9. Dante

894 Palavras
Do lado de fora, a cidade vivia no caos. Mas ali dentro, tudo era silêncio. O quarto escuro tinha sido projetado por mim. Espelhado por fora, invisível por dentro. Um santuário silencioso no topo do império que construí. Já vi dezenas de mulheres dançarem naquela sala. Algumas com técnica impecável. Outras com corpos esculpidos à base de bisturi e ambição. Mas nenhuma me prendeu como Elena. A garota que caiu diante de todos e continuou dançando como se sua dignidade dependesse daquilo. Talvez dependesse mesmo. A garota que me pediu pra não ser escolhida e foi justamente por isso que eu escolhi. Ela ainda não entende. Mas eu já decidi. Hoje, ela entrou no quarto espelhado com passos hesitantes. O robe preto cobria o corpo, mas o nervosismo escapava nos gestos pequenos: as mãos apertando o tecido, a respiração curta, o olhar fugindo do próprio reflexo. Ela trocou de música sozinha. Um instrumental grave, sensual, lento. Fiz questão de escolher aquela playlist. Quando o som preencheu a sala, Elena tirou o robe devagar, como se aquilo fosse mais difícil do que a dança em si. E ali estava ela. Vestida com a lingerie que mandei. A renda preta contrastando com a pele clara. O cabelo solto. Os pés descalços. Não sorriu. Não provocou. Ela apenas respirou fundo e dançou. Os primeiros movimentos foram tímidos. O pole parecia distante, quase uma ameaça. Mas aos poucos, ela cedeu. Subiu com a leveza de quem não queria impressionar ninguém. só sobreviver. Girou com os olhos fechados. Mordeu o lábio sem perceber. Apoiou o peso nas pernas feridas e ainda assim dançou como se não houvesse dor. Ela não sabia aonde eu estava ali atrás. Mas dançava como se eu fosse a única pessoa no mundo. E era. Pra ela eu seria a unica pessoa a existir em sua vida. Inclinei-me na poltrona de couro. O copo de uísque intocado ao meu lado. Não consegui tirar os olhos dela. Porque ali, naquele instante, Elena não era mais só uma dançarina. Era um lembrete c***l de tudo o que eu perdi no caminho. Ela tinha algo que ninguém mais naquele lugar possuía: Verdade. Ela não sabia fingir. Não sabia jogar, e por isso, estava me ganhando sem nem tentar. No final da música, quando ela desceu do pole e se ajoelhou de costas, arfando, sem forças. Eu senti, não com desejo, mas com controle que eu tinha acabado de marcar o que era meu. Mesmo que ela ainda não soubesse. Mesmo que ela nunca aceitasse. Ela dançou pra mim. E agora ela me pertencia. Engraçado que minha cunhada tinha tanta certeza que Elena mexeria comigo, antes mesmo que eu pudesse ao menos, acreditar que eu merecia um romance como Bianca e o Salvatore. Eu sei que isso ainda não é amor. É cedo demais, é tudo novo demais. Mas sim, talvez eu esteja caindo no precipício, assim como Bianca disse. Mas em nenhum momento eu cogitei em paraquedas, pois Elena… ah, Elena vale essa queda. Ela ainda estava ajoelhada no chão, ofegante, a música se dissolvendo em silêncio. Minhas mãos estavam cerradas nos braços da poltrona, o copo de uísque intacto ao lado. O gelo já havia derretido. Pensei em ir até ela. Pensei em abrir a porta, quebrar as regras, dizer que aquela dança não foi só dela e depois f***r a mesma com gosto, pra ela ver o quanto ela mexe comigo. Mas então o telefone vibrou. A tela iluminou o canto escuro da sala e nome do meu irmão apareceu: Lorenzo. Suspirei. Longo. Irritado. Atendi. — Fala. A voz do meu irmão veio seca, direta. Como o Don que nunca perde tempo. — Precisamos conversar. Agora. — Tô ocupado. — Sei com o quê — ele rebateu com frieza. — Mas isso aqui é mais importante do que a sua distração noturna. — Não é distração. — Não importa o nome. Tem um carregamento parado na fronteira e um dos nossos contatos no porto desapareceu. Sabe o que isso significa? Me levantei, engolindo o desejo junto com a raiva. Passei a mão pelos cabelos, tentando voltar pro mundo que nunca me deixava por completo. — Significa que alguém tá mexendo onde não deve. — Exato. E se a gente não agir agora, vão achar que estamos ficando fracos. Se você é um Valentini, você nunca é fraco. Olhei pela última vez para o vidro espelhado. Elena agora estava sentada, abraçando as pernas, o robe de volta sobre os ombros, como se nunca tivesse dançado. Como se o que aconteceu ali dentro não tivesse virado o mundo de alguém ao avesso. Apertei o maxilar. — Me dá quinze minutos. — Dante — Lorenzo respondeu, com o tom mais sério do que nunca. — Isso é guerra. Você tem cinco. A ligação caiu. Guardei o celular no bolso e me aproximei do vidro. Olhei ela mais uma vez. A respiração mais calma. Os olhos perdidos no nada. A cabeça dela não fazia ideia de onde o corpo já tinha chegado. Bati duas vezes no vidro. Baixo. Rápido. Quase imperceptível. Ela se virou de repente. Olhou direto pro espelho. Como se sentisse. Eu não podia sentir isso. Não podia deixar essa garota entrar em mim assim. Mas deixei. Saí da sala em silêncio. Porque o inferno me chamava de volta, mas em breve voltaria para Elena. Minha doce Elena.
Leitura gratuita para novos usuários
Digitalize para baixar o aplicativo
Facebookexpand_more
  • author-avatar
    Escritor
  • chap_listÍndice
  • likeADICIONAR