17. Elena

1018 Palavras
— Eu não quero aprender isso. — Não importa. Ele virou o corpo e começou a andar pelo corredor, como se tivesse encerrado a conversa. Como se o meu medo fosse uma coisa administrável, e não um desespero. Eu fiquei ali, sem saber se eu seguia ou se eu ficava. E então percebi que eu já estava seguindo. Porque não seguir era ficar sozinha numa mansão que não era minha, cercada por homens que não eram meus, num mundo que não era meu. E eu não confiava em ninguém ali, nem em mim. Dante entrou numa sala ampla, com paredes de vidro de um lado e um jardim escuro do outro. A iluminação era baixa. Havia um bar, uma mesa, um sofá grande. Ele pegou um copo e serviu algo pra si, sem me oferecer. Eu permaneci perto da porta, como se eu ainda tivesse algum tipo de saída. — Senta — ele disse, sem olhar. Eu não me movi. Dante virou o rosto. — Elena. Meu nome na boca dele era um puxão invisível. Eu caminhei até o sofá com passos pequenos e sentei na ponta, tensa como um fio. Ele ficou de pé, a poucos metros, tomando um gole com calma, como se o mundo não tivesse acabado de explodir. Eu não aguentei. — Lorenzo vai... — eu comecei. — Lorenzo vai limpar isso — Dante cortou, simples. Eu pisquei, tentando entender. — Como? Dante me olhou como se eu fosse uma criança perguntando como o céu fica azul. — Porque ele é o Don — respondeu. — E porque ele é o CEO. Ele tem duas mãos. Uma assina contratos. A outra enterra problemas. Eu senti um frio no estômago. — E Salvatore? — Salvatore é o que impede a família de virar um incêndio o tempo todo — Dante disse, com um tom que parecia quase... respeito. — Ele vê antes. Ele calcula consequências. Eu respirei fundo. — E pra completar, Luca gosta de brincar com fogo achando que ninguém vai se queimar. — A boca de Dante curvou um milímetro. Eu lembrei do sorriso dele no evento, morto depois. — Ele pareceu... assustado. Dante deu de ombros, como se aquilo fosse irrelevante. — Bom. Assim ele aprende. Eu olhei pro chão, tentando juntar pedaços de mim. — Você é sempre é assim? — perguntei, sem coragem de ser mais específica. Dante ficou em silêncio por um instante. — Eu sou o que eu preciso ser. A resposta não me tranquilizou. Só confirmou que eu estava nas mãos de alguém que não se via como homem comum. Uma funcionária entrou sem fazer barulho, trouxe uma bandeja com água e um balde pequeno de gelo, e saiu rápido. Como se medo fosse protocolo naquela casa. Dante pegou um pano, colocou gelo dentro e veio até mim. Meu corpo travou. Ele se agachou na minha frente, e por um segundo eu pensei que eu estava sonhando. Dante Valentini de joelhos diante de mim parecia errado de um jeito profundo. E pela segunda vez parecia pior! — Me dá o pé — ele disse. Eu recuei instintivamente. — Não. Ele ergueu o olhar, e eu vi impaciência. Mas também vi algo mais perigoso: posse. — Elena — ele falou de novo, e dessa vez foi mais uma ameaça do que um chamado. — Me dá o pé. Eu engoli em seco e estendi a perna devagar, como se aquilo fosse uma rendição. Dante tirou o salto com cuidado - cuidado de verdade - e eu senti a pele respirar quando a tira saiu. Ele segurou meu tornozelo e pressionou leve ao redor, avaliando. Eu estremeci. — Tá inchado — ele disse. — Eu sei. Eu pisquei, ofendida, mas não respondi. Ele colocou o gelo envolto no pano e segurou contra o meu tornozelo. O frio me fez prender o ar. — Vai doer um pouco — murmurou. — Eu não quero que você cuide de mim — eu disse, porque eu precisava dizer alguma coisa que fosse minha. Dante ergueu o olhar devagar, e o rosto dele estava perto o suficiente pra eu ver cada detalhe. — Você não quer muita coisa que vai acontecer — ele respondeu. — E mesmo assim vai acontecer. Eu senti a garganta apertar. — Por quê? A pergunta saiu fraca. Infantil. Desesperada. Dante não respondeu imediatamente. Ele ficou ali, segurando o gelo, observando meu tornozelo como se aquilo fosse um problema técnico. Como se cuidar de mim fosse tão natural quanto matar alguém. E então ele falou, baixo: — Porque hoje eu te levei pra fora e te mostrei quem manda. E agora eu te trouxe pra minha casa pra que ninguém ache que pode te arrancar de mim. Eu tremi. — Eu não sou um objeto. Dante levantou devagar, ainda perto, e se inclinou até o meu ouvido. — Aqui dentro, Elena... todo mundo é alguma coisa. Ele se afastou um pouco, me encarando. — A diferença é que você vai ser minha. Meu estômago se revirou, e eu senti lágrimas queimando, de raiva e medo. — Eu tô com medo. Dante segurou meu queixo com dois dedos, firme, me obrigando a olhar pra ele. Não foi gentil. Mas também não foi violento. Foi domínio. — Eu prefiro que você tenha medo do mundo — ele disse. — Do que ache que o mundo é seguro longe de mim. E naquele momento eu entendi, com uma clareza terrível: Ele não estava tentando me acalmar. Ele estava tentando me convencer. A me acostumar. A aceitar e a casa inteira, silenciosa, parecia concordar com ele. Dante soltou meu queixo e virou as costas. — Você vai dormir aqui hoje — ele disse. — Eu mando preparar um quarto. Eu senti o pânico crescer. — Eu não quero ficar sozinha. A frase escapou antes de eu pensar. E assim que saiu, eu me odiei por ela. Dante parou no meio do caminho. Virou o rosto devagar. Os olhos dele estavam escuros, fixos em mim. — Então não fica — ele disse. E eu não soube se aquilo era uma oferta. Ou uma sentença.
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