O elevador subia devagar. Ou talvez fosse o meu coração que batia rápido demais, fazendo tudo parecer lento. O espelho ao fundo refletia meu rosto ainda suado, o cabelo um pouco bagunçado, o batom quase apagado.
Meus olhos estavam vermelhos. Mas eu estava de pé e isso já era alguma coisa.
A porta se abriu com um som seco.
Do lado de fora, um segurança me esperava. Alto, calado, terno preto, olhar de pedra. Fez sinal com a cabeça e começou a andar. Corredores limpos, paredes escuras, cheiro de madeira cara misturado com perfume masculino.
Parou em frente a uma porta dupla. Bateu duas vezes e abriu.
— Pode entrar.
Meu coração travou, as pernas também. Mas entrei.
O escritório era amplo, silencioso. As luzes baixas. A janela mostrava a cidade lá fora, as luzes dos prédios como estrelas invertidas.
E ali, atrás da mesa de madeira escura...
Ele.
Dante Valentini.
Não precisei perguntar. O ambiente se moldava à presença dele.
Alto. Postura impecável. Camisa preta com as mangas dobradas até o antebraço, relógio de metal, olhar escuro demais pra ser lido. Ele não sorriu. Não se levantou. Apenas me olhou como se já soubesse tudo o que precisava.
— Sente-se — disse, com a voz grave, baixa e firme.
Obedeci sem discutir. A cadeira era macia, mas meu corpo estava rígido demais pra sentir qualquer conforto.
Ele me observou por longos segundos num silencio absoluto. Só o barulho do gelo se movendo no copo que ele segurava.
— O salto foi sabotado — afirmou. Não perguntou.
— Eu... não sei. — menti.
— Não minta pra mim, Elena.
O som do meu nome saindo da boca dele me deu calafrios. Ele sabia meu nome. Ele sabia tudo.
Abaixei os olhos, nervosa. Ele continuou:
— Você caiu feio. Torceu o tornozelo. Podia ter se machucado seriamente.
— Mas eu continuei — falei, como se precisasse justificar.
Pela primeira vez, os olhos dele mudaram. Um leve... quase imperceptível brilho de aprovação. Mas sumiu rápido.
— Por quê?
— Porque... — respirei fundo — ...ninguém me tira do palco. Nem com dor. Nem com humilhação.
O silêncio voltou e então ele se levantou com passos lentos e precisos. Deu a volta na mesa e ficou diante de mim.
A presença dele era sufocante. Cheiro de poder, perigo e alguma coisa que eu não sabia nomear. Ele abaixou um pouco o olhar, encarando minha perna.
— Mostra.
— O quê? — perguntei, confusa.
— O pé.
Minha respiração falhou. Mas obedeci.
Tirei o tênis devagar. O tornozelo estava feio, roxo, inchado. Dante ajoelhou. Sim. O chefão ajoelhou diante de mim. Segurou meu pé com firmeza, mas sem força. Os dedos frios contra minha pele quente.
— Vai precisar de gelo, repouso e anti-inflamatório.
— Você... é médico agora? — soltei, sem pensar.
Ele ergueu os olhos. Por um segundo, achei que fosse me matar com aquele olhar. Mas um canto da boca dele subiu. Ele estava sorrindo.
— Sou tudo o que eu precisar ser.
Ficamos em silêncio.
O coração martelava no meu peito e ele ainda segurava meu pé. Como se não tivesse pressa. Como se já tivesse me tomado, mesmo sem tocar de verdade.
— A partir de hoje, você não dança mais no palco principal.
Minha garganta secou.
— Eu... fui rebaixada?
Ele ficou de pé, voltou a encarar de cima.
— Não. Você foi promovida.
— Promovida?
Ele bebeu o resto do uísque. Virando de costas.
— Você dança só pra mim agora.
— Não — falei, quase num sussurro. — Por favor, não faz isso comigo.
Dante parou no mesmo instante. Virou de volta devagar, como se minhas palavras tivessem prendido o ar do cômodo.
— Como disse?
— Eu não posso dançar só pra você. Isso vai... vai me colocar na mira. Mais do que já estou. — engoli em seco, sentindo meu peito apertar. — Tem meninas aqui há anos. Com mais técnica. Com mais... tudo. Eu ainda sou nova. Fraca. Eu nem devia estar aqui.
Minha voz falhava. Mas eu continuei.
— Eu só quero trabalhar em paz. Aprender. Ficar invisível. Me esconder. — respirei fundo. — Não quero privilégios. Não quero palco exclusivo. Por favor... não me escolhe.
Ele ficou me olhando como se eu tivesse dito a coisa mais absurda do mundo.
— Você tá pedindo pra voltar pro meio da multidão? Mesmo com essas meninas tentando te engolir viva?
— Eu só dancei.
— Não. Você caiu. E se levantou. Machucada. E ainda assim terminou a apresentação como se fosse a única no palco. Sabe quantas ali fariam isso?
— Qualquer uma — respondi, sincera. — Porque todas estão desesperadas por atenção.
Ele deu um passo à frente. A presença dele me engoliu.
— Mas você não.
— Exatamente. Eu não quero atenção.
— E é por isso que eu quero você.
— O quê? — Meus olhos se arregalaram.
— Eu poderia ter escolhido qualquer uma. Tem meninas mais experientes, mais ousadas, mais moldadas pro palco. Mas elas são previsíveis. Ambiciosas. Fáceis de ler. — ele se inclinou um pouco. — Você não. Você é... diferente.
— Diferente não é melhor — rebati, com a voz tremendo. — É só mais perigoso.
— Essa decisão não é delas. — O olhar dele ficou mais sério.
— Mas elas vão me odiar.
— E o que elas sentem não muda o que eu quero.
Meu coração parou. Por um segundo, o silêncio pesou entre nós. Eu queria gritar. Queria correr. Mas também queria entender o motivo por trás daquela obsessão.
— Por que você está fazendo isso?
Ele me encarou por longos segundos, os olhos escuros como um abismo.
— Porque você me intriga.
— Eu não quero intrigar ninguém.
— Pena. Porque você já conseguiu.
Senti um nó na garganta. As mãos suadas. O corpo leve, como se eu não pertencesse mais a lugar nenhum.
— Você parece ser c***l — sussurrei, com sinceridade.
— Não. — ele se aproximou, devagar, até ficar tão perto que eu pude sentir o perfume amadeirado da pele dele. — c***l seria deixar você ali no meio das cobras.
— E me puxar pra cova do lobo é melhor?
Ele sorriu.
De canto.
Lento.
Letal.
— Pelo menos aqui, você vai saber exatamente quem tá te devorando.