15. Elena

1348 Palavras
Nós estávamos com Lorenzo e Salvatore agora. Lorenzo conversava com a calma de um rei, e Salvatore observava tudo como se enxergasse o que ninguém mais via. Um passo atrás, como quem não precisa estar no centro pra controlar o centro. Eu tentava não olhar demais. A conversa parecia civilizada, mas eu captava palavras soltas como veneno em vidro. "Carregamento." "Porto." "Fronteira." "Traição." Eu não sabia quem estava ouvindo. Eu não sabia se eu estava autorizada a ouvir. Então eu fazia o que eu vinha fazendo desde que entrei naquele inferno: ficava quieta e sobrevivia. Até que o outro irmão apareceu. Ele entrou no círculo como se o mundo fosse uma festa eterna, sorriso fácil, terno claro, cabelo arrumado com descuido calculado. Bonito de um jeito quase ofensivo. O tipo de homem que faria qualquer pessoa acreditar numa mentira só por falar com convicção. — Olha só — disse, abrindo os braços como se estivesse entrando num palco. — Meus irmãos favoritos reunidos. Lorenzo ergueu uma sobrancelha. — Somos seus únicos irmãos, Luca. — Detalhe — Luca respondeu, e o sorriso dele cresceu. Aí, ele olhou pra mim. Eu senti o impulso de baixar o olhar. Mas algo em Luca parecia, menos cortante do que os outros. Menos gelo, mais lâmina escondida em veludo. — Então você é a Elena — ele disse, como se já tivesse ouvido histórias demais. Eu assenti, tentando manter a postura. — Sim. Luca inclinou a cabeça, avaliando. Não como mercadoria. Como narrativa. — Você tem cara de problema — ele comentou, divertido. O braço de Dante se firmou ao redor do meu. — Não fala assim com ela. Luca ergueu as mãos. — Calma, Dante. Eu disse "problema" no melhor sentido. — Não existe melhor sentido — Dante respondeu, seco. Salvatore soltou um sopro pelo nariz, que quase pareceu um riso. — Vocês dois conseguem transformar até um cumprimento em guerra. Lorenzo não reagiu. Só continuou observando o salão, como se já estivesse esperando algo e então eu vi um movimento. Do outro lado, perto da mesa de bebidas, um grupo se aproximava com passos calculados. Os mesmos homens de antes, os sorrisos educados, os olhos predatórios. Mas agora havia mais gente com eles. Um ou dois rostos que eu não tinha visto. E a energia... a energia estava diferente. Eu senti antes de acontecer. Uma espécie de frio que subiu pela coluna. Luca também percebeu. O sorriso dele perdeu um pouco da brincadeira, mas ele manteve a máscara. — Ah — ele murmurou. — Eles voltaram. Lorenzo virou o rosto na direção do grupo, e a temperatura ao redor dele pareceu cair. — Deixa — Lorenzo disse, calmo demais. — Eu resolvo. Mas Dante já estava tenso. Eu sentia no corpo dele. Um animal prestes a morder. O homem bem penteado, o que parecia liderar, parou a uma distância respeitosa, respeitosa só na superfície. — Valentini — ele cumprimentou, com aquela falsa polidez que dava vontade de lavar as mãos depois. Lorenzo respondeu primeiro, porque ele era o Don mesmo que ninguém precisasse dizer em voz alta. — A noite está boa — Lorenzo disse. — Não estrague. O homem sorriu, e o sorriso dele tinha dentes demais. — Nunca é minha intenção estragar — ele respondeu. — Só... esclarecer. Ele olhou para Salvatore, como se Salvatore fosse o alvo principal. Como se tivesse escolhido um irmão específico pra cutucar. — Eu ouvi dizer que o senhor... se aposentou — continuou. — Deve ser estranho voltar a assistir outros mandarem. Salvatore não mudou a expressão. — Deve ser estranho falar demais e ainda sair vivo. O grupo riu baixo. Um riso curto, nervoso. Luca inclinou o corpo pra frente, como quem tenta aliviar. — Vamos manter o clima leve, certo? Evento beneficente, caridade, crianças... O homem ignorou Luca como se ele fosse decoração e então o olhar dele veio pra mim. Meu estômago se contraiu. — E essa aqui? — ele