13. Elena

1256 Palavras
Às 15h em ponto, bateram na minha porta. Duas batidas secas. Eu abri, e um dos homens dele estava ali. Alto, terno escuro, expressão vazia do tipo que não se move nem por susto nem por piedade. Ele segurava uma caixa grande, branca, com uma fita preta tão perfeita que parecia desenhada. Sem dizer nada, ele estendeu. Eu peguei com as duas mãos, sentindo o peso e o simbolismo. — Ele pediu pra confirmar que você recebeu — o homem disse, como se estivesse recitando um protocolo. — Recebi. — Às 19h, o carro estará aqui. A porta fechou antes de eu pensar em qualquer outra palavra. Eu levei a caixa até a cama e fiquei olhando, respirando devagar, como se aquilo pudesse explodir. A fita desfez com um puxão suave. Dentro, o tecido estava dobrado com tanta precisão que dava vontade de chorar. Um vestido preto. Não era o tipo de preto que eu conhecia, era profundo, como uma noite sem estrelas. Longo, mas com uma f***a que me fez engolir em seco. Elegante demais pra boate. Elegante demais pra mim. A outra caixa menor tinha o salto. Alto. Finíssimo. Eu encarei como se fosse um desafio pessoal. Eu lembrei do salto quebrado, do palco, da dor atravessando o tornozelo e eu insistindo até o fim. Eu lembrei do jeito que ele me viu. E, por mais que eu quisesse fingir que Dante Valentini não tinha entrado debaixo da minha pele, eu sabia que ele estava lá. Como um toque que não acontecia, mas era sentido. Ivy apareceu no fim da tarde com uma necessaire e uma paciência que eu não merecia. — Senta — ela mandou. Eu sentei. Ela prendeu meu cabelo com cuidado, deixando alguns fios soltos de propósito, como se estivesse desenhando uma versão de mim que eu nunca soube ser. — Você tá linda — ela disse, e a palavra "linda" ali doeu. Porque beleza, na minha vida, sempre foi moeda. Sempre foi risco. — Eu tô... pronta? — perguntei, olhando meu reflexo no espelho. Pronta pra quê? Pra ser exibida? Pra ser marcada em público? Pra atravessar uma porta que não tinha volta? Ivy terminou a maquiagem com um último toque nos meus lábios. — Você tá impecável — corrigiu, e aquilo soou mais verdadeiro. Quando chegou a hora do salto, eu hesitei. O tornozelo latejou só de imaginar. Ivy se ajoelhou na minha frente e segurou meu pé com firmeza, como se aquilo fosse um ritual. — Não é sobre conforto — ela disse, baixa. — É sobre postura. Eu quase ri, mas não saiu. Ela prendeu a tira do salto e apertou o suficiente pra eu sentir segurança e prisão ao mesmo tempo. — Se doer demais, você muda o peso pro outro pé. Não manca. Não demonstra. Eu assenti, engolindo a vontade de dizer que eu não era feita pra esse teatro. Às 19h em ponto, eu ouvi o som de motores lá embaixo. O tipo de som que não pertencia a ruas comuns. O tipo de som que anunciava poder. Eu desci devagar, com o corpo tenso, segurando o corrimão como se fosse a última coisa estável do mundo. A boate estava diferente naquele horário. Silenciosa. Fria. Até as luzes pareciam mais sérias. No hall, dois homens esperavam. Um abriu a porta pra mim sem olhar no meu rosto. O outro apenas indicou o caminho com um gesto. Lá fora, o carro era preto, enorme, brilhando sob a luz dos postes como um animal pronto pra atacar. A porta de trás abriu. E ele estava lá. Dante Valentini ocupava o banco como se o carro fosse pequeno demais pra ele. Terno escuro, camisa branca aberta no primeiro botão, sem gravata. O olhar dele subiu de mim devagar, sem pressa, como se estivesse confirmando que a ordem tinha sido executada com perfeição. Eu senti o calor subir pelo pescoço. — Entra — ele disse. Eu entrei. A porta fechou com um som definitivo. O cheiro dele me atingiu antes de qualquer palavra. Madeira, couro, algo amargo e caro. Eu me sentei o mais longe que pude sem parecer que eu estava fugindo, e fiquei com as mãos no colo, dedos entrelaçados, tentando não tremer. Ele não disse nada de imediato. Só me olhou, e esse olhar fazia barulho por dentro, mesmo sem som. — Tá doendo? — perguntou, de repente, olhando pro meu tornozelo. Eu pisquei, surpresa. — Um pouco. Ele inclinou o corpo pra frente, e por um segundo eu pensei que ele ia tocar. Meu coração disparou como se tivesse sido empurrado de um penhasco. Mas ele só observou, como quem avalia uma peça rara com um defeito mínimo. — Você insiste demais — ele murmurou. — Eu não tenho escolha. O silêncio que veio depois foi tão pesado que parecia um terceiro passageiro. Dante encostou as costas no banco e cruzou as pernas com calma. — Hoje você vai ter escolhas pequenas — ele disse. — E vai aprender a gostar delas. Eu senti um frio na barriga. — Que tipo de reunião é? — perguntei, porque minha coragem sempre aparecia tarde demais. Ele sorriu sem humor. — Aquelas em que as pessoas fingem que são civilizadas. O carro começou a andar, e a cidade lá fora passou como um filme do qual eu não fazia parte. Eu observava as pessoas nas calçadas, as luzes, os bares, os casais rindo, e me senti como alguém olhando um aquário. Eles respiravam um ar diferente do meu. — Preciso falar com alguém? — perguntei. — Só se eu mandar. Meu estômago apertou. — E se alguém falar comigo? Dante virou o rosto na minha direção. O olhar dele era uma coisa viva, perigosa. — Você responde com educação. Uma frase. Duas, no máximo. E você nunca, nunca se afasta de mim. Eu engoli em seco. — Eu não vou ser... — minha voz falhou. Eu não conseguia dizer "vendida" de novo, mesmo sabendo que era isso. Dante inclinou a cabeça, como se estivesse escutando um som distante. — Hoje, Elena, você não é mercadoria — ele disse, e eu senti o jeito que ele falou meu nome, como se tivesse direito a ele. — Hoje você é minha. Meu corpo inteiro reagiu. Eu fiquei quieta, porque aquilo era uma porta que eu não queria abrir com perguntas. O carro parou diante de um prédio imenso, com colunas, luzes douradas e uma fila de carros caros. Seguranças por toda parte. Pessoas bem vestidas, risos altos, taças brilhando sob a iluminação. Um evento. Um teatro. Dante saiu primeiro. O motorista abriu a porta pra mim, e o ar frio da noite me acertou como um tapa. Eu coloquei o pé no chão com cuidado, sentindo o salto firmar. O tornozelo reclamou, mas eu não deixei aparecer. Dante estendeu a mão. Eu hesitei por meio segundo. Ele não mudou a expressão, mas o olhar dele ficou mais escuro. Eu aceitei. A mão dele era quente, firme, e meu corpo teve a reação absurda de relaxar ao contato, como se, com ele, eu estivesse mais segura. E isso me assustou mais do que qualquer coisa. Ele me puxou pra perto, e eu senti a lateral do corpo dele, a presença. — Ombros pra trás — murmurou, sem olhar pra mim. — Queixo alto. Eu obedeci. E, no instante em que atravessamos as portas de vidro, eu senti todos os olhares. Não era paranoia. Era real. Eu era um detalhe fora do lugar e, ao mesmo tempo, um detalhe perfeito demais.
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