O treino terminou com minha perna latejando e a mente ainda mais cansada que o corpo. Ivy não disse mais nada. Me deixou sozinha na sala dois, com o gelo preso ao tornozelo por uma faixa elástica e a música ainda tocando baixinho ao fundo.
Fechei os olhos por um momento. Respirei fundo. Tentei me lembrar de quem eu era antes de tudo isso. Antes da queda, do quarto escuro, do olhar invisível que parecia me despir por dentro.
Mas o silêncio não durou. A porta se abriu com um clique seco.
Um homem entrou. Alto, imponente, terno impecável. Não era Dante, mas carregava a mesma aura perigosa. Um dos dele, eu soube de imediato.
Talvez segurança. Talvez algo mais.
Ele não falou muito. Apenas caminhou até mim, estendeu uma caixa preta com laço de fita branca e disse:
— Ordem do chefe.
Deixou a caixa na minha frente e saiu. Assim, sem esperar resposta. Sem olhar pra trás.
Fiquei paralisada por alguns segundos, encarando o embrulho como se ele pudesse explodir. Com cuidado, desfiz o laço e abrir a tampa.
Meus olhos arregalaram no mesmo instante.
Era uma lingerie da Dior. Preta. Fina. Delicada. Transparente o suficiente pra ser uma provocação, mas elegante o bastante pra parecer uma armadilha.
A renda se estendia como fumaça sobre o forro de cetim. Uma peça feita pra não ser esquecida.
No fundo da caixa, um bilhete curto.
"Quero você vestindo isso na próxima dança."
— D.
Minha garganta secou.
Toquei o tecido com a ponta dos dedos. Tão macio que parecia derreter ao contato. Tão belo e tão invasivo. Era isso, então?
Eu era uma vitrine agora. Um presente desembrulhado aos poucos, sob as ordens de um homem que nem sequer falava comigo diretamente.
Por um instante, senti vontade de chorar. Não de medo. Mas de raiva. Raiva por estar sendo moldada, vestida, direcionada.
Raiva por uma parte de mim - a mais fraca, a mais tola - ter sentido algo ao tocar aquela peça.
Não era só roupa. Era marca. Um selo de posse.
Fechei a caixa devagar. Apoiei o queixo nos joelhos e fiquei ali sentada, tentando lembrar que ainda era eu. Elena. Mesmo que tudo ao redor quisesse me transformar em outra coisa.
Mas no fundo eu já sabia que, daquele momento em diante, eu não seria mais invisível. Não com Dante farejando meu medo a cada segundo.
(…)
Eu nunca fui vaidosa Nunca tive roupas caras, perfumes de grife, lingeries feitas à mão. Minha vida sempre foi simples. Sobrevivência, não luxo. Por isso, quando abri a caixa pela segunda vez naquela noite, ainda não parecia real.
A lingerie era linda demais. Frágil demais. Indecente demais... pra alguém como eu. Mas era o que ele queria e naquele lugar, o que ele queria acontecia.
Minha vida era pra ser perfeita antes disso. Mas eu se quer tive essa oportunidade, já que meu pai sempre me deu o básico, e o restante do seu dinheiro ia pra qualquer coisa que suprisse seu vazio.
Talvez um dia eu perdoe ele.
Fiquei sozinha no camarim pequeno, com a porta trancada e o silêncio me envolvendo como uma nuvem espessa. Me despi devagar. Primeiro a blusa. Depois o short. Cada peça deixada no chão com um peso que eu não sabia explicar.
Coloquei a calcinha de renda preta com as mãos trêmulas. O tecido escorregou pela pele como se já me conhecesse.
O sutiã veio depois. Estranhamente delicado, com alças finas que pareciam feitas mais pra serem vistas do que usadas. Não era vulgar. Era... perigoso.
Me olhei no espelho e por um segundo, não me reconheci. O reflexo mostrava uma mulher que parecia segura. Sensual. Envolvente. Mas por dentro... eu ainda era só Elena.
A garota que queria ser invisível. A que caiu no palco e terminou a dança com o tornozelo gritando. A que só queria um canto de paz.
Suspirei. Ajeitei os cabelos soltos, sem muito esforço. Não adiantava tentar parecer perfeita. Aquilo não era um teste de beleza. Era uma provocação calculada.
Ele queria me ver assim: frágil e entregue, mas ainda de pé.
O batom vermelho ficou pra depois. Só um toque nos lábios. Quase como um lembrete de que eu ainda tinha voz. Quando terminei, vesti o robe preto por cima, fino e leve, como uma cortina entre mim e o mundo.
Saí do camarim e caminhei pelo corredor estreito que levava até o quarto escuro. A cada passo, meu corpo doía. Não pela torção, mas pelo medo. Pela incerteza.
Na porta da sala, Ivy me esperava. Ela olhou meu rosto, depois o robe, e por fim, a caixa vazia em minhas mãos.
— Você tá pronta?
— Não — respondi, sincera.
— Vai assim mesmo — ela disse. — É assim que ele gosta.
Abriu a porta, eu entrei. A música já tocava e eu sabia que, do outro lado do vidro espelhado, ele estava ali.
Esperando.
Assistindo.
Querendo.
Entrei na sala com o coração apertado e a alma encolhida. Era hora de dançar só pra ele.