11. Elena

952 Palavras
O céu já começava a se tingir de laranja quando a van me buscou na esquina. Entrei com a alma mais leve, o coração quase sereno. A margarida ainda estava na minha mão. O livro no colo e o gosto do sorvete ainda resistia nos lábios. Fechei os olhos por um instante e me permiti guardar aquele dia num cantinho especial da mente. Porque eu sabia: não duraria. Quando o carro passou pelos portões da boate, a fachada luxuosa me engoliu de novo. Desci e caminhei pelos corredores com passos calmos, ainda de vestido claro, tentando prolongar o efeito da rua dentro de mim. Mas foi ao virar o corredor dos camarins que a ilusão acabou. — Olha quem voltou do paraíso — disse uma voz doce e envenenada ao mesmo tempo. Era Ashley, uma das dançarinas mais antigas. Cabelo ruivo artificial, corpo escultural, sorriso treinado pra matar. Ela me olhou de cima a baixo com um desprezo que quase parecia piedade. — Aproveitou bem o dia de "princesa"? — continuou. — Tomou sorvetinho, andou de vestido, fingiu que não é uma das nossas? Suspirei. Deixei a flor no bolso e tentei passar por ela sem responder. Mas Ashley deu um passo pro lado, bloqueando o caminho. A outra mão apoiada na parede. O tom agora mais baixo. Mais ácido. — Só porque o chefe gosta de brincar com coisa nova não quer dizer que você vai durar. Aqui, meu bem, tudo que sobe. — Ela sorriu com os lábios vermelhos demais. — ... desce de cabeça. Engoli em seco. As palavras dela não me atingiam como antes. — Tem algum problema aqui? A voz veio como um tiro seco no silêncio, Ashley travou. Eu virei o rosto devagar e Dante estava ali. De terno escuro. Mãos nos bolsos. Olhar gelado. Solange recuou meio passo. — Claro que não, senhor. A gente só tava conversando... — Eu vi. — ele disse, sem desviar os olhos dela. — Mas sua "conversa" acabou. — Ela é nova, só tô dando uns toques... — Toques não solicitados são ruídos. E ruídos me irritam. Silêncio. As palavras dele tinham mais efeito que grito. — Pode ir — completou, sem precisar repetir. Ashley desviou o olhar, mordeu o lábio e saiu em silêncio, o salto estalando no corredor. Dante me olhou por um segundo. Depois pro livro na minha mão. — Livros? — murmurou, quase com um canto de sorriso. — Isso é o que você faz quando tá livre? — Quando eu me finjo de livre — corrigi, antes que ele usasse isso contra mim. Ele arqueou uma sobrancelha. — Continue fingindo. — deu um passo à frente. — Mas não finja que você é igual às outras. Porque não é. — Isso não me protege delas. — Não precisa. Eu faço isso. Meu coração deu um nó. Ele me olhou mais um instante, depois se virou, já caminhando de volta pelos corredores. Sem olhar pra trás. Mas antes de sumir, disse: — Tira esse vestido. Tem ensaio novo pra você. Hoje. Sala dois. E então... ele sumiu e eu fiquei ali, com o livro numa mão, sentindo o mundo escurecer de novo. Mas... Pelo menos agora eu sabia: se eu caísse, não cairia sozinha. Caminhei de volta para o quarto que eu ocupava. Tirei o vestido, coloquei um short leggings e um top de academia. Depois seguir direto para onde eu sabia que seria mais um teste de resistência. A sala dois já não parecia um campo de batalha. Não completamente. O chão ainda gelado sob os pés. O pole ainda brilhava sob a luz suave e o espelho, como sempre... me devolvia tudo que eu tentava esconder. Mas havia algo diferente naquela noite. Em mim. Talvez fosse a forma como caminhei até o centro. Sem tropeçar no medo. Ou talvez fosse o fato de que agora, mesmo sem vê-lo... eu sabia que ele estava lá. Me observando, avaliando e esperando. A música começou mais grave do que de costume. Violinos misturados com batidas lentas. Um som que parecia sair de dentro do meu peito. Fechei os olhos. Deixei o corpo reagir antes da mente e me movi. O pole deixou de ser uma ameaça. Se tornou apoio. Girei devagar. Braços estendidos. Costas arqueadas. Desci com controle. Toquei o chão com a ponta dos dedos antes de levantar novamente, como se renascesse dali. Meus cabelos giravam com meus movimentos. O corpo inteiro em sintonia com algo que eu não sabia nomear. A lingerie não pesava mais. Era armadura. Era fardo. Era promessa. Dancei como se ele estivesse encostado na porta. Como se cada passo meu fosse uma resposta às provocações dele. Como se, com cada volta, eu dissesse: Você pode me ter aqui... mas não pode me apagar. Na metade da música, senti o tornozelo latejar de novo. Mas continuei. A dor agora era parte do meu corpo. Como a dança e tambem como ele. Girei mais uma vez, e no reflexo do espelho, por um segundo, um único segundo, vi a sombra dele. No vidro, atrás da porta. Imóvel, silencioso, presente. Meus olhos encontraram o reflexo dele e o mundo parou por um instante. Não era desejo o que eu senti. Era algo pior. Entrega sem escolha. O último movimento me levou ao chão, com uma perna esticada e a outra dobrada, o corpo arqueado pra trás, braços estendidos. A música parou. O silêncio caiu como uma sentença. Fiquei ali, arfando, o peito subindo e descendo. Suada. Dolorida. Mas inteira. Esperei. Nada. Nem um toque no vidro dessa vez. Nem uma palavra. A sombra sumiu e eu sabia que ele tinha ido. E mesmo assim... era como se ele ainda estivesse dentro de mim.
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