão ficou quente, como se lágrimas quisessem nascer. — Não fala isso. — Eu tô te dizendo o que eu sou capaz — ele disse. — Pra você nunca esquecer. E então, como se o corpo dele tivesse vontade própria, o polegar dele passou devagar pela linha do meu queixo. Subiu. Encostou no canto da minha boca. Meu coração deu um salto violento. Eu senti o impulso i****a de fechar os olhos. Mas não fechei. Dante me olhou como se estivesse esperando que eu cedesse. Como se aquele fosse o primeiro degrau. Eu tremi. — Dante... — eu disse, e meu nome na boca dele parecia errado, então eu usei o dele como âncora. Ele parou. O olhar dele mudou de novo, como se lutasse com alguma coisa dentro. — Não — ele respondeu, de repente, se afastando um passo inteiro. Como se tivesse arrancado a própria mão de um incêndio. Eu fiquei ali, imóvel, o corpo inteiro ainda em alerta, como se eu tivesse sido puxada e solta no mesmo segundo. Dante virou de costas e foi até o sofá do quarto. — Dorme — ele disse, seco. — Na cama. Eu pisquei, confusa. — E você? — Eu não vou tocar em você, Elena — respondeu, sem olhar. — Porque, se eu tocar... eu não paro onde eu devia. A honestidade me acertou como um choque. Eu fiquei com a garganta apertada, sem saber se aquilo era ameaça ou... algum tipo torto de limite. — Você sempre fala assim? — eu perguntei, a voz quase inaudível. Dante deu uma risada curta, sem alegria. — Só quando eu tô tentando não fazer merda. Ele se jogou no sofá, mas não relaxou. Ficou com um braço sobre os olhos, como se a luz incomodasse, ou como se ele não quisesse me ver. Eu me deitei devagar na cama, sem saber o que fazer com as mãos, com as pernas, com o coração. O lençol tinha cheiro dele. Eu queria odiar isso. Queria sentir nojo. Queria sentir só medo. Mas meu corpo estava cansado demais pra sustentar qualquer coisa pura. No escuro, eu ouvi a voz dele, baixa, quase um murmúrio. — Elena. Eu engoli em seco. — O quê? Dante demorou um pouco. — Eu não queria ter te assustado. Era pra ser só mais um evento do Luca. — ele disse. — Mas é isso. Minha vida é em volta dessa merda toda. Meu peito apertou. — Por quê está me falando isso? — Porque saiu do controle — A resposta veio simples, como se fosse óbvia. Eu virei o rosto pro lado, encarando a sombra dele no sofá. — Você está se preocupando comigo? Dante ficou em silêncio. Por tempo demais. — Só as coisas que sairam de controle — ele repetiu, e a falta do resto era a resposta. Eu fechei os olhos, mas o sono não vinha. Eu ainda via o disparo. Ainda ouvia o som. Ainda sentia o toque dele no meu rosto, a distância mínima que quase virou outra coisa. E eu entendi, com uma clareza amarga, que aquela noite tinha mudado um eixo dentro de mim. Porque o perigo não era só o que Dante fazia com os outros. Era o que ele fazia comigo. Sem nem precisar tocar. O silêncio do quarto parecia respirar junto comigo. Na cama escura e enorme, eu me torcia sob o cheiro dele que impregnava os lençóis. Cada músculo meu estava tenso, cada som da casa - um estalo distante, o vento leve contra a janela - era ampliado pelo pavor. Eu ouvia a respiração dele, constante e controlada, vinda do sofá. Não era o sono de alguém que descansa. Era o silêncio vigilante de um predador repousando. E eu, a presa, trancada no mesmo covil. O pesadelo veio em fragmentos quentes e embaralhados. O som do disparo se fundiu com risadas na boate, e de repente eram as cobras, não as mulheres, que me encurralavam no camarim, seus corpos escorregadios se enrolando nas minhas pernas, subindo. A mão fria e pesada de um homem me puxando pelo braço, a voz de Dante ecoando: "Eu corto a mão antes."
Leitura gratuita para novos usuários
Digitalize para baixar o aplicativo
Facebookexpand_more
  • author-avatar
    Escritor
  • chap_listÍndice
  • likeADICIONAR