16. Elena

1200 Palavras
Dante não guardou a arma imediatamente. Ele ficou ali, olhando pro corpo no chão como se estivesse confirmando uma mensagem enviada. — Aprendam — ele disse, a voz firme no meio do pânico. — Vocês não testam Valentini. Lorenzo se aproximou, rápido, e a mão dele foi pro ombro de Dante num gesto curto e duro. — Já acabou — Lorenzo falou. — Guarda. Dante respirou fundo, e eu vi o peito dele subir e descer como se ele estivesse segurando um animal dentro de si. A arma desceu, mas a energia ainda estava nele, vibrando. Salvatore já estava dando ordens pros seguranças, o tom tão controlado que parecia que aquilo era rotina. — Limpa. Fecha as entradas. Ninguém sai sem a gente liberar. Luca estava pálido. Por um instante, o "cafajeste" e o sorriso sumiram, revelando algo mais real: choque, talvez. — Dante... — Luca começou, mas parou quando Dante virou o rosto. O olhar de Dante encontrou o meu e foi aí que o medo, que estava espalhado pelo salão, resolveu se concentrar inteiro dentro de mim. O ar bateu no meu rosto como se tentasse me acordar. Lá dentro, ainda devia existir música. Aqui fora, só existia o motor ligado, a porta aberta, e homens se movendo com pressa silenciosa. Eu m*l sentia meus próprios dedos. Eu não sabia se tremia de frio ou de pavor. Dante me colocou no carro como se eu fosse frágil demais pra ficar em pé sozinha, mas o toque dele não era delicado. Era firme. Como tudo nele. A porta fechou. O som abafou o mundo. Eu olhei pela janela, tentando encontrar alguma coisa normal do lado de fora: um casal andando, alguém rindo, um cachorro puxando a coleira. Qualquer coisa que me lembrasse que a vida continuava. Mas tudo parecia longe. Como se eu tivesse atravessado um vidro e agora só assistisse. Dante se sentou ao meu lado e fez um gesto curto pro motorista. O carro arrancou. Eu engoli em seco. — A polícia... — minha voz falhou. — Eles vão... Dante virou o rosto devagar, como se eu tivesse falado uma palavra irrelevante. — Não — ele disse. Só isso. A certeza dele era pior do que qualquer explicação. Eu respirei mais rápido. — Você não pode simplesmente... — parei, porque nem eu sabia o que eu queria dizer. "Atirar em alguém." "Matar alguém." "Fazer isso na frente de todo mundo." As frases pareciam grandes demais pra caber na minha boca. Dante ficou em silêncio por alguns segundos, encarando a cidade passando, até dizer: — Ele queria te usar pra me testar. Meu estômago revirou. — Te testar? Dante voltou o olhar pra mim, e eu senti o peso daquela atenção como um foco de luz. — Você não entende ainda, Elena — ele disse, baixo. — Quando alguém olha pra você daquele jeito, não é sobre você. É sobre mim. Sobre até onde eu vou. Eu senti uma náusea fria. — E você foi até o fim. Dante não negou. Só inclinou a cabeça como se aquela fosse uma conclusão óbvia. — Eu fui até onde precisava. Eu apertei as mãos no colo, tentando fazer meus dedos pararem de tremer. — Eu tenho medo de você. A frase saiu antes de eu conseguir segurar. E quando saiu, ficou ali, pendurada entre nós, como um fio prestes a arrebentar. Dante me observou por um tempo que pareceu longo demais. — Você devia ter — respondeu. E isso foi tão honesto que quase doeu mais. O carro atravessou ruas mais vazias, bairros mais silenciosos. A cidade mudou de cara. As luzes ficaram mais espaçadas, os prédios deram lugar a muros altos e portões que não existiam na vida de pessoas comuns. Eu vi um portão de ferro se abrindo sem que o carro parasse. Vi câmeras. Vi homens. E então vi a casa. Não, mansão. Aquilo não era uma casa. Era grande, escura, elegante, como uma presença. Linhas limpas, jardins impecáveis, luzes baixas que não iluminavam demais, só o suficiente pra mostrar que tudo ali era controlado. Até a noite parecia obedecer. O carro entrou e o portão fechou atrás. Meu peito apertou. — Essa casa… você divide com seus irmãos? Dante me olhou, como se avaliasse o quanto eu já tinha entendido do mundo dele. — Cada um de nós tem a sua própria mansão — ele disse. — E tem a principal é onde a família se reúne às vezes. — E essa... é a sua. Dante assentiu. — É. O carro parou na entrada. Um homem abriu a porta pra Dante. Outro abriu a minha. Eu hesitei, porque meus joelhos pareciam ter desaprendido a funcionar. Dante saiu primeiro e estendeu a mão. Eu não queria tocar nele. Mas eu também não queria cair. Eu aceitei. A mão dele me puxou pra fora com facilidade, e eu senti de novo aquele contraste absurdo: eu tinha medo, mas ao mesmo tempo a presença dele me mantinha em pé. Nós entramos. O interior era ainda mais silencioso do que a rua. O chão brilhava. A decoração era fria, sofisticada, sem excesso. Como se luxo ali fosse uma coisa séria, não uma tentativa de impressionar. O cheiro era limpo. Madeira, couro, alguma coisa amarga, o mesmo cheiro dele, só que espalhado pela casa inteira. Eu percebi o que isso significava tarde demais. Eu estava entrando no território dele. Uma funcionária apareceu, discreta como sombra, e falou com respeito contido. — Senhor — ela disse, olhando pra ele e só então me encarando com cuidado. — Jantar? Dante nem olhou. — Vamos descer pra jantar — ele respondeu. — Só traz água. E gelo. A mulher assentiu e sumiu. Eu fiquei parada no hall, sem saber onde colocar as mãos, sem saber se eu podia respirar alto. Dante tirou o paletó devagar e jogou sobre uma poltrona. O movimento expôs a arma na cintura por um segundo. Meu estômago virou. Eu me afastei um passo sem perceber. Dante viu. — Fica — ele disse. A ordem me prendeu no lugar. — Eu... eu preciso ir embora — eu falei, mas era mentira. Eu não tinha pra onde ir. Dante se aproximou, e eu senti meu corpo reagir, cada músculo ficando alerta. Ele parou a poucos centímetros. — Não hoje — ele disse. — Hoje você fica comigo. Eu engoli o choro que subia. — Eu vi você matar alguém. Dante inclinou o rosto, como se aquela frase fosse um detalhe inconveniente. — E você ainda tá viva — ele respondeu. Eu arregalei os olhos, ofendida e apavorada ao mesmo tempo. — Isso não é consolo. Ele me encarou por um longo segundo, e aí... a voz dele mudou. Não ficou suave. Dante não tinha "suave". Mas ficou mais baixa, mais controlada. — Você não era o alvo, Elena — ele disse. — Ele foi. Eu ri sem humor, um som pequeno e quebrado. — Eu tava ali. Dante levantou a mão devagar, como se fosse tocar meu rosto, e eu prendi a respiração. Mas ele parou no ar. Não tocou. — Você vai aprender — ele murmurou. — A diferença entre estar perto de mim e ser atingida. Minha garganta fechou.
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