perguntou, alto o suficiente pra ser ouvido. — Um novo... investimento da família? Eu não consegui respirar direito. O rosto queimou de humilhação, e eu senti o instinto de recuar, mas Dante me segurou mais firme. — Chega — Dante falou, a voz baixa. O homem fingiu surpresa. — Eu só perguntei. Lorenzo deu um passo sutil à frente, ainda controlado. — Você veio pra provocar, não pra perguntar. — Não — o homem disse, e eu vi o brilho nos olhos dele. — Eu vim pra lembrar que nem todo mundo se ajoelha pra Valentini. O ar ao redor ficou pesado. Eu senti gente por perto diminuir o volume das conversas, como se o salão inteiro tivesse prendido a respiração sem perceber. Ainda era uma festa, mas uma festa que começava a entender que existia algo podre dentro dela. Salvatore se mexeu primeiro, e o movimento foi mínimo, só o suficiente pra se colocar entre Lorenzo e o homem. Como se, apesar de não ser mais Don, ainda fosse escudo. — Você está num evento público — Salvatore disse. — Não seja e******o. O homem inclinou a cabeça, e o sorriso dele virou uma coisa feia. — Público é ótimo. Testemunhas, né? Eu senti o coração acelerar e então ele fez a pior coisa possível. Ele estendeu a mão na minha direção. Não pra tocar. Pra apontar. Pra me marcar. — Ela parece fácil de quebrar — ele disse, como se eu não fosse uma pessoa. — E vocês parecem... nervosos quando mexem com ela. Foi como se o mundo tivesse parado. Por um segundo, eu juro que eu vi o exato instante em que Dante deixou de ser homem e virou instinto. O braço dele soltou o meu. A mão dele foi pro paletó. E tudo aconteceu tão rápido que minha mente demorou pra acompanhar. O som do metal sendo puxado pareceu alto demais no meio da música clássica. Eu vi a arma na mão dele como se fosse algo impossível dentro daquele lugar cheio de lustres e champanhe. Alguém gritou. Ou talvez eu tenha gritado por dentro. — Dante — Lorenzo disse, num tom baixo e perigoso. Não era pedido. Era ordem. Mas Dante já não estava ouvindo. Ele avançou. Eu vi o homem tentar recuar, e pela primeira vez o sorriso sumiu do rosto dele. O grupo ao redor dele se movimentou, mãos indo pra dentro de ternos, e eu entendi que aquilo não era só uma provocação. Era um jogo armado. Só que Dante não jogava. O homem levantou as mãos, tentando parecer pacífico. — Ei, calma. A gente tá conversando. Dante riu. Um riso sem humor. — Conversa é pra quem merece. E então ele apontou a arma com firmeza, sem hesitar, como se aquilo fosse parte natural do corpo dele. Eu senti minhas pernas fraquejarem. Eu ouvi outra voz, talvez Salvatore, talvez Luca, dizendo o nome dele de novo, tentando. Mas Dante estava decidido. E a decisão dele era um tipo de morte. — Você está diante da família mais poderosa desta máfia — ele disse, alto o suficiente pra atravessar o salão inteiro. — Você vai respeitar. Ou você vai cair. Todos caem. O homem tentou dizer alguma coisa. Um último insulto, um último ato de coragem estúpida. Ele não teve tempo. O disparo explodiu no ambiente como um trovão. O som foi tão absurdo, tão errado naquele lugar, que por um instante eu não entendi o que tinha acontecido. Meu corpo reagiu antes da mente. Eu estremeci, o ar sumiu, meus ouvidos zumbiram. E então as pessoas começaram a gritar de verdade. O homem caiu. Eu não vi sangue espalhado, eu não consigo lembrar de detalhes assim. Eu só vi o corpo indo ao chão como se fosse um boneco sem cordas. Eu só vi o brilho do piso refletindo algo escuro. Eu só senti o meu estômago virar do avesso. O salão virou caos. Gente correndo. Taças quebrando. Gritos, passos, cadeiras arrastando. A música parou de repente, como se alguém tivesse arrancado a alma do evento da tomada. Eu fiquei paralisada. O ar cheirava a pólvora. A medo. A realidade.
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