10. Elena

982 Palavras
O silêncio era ensurdecedor. A música tinha acabado, minha respiração desacelerava, e eu só conseguia ouvir os ecos da minha própria alma. Sentada no chão da sala, com o robe cobrindo os ombros e as pernas pressionadas contra o peito, eu olhava pro espelho à minha frente como se ele fosse me responder. Mas ele só devolvia o reflexo de alguém que eu já não reconhecia. Eu tinha dançado. Só pra ele. Mesmo sem vê-lo, mesmo sem saber se estava ali. Mas no fundo... eu sabia. Meu corpo sabia. Meu coração sabia, eu sentia. Eu até ouvir o som do outro lado. Dois toques, baixos e secos, como se ele tivesse me chamando de tras do vidro. Olhei na hora. Não havia ninguém do outro lado. Nada. Só o espelho. Mas eu senti ele. Senti de um jeito que arrepiou até a alma. Era como se ele tivesse estado ali o tempo todo me desejando. Como se... tivesse ido embora. Talvez os oques foram como um sinal. Um ponto final mudo. Minhas mãos apertaram os braços. O peito apertado. A garganta cheia de um nó que não queria virar choro, mas também não sumia. Fiquei ali. Por longos minutos. Tentando respirar. Tentando desacelerar o que batia dentro de mim. Como se fosse possível. Porque naquela sala, depois de mais uma dança, nesse silêncio que nasceu após. Eu tinha perdido um pedaço de mim e o pior é que eu nem sabia qual. (…) Era o meu primeiro dia "de folga". Com aspas grandes. Porque mesmo com os portões abertos, com o crachá provisório e com a escolta à distância... Eu ainda era prisioneira. Mas por algumas horas, escolhi fingir que não. Vesti um vestido leve, azul-claro, que Ivy me deu "pra parecer menos uma funcionária e mais uma civil" já que eu ainda não tinha roupas. Eu ainda teria que comprar bastante coisas, já que tudo que eu tinha ficou na casa do meu pai, e comigo só veio a unica coisa que estava em minhas mãos: meu celular. Prendi o cabelo num r**o de cavalo simples. Usei um tênis branco que me lembrou do mundo real, aquele do qual eu fui arrancada sem aviso. A van me deixou no centro da cidade. E lá fui eu, caminhando sozinha, como se fosse uma garota qualquer. Como se não devesse nada a ninguém. Como se meu corpo não tivesse sido vendido em troca de uma dívida suja. Entrei na primeira sorveteria que vi. Escolhi um sorvete de chocolate com flocos. Duas bolas. Casquinha fina. Sentei numa mesa perto da janela e fiquei ali, saboreando devagar. Fechando os olhos de vez em quando. Sentindo o doce na boca como se fosse o único gosto de liberdade que eu ainda podia ter. Por alguns minutos, eu consegui esquecer. Esquecer dos olhares, dos saltos quebrados. Do pole. Do vidro espelhado. Ali, naquele instante, eu tenteu ser só eu, eu era só Elena. A garota que ainda amava chocolate. Que ainda se lambuzava com o canto da boca. Que ainda dava risada sozinha quando o sorvete escorria demais. Claro que eu sabia. A qualquer momento, o telefone podia tocar. Ou um carro preto podia estacionar na frente da sorveteria, me lembrando de onde eu vinha. Mas, por agora... por agora, era paz. Me encostei na cadeira, deixei o sol bater no rosto e brinquei com a colherzinha de plástico como se tivesse cinco anos. O mundo ao redor seguia. Pessoas riam. Crianças gritavam. Um casal se beijava na fila do caixa. E eu... Eu fingia que tudo aquilo podia ser meu também. Pelo menos... até a conta chegar. E junto com ela, o lembrete: "Os doces da sua liberdade ainda estão sendo pagos com o sal do seu corpo." Mas mesmo assim... eu saboreei cada colherada. Depois do sorvete, continuei andando pelas ruas como quem não tem destino e isso era bom. Muito bom na verdade. Nada de ensaios. Nada de música provocante. Nada de olhos me despindo por trás do espelho. Só gente normal. Com seus problemas pequenos, suas vidas normais, suas alegrias simples. Passei por uma banca de flores. Toquei uma margarida com cuidado. O vendedor sorriu e disse: — Leva essa. É a flor da inocência. Sorri de volta. Se ele soubesse. Continuei andando com a margarida na mão, como se aquilo me protegesse do mundo. Entrei numa livraria pequena, só pra respirar o cheiro de papel novo. Deslizei os dedos pelas capas, li trechos aleatórios, sentei num pufe no canto da loja e fiquei ali lendo por uns minutos. Sem pressa. Sem propósito. Saí com um livro fininho na mão. Comprei com o dinheiro que Ivy havia me dado para comprar algo, já que eu não iria receber nada do meu “trabalho”. O troco guardei no bolso, como se fosse um tesouro. Do outro lado da praça, vi uma criança correndo com balões coloridos. O pai dela atrás, fingindo que não ia alcançar e eu sorri. Um sorriso pequeno. Sincero. Do tipo que eu nem lembrava mais como era. Sentei num banco de madeira, cruzei as pernas e fechei os olhos por alguns segundos. O vento bagunçava meu cabelo. A margarida no colo. O livro no braço. A lembrança do sorvete ainda na ponta da língua. Era tão simples. Tão ridículo. Tão precioso. Porque ali, naquele banco de praça, com o sol me aquecendo e o mundo ignorando minha existência, eu consegui me lembrar de uma coisa importante: Eu ainda era gente. Não um número. Não um corpo. Não uma dívida. Não um brinquedo. Só gente. Com gosto por chocolate, paixão por livros e medo de nunca mais viver isso de novo. Olhei pro céu e deixei o tempo passar. Sem culpa. Sem pressa. Só eu. E, mesmo que fosse mentira. Mesmo que aquele mundo não me pertencesse mais... Por uma tarde, eu fingi que sim. E foi o suficiente.
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