Meus músculos tremiam, minhas penas ardiam. Os braços estavam moles, como se tivessem sido arrancados do corpo e recolocados às pressas. A cabeça pesada. Cheia demais.
Desliguei a música com os dedos trêmulos. A luz da sala dois pareceu mais fria do que antes. Ou talvez fosse só eu, vazia de novo depois de dançar como se o mundo estivesse vendo.
Peguei o robe no canto. Vesti devagar, como quem se embrulha depois de se despir demais.
Saí da sala sem olhar pros lados. Não queria encontrar ninguém. Não queria ver olhos de inveja, nem de pena, nem o vazio dos que já se perderam ali dentro.
Subi as escadas do setor reservado, onde ficavam os quartos das dançarinas. O meu era pequeno. Limpo. Com um cheiro neutro que não me pertencia.
Tranquei a porta. Encostei as costas e deslizei até o chão.
Fiquei ali por alguns segundos. Respirando. Tentando desacelerar. Tentando apagar ele da minha pele. Do meu peito.
Mas a verdade era que Dante ainda estava ali. No jeito que minha pele arrepiava sem motivo. No vazio do quarto que parecia ainda cheio da presença dele.
Me levantei devagar e fui até o banheiro.
Enchi a banheira pequena com água morna.
Joguei umas pétalas secas que Ivy tinha deixado ali dias atrás, como um agrado, ou talvez um consolo.
Tirei a roupa com cuidado. Lavei o corpo como se fosse possível apagar tudo que foi sentido naquela dança. A água ardia no tornozelo ainda dolorido. Mas deixei arder. Era melhor sentir dor do que não sentir nada.
Deitei na banheira e fechei os olhos.
A flor que eu trouxe da rua ainda estava na mesinha de cabeceira. A margarida branca, um pouco murcha, ainda viva.
Sorri sozinha.
Um sorriso cansado.
Pequeno.
Porque no meio de tudo isso eu ainda resistia. E talvez isso fosse, por enquanto, o suficiente.
(…)
Acordei com a luz da manhã atravessando a cortina fina do quarto. O corpo ainda doía do ensaio da noite anterior, e por um momento, cogitei que aquele torpor todo era um tipo de febre. Mas não era. Era só cansaço acumulado e memória demais.
Me espreguicei devagar, os lençóis grudando na pele morna, quando ouvi um som sutil no chão. Um papel sendo deslizado por baixo da porta. Franzi o cenho. Levantei devagar, caminhei descalça até a porta e peguei o envelope branco, fino, com meu nome escrito à mão.
Letra firme, precisa e abri com cuidado. Dentro, um bilhete curto, direto, com cheiro de decisão:
"Hoje, 19h. Você vai comigo para uma reunião de eventos. Use o que mandarão às 15h."
— D.
Fiquei parada, encarando o papel como se ele pudesse me explicar alguma coisa.
Reunião de eventos?
Por que eu?
Por que agora?
Não era só mais uma dança, não era um castigo. Era um convite. Ou melhor, uma ordem disfarçada de gentileza. Deixei o bilhete sobre a cômoda e olhei pela janela. Do lado de fora, o mundo seguia. Mas aqui dentro, tudo mudava o tempo todo.
Cada gesto dele me puxava mais fundo. Cada silêncio, cada bilhete, cada olhar invisível...
Peguei a flor murcha da noite anterior e coloquei num copo com água. Só por teimosia.
E depois me sentei na beira da cama, o coração batendo mais rápido do que devia. Eu tinha até às quinze. Até lá, ele mandaria o vestido. O salto. A próxima versão de mim mesma que ele queria ver.
Suspirei.
— Ok, Dante... — murmurei baixinho, sem saber se falava com ele ou comigo mesma. — Me mostra quem você quer que eu seja hoje.
Às vezes, o papel parece pesado demais pra ser só papel.
O convite ficou no chão por tempo demais, como se eu pudesse fingir que não existia. Como se ignorar fosse uma forma de escolher. Mas dentro da boate, nada era por acaso, e quase nada era meu.
Eu me abaixei devagar, o tornozelo ainda reclamando em pontadas pequenas, e peguei o bilhete. O cheiro era limpo, caro. Não era perfume, era a ausência de qualquer coisa comum. Um branco perfeito.
"Você vai comigo."
Era isso. Só isso. A frase parecia uma ordem e uma sentença, e, mesmo assim, eu senti o estômago revirar de um jeito que não era só medo.
Abaixo, a promessa de costume:
"Às 15h você recebe o vestido e o salto. Às 19h, pronta."
Dobrei o papel com cuidado, como se fosse delicado demais pra ser amarrotado, e enfiei debaixo do travesseiro. Não porque eu fosse obediente. Porque eu não sabia onde guardar coisas que me queimavam.
O relógio pareceu zombar de mim o resto da manhã.
Eu tentei ensaiar, mas o corpo não acompanhava a cabeça. Minha mente corria na frente, imaginando portas que eu não tinha coragem de abrir. Reunião de eventos. Mundo de fora. Gente de fora. E eu... eu era o quê nisso?
Uma peça.
Uma prova.
Um aviso.
Ivy me encontrou no corredor, como se tivesse ouvido meus pensamentos.
— Você recebeu o convite? — perguntou, sem rodeios, os olhos estreitos como lâmina.
Eu assenti.
Ivy respirou fundo, e por um segundo a máscara dela falhou, mostrando algo parecido com preocupação. Ou raiva.
— Então escuta bem — ela disse, aproximando, baixando a voz. — Lá fora, você sorri. Não responde coisa demais. Não bebe nada que não tenha vindo direto da sua mão. E, se alguém encostar em você...
Ela parou. O silêncio completou a frase por nós duas.
— Eu grito? — minha voz saiu pequena demais.
Ivy me olhou como se eu tivesse perguntado se eu devia respirar.
— Você olha pra ele. Só isso. Você olha pro chefe.
Meu corpo arrepiou inteiro.
Eu queria dizer que eu não sabia olhar pra ele sem me perder. Queria dizer que Dante Valentini tinha um jeito de existir no mesmo espaço que eu e mudar o ar. Mas fiquei quieta. Quietude era uma habilidade que eu vinha aprendendo bem demais.