7. Elena

985 Palavras
Desci o elevador com o estômago embrulhado. As palavras dele ainda ecoavam na minha cabeça. "Você vai dançar só pra mim agora." Eu não queria isso. Não pedi isso. Mas o olhar dele... Aquilo não foi um convite. Foi um destino selado. Quando a porta do camarim se abriu, todas as conversas cessaram. De novo. Os olhares me cortaram de todos os lados. Curiosos, maldosos, venenosos. Elas estavam esperando que eu voltasse chorando. Expulsa. Humilhada. Mas eu voltei de pé. Calada. Com o tornozelo doendo e a cabeça cheia. Caminhei até meu canto sem olhar pra nenhuma delas. Comecei a tirar os acessórios, dobrar o figurino devagar, fingindo que não sentia o peso do silêncio no ar. Até que Ivy entrou. Cabelo preso num coque bagunçado, a prancheta de sempre na mão, andar firme. Foi direto até mim, largando a prancheta na bancada. — Elena — chamou. Eu ergui os olhos, tensa. Ela não sorriu. Mas também não me olhou com pena. Apenas disse: — Amanhã, seu ensaio será às oito da manhã. Sala dois. — Sala dois? — perguntou uma das meninas, com a testa franzida. — Mas a sala dois é fechada. Ivy continuou como se não tivesse sido interrompida: — A sala dois é exclusiva. O treino será supervisionado. A partir de agora, Elena tem outra função. Vai dançar pro chefe. — As palavras caíram no camarim como uma bomba. — Como é?! — exclamou a mesma menina, com os olhos arregalados. — Você tá brincando — murmurou outra, com raiva evidente. — Isso só pode ser piada... — Não é piada. — Ivy se virou pra elas, com calma afiada. — Eu avisei a vocês que trapacear não leva ninguém a lugar nenhum. — Mas ela m*l chegou aqui! — protestou a loira que sempre me provocava. — Tem gente dançando há anos nessa casa! — E nenhuma de vocês teve coragem de continuar com o osso virado — rebateu Ivy, sem se alterar. — O chefe escolheu. E quando ele escolhe, não tem lista de espera. Um silêncio pesado se formou. Olhares me cortavam como facas. Se antes me ignoravam... agora me odiavam. Eu baixei os olhos. Não porque estava com vergonha. Mas porque... eu não sabia o que dizer. Não tinha como explicar que eu também não pedi por isso. Que estar na mira dele me dava medo. Que, por dentro, eu só queria desaparecer. Mas já era tarde. Eu tinha virado o assunto da noite e agora não havia mais volta. (…) O relógio marcava 7h45 quando parei na frente da porta da sala dois. O corredor estava vazio, silencioso demais pro caos que normalmente tomava a boate à noite. Ali, era outro mundo. Mais limpo. Mais gelado. Mais... solene. Respirei fundo antes de bater. A maçaneta estava fria na minha mão suada. A sala era grande, toda espelhada, com piso de madeira clara e barras fixadas na parede. Ao centro, um único pole de aço, mais largo que o do palco principal. Iluminação suave. Nenhuma música. Só o som abafado dos meus passos entrando. Ivy já estava lá. Postura reta, roupa de treino, o coque preso no alto da cabeça. Sem maquiagem, ela parecia mais nova. E, pela primeira vez, mais humana. — Chegou cedo — ela disse, olhando o relógio. — Não consegui dormir. Ela apenas assentiu, caminhando até mim. — E o pé? — Inchado, mas aguentando. — Se doer demais, você para. Aqui, ninguém quer ver você quebrar. Pelo menos, não fisicamente. Tentei sorrir, mas não saiu. Ela indicou o canto onde deixei minha garrafa d'água e os tênis. Vesti a roupa de treino simples: top preto, short justo. O espelho refletia meu corpo mais magro, os olhos mais fundos, o rosto cansado. Mas eu estava ali e isso já dizia muito. — Vamos começar com aquecimento leve — ela disse, ligando a caixa de som no canto. Uma melodia instrumental começou a tocar. Baixa. Elegante. Quase triste. Movi os ombros. Alonguei os braços. As primeiras dores surgiram no tornozelo, como se me lembrassem que a queda ainda não tinha passado. Mas continuei. Ivy assistia tudo em silêncio. Corrigia minha postura com toques leves, orientava o peso do corpo, ajustava meus movimentos. — A dança que você vai fazer não é pra excitar um público de bêbados. — ela disse, num tom neutro. — É pra um homem que já viu o pior do mundo. Se você dançar fingindo prazer, ele vai ver. Se mentir, ele vai saber. — E se eu dançar com medo? — perguntei, sem conseguir segurar. Ela me encarou. — Ele vai gostar mais ainda, Dante é meio sádico. Engoli em seco. Ela desligou a música e apontou pro pole. — Sobe. Quero ver como seu corpo reage ao movimento. Subi. Girando devagar. As mãos tremiam, mas eu me obriguei a focar. Respiração firme. Olhar preso no próprio reflexo. A barra gelada na pele. O coração disparado. Não era um ensaio. Era um julgamento. Aos poucos, fui me soltando. Me lembrando do porquê dançar me salvava. Mesmo ali dentro. Mesmo entre monstros. Na última volta, quando soltei uma das pernas, o tornozelo cedeu um pouco. Caí de joelhos, arfando. Ivy correu até mim. — Tá doendo? Assenti. Ela não disse nada. Me ajudou a levantar e me fez sentar no canto. Enquanto colocava gelo de novo, falou: — Ele vai aparecer. Talvez hoje. Talvez amanhã. — O Dante? — perguntei, baixo. — É. E quando ele aparecer, você vai dançar pra ele como dançou ontem. — E se eu falhar? — Então você não merece estar aqui. Me encolhi um pouco, mas ela completou: — Mas quer saber? Você vai merecer. Porque você é a única que não pediu pra estar aqui. E isso... pra ele... diz muito. Ficamos em silêncio. E, no fundo da sala, percebi a porta de vidro, antes fechada, agora estava entreaberta. E havia alguém assistindo.
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