Antes de sequer abrir os olhos, Amon teve a sensação de que algo estava curiosamente errado. Diferente do que deveria estar. Ele não se lembrava de muita coisa, mas tinha quase certeza de que provavelmente não enxergaria nada quando seus olhos fossem abertos devido ao preço de um feitiço, mas assim que uma pequena fresta foi aberta entre as suas pálpebras, uma luz quente e forte atingiu diretamente as suas pupilas sensíveis, provando exatamente o contrário.
O bruxo fechou os olhos com força novamente e absorveu as memórias dos últimos acontecimentos que se lembrava. Os dias maravilhosos com Benjamin. O ataque. A luta. O som engasgado que Benjamin fazia enquanto engasgava com o próprio sangue nos seus braços...
Amon fechou os punhos com força, sentindo uma onda de tristeza e fúria cruzar o seu corpo. Isso fez com que o bruxo abrisse os olhos novamente, os mantendo abertos para que se acostumassem à luz do cômodo. O temperatura do lugar era estranhamente quente e boa, além de que não parecia ser artificialmente colocada alí.
A cabeça do bruxo estava meio zonza, flutuando repetidas vezes nos últimos acontecimentos. Ao olhar ao redor, Amon percebeu que estava deitado numa gigantesca cama de dossel, cujo o colchão era tão macio que o bruxo estava afundado dentro dele. A cama era coberta com algumas camadas de um tecido brilhoso e dourado que Amon definitivamente nunca tinha visto antes, mas então ele percebeu que a textura macia e delicada lembrava muito uma das mercadorias mais caras dos comerciantes que viajavam para outros reinos. Aquilo alí seria seda?
Amon também percebeu que estava completamente nu, exatamente como veio ao mundo. Ele encarou a parte inferior do seu corpo e percebeu que sua pele pálida não tinha um arranhão sequer, e estava tão alva e sem cicatrizes que o bruxo precisou piscar algumas vezes para ver se realmente era real. Ele estava com as pernas levemente abertas e com a cabeça apoiada em alguns travesseiros empilhados.
Amon olhou ao redor e percebeu que o quarto em que estava era o lugar mais luxuoso que já havia visto em toda a sua vida, e os aposentos do castelo real sequer se comparam àquilo. Havia janelas de vidro tão transparentes na parede da esquerda que Amon só percebeu que era vidro e não simples buracos na parede porque a luz refletia em alguns pontos através dele. Do lado de fora, o sol brilhava fortemente, e pela distância até o chão do quintal, Amon pressupôs que estava no segundo andar daquele lugar.
O bruxo engatinhou para fora da cama, surpreso por não estar sentindo absolutamente nenhuma dor ou a falta de algum dos seus sentidos. Tudo parecia completamente normal, exceto pelo fato de que ele não fazia ideia de onde estava (na verdade fazia sim, já que se lembrava muito bem do trato que havia feito com o pai. O problema era que não conhecia absolutamente nada naquela dimensão).
E por falar em seu pai, assim que o rapaz deu um passo incerto para longe da cama, a porta do quarto foi aberta e Mamon entrou no cômodo.
— Vejo que você finalmente acordou. — Disse o demônio, esbanjando alegria, com um sorriso de orelha à orelha, mostrando duas fileiras de dentes brancos sobrenaturalmente perfeitos. Amon ficou surpreso por ver o pai vestindo qualquer coisa que não fosse aquela calça de cintura baixa bem apertada de sempre. Agora, Mamon vestia uma calça dourada e um colete que também era dourado, mas que possuía vários arabescos brancos por toda a sua extensão. A falta de uma camisa por debaixo do colete deixava os seus braços musculosos ainda mais visíveis, e além disso, o demônio estava descalço.
— S-sim. — Confirmou o bruxo, sem fazer qualquer menção de esconder a sua nudez. Ele se esforçou para não puxar aquele tecido que cobria a cama e envolvê-lo no seu corpo, mas percebeu que o pai não dava a mínima importância pra isso, e sequer desviava o olhar e encarava o seu corpo. O olhar de Mamon não desgrudava dos olhos do outro.
— Ótimo. Tem tantas coisas que quero mostrar para você. — Disse Manon, tão animado que isso deixou o bruxo com um pouco de dúvida. Ele sabia que o pai tinha motivos para o querer ali, e só estava esperando o momento certo para dizer qual era.
Amon observou o pai caminhar tranquilamente até o enorme guarda-roupas que havia no canto do quarto, antes de retirar lá de dentro um par de roupas. O bruxo percebeu que havia roupas de todas as cores, mas o pai pegou para ele uma calça dourada e uma camisa branca de mangas compridas.
Dourado e branco. Aquelas cores deveriam significar alguma coisa para o reino demoníaco do seu pai.
— Vista isso. — Mamon entregou as roupas para Amon, que as pegou e lhe lançou um olhar agradecido. O bruxo vestiu primeiro as calças, para esconder a sua nudez rapidamente. Elas serviram perfeitamente nele, e eram de um tecido fino e confortável, mas sem que fossem exageradamente apertadas.
Depois que Amon vestiu a camisa branca de mangas compridas, seu pai deu um passo para a frente e o ajudou com as mangas, dobrando-as cuidadosamente até os cotovelos do bruxo. Depois, o demônio pegou um par de sapatos bonitos e marron claros que estavam perto da cama, mas antes que Amon pudesse pegá-los para calçar, o pai o fez sentar na cama e se ajoelhou no chão para colocar os sapatos nos seus pés.
Amon observou a cena com um pouco de surpresa. Demônios pareciam seres incrivelmente arrogantes e soberbos, mas ao ver o pai ajoelhar com tanta facilidade para ele e ajuda-lo à calçar os sapatos, Amon ficou sem entender praticamente nada.
— Você sabe que nós demônios já vivemos por dezenas de milênios, e vamos continuar vivendo por vários outros, não é? — Começou Mamon, levantando do chão e já começando a caminhar em direção a porta, sinalizando para que o filho o seguisse.
Amon experimentou dar alguns passos com os sapatos, que era tão confortáveis que era como se seus pés estivessem nas nuvens. Com aquela roupas chiques, Amon se sentia estranhamente diferente.
— As coisas aqui na nossa dimensão dificilmente mudam. A estrutura política é brutal, mas continua exatamente a mesma desde o início, tornando as coisas mais fáceis para nós. — Continuou o demônio, enquanto os dois andavam pelos corredores, que eram absurdamente chiques, com entalhes em ouro por todos os lados e uma decoração clássica, porém que continuasse discreta.
Amon queria perguntar sobre Benjamin. queria perguntar se o pai havia o curado. Um calafrio cruzou o corpo do bruxo ao imaginar Benjamin sendo deixado sozinho naquela neve no meio do nada. Mas mesmo se corroendo com a vontade de exigir respostas sobre seu parceiro, Amon resolveu esperar o momento certo para perguntar e não interromper o pai.
— ... Nos últimos tempos, as coisas tem mudado um pouco. Conflitos acirrados e disputas tornaram-se frequentes. — Manon olhava por cima do ombro vez ou outra para saber se o filho estava acompanhando a sua história, e sorria ao perceber que tinha total atenção de Amon.
— Guerras? — O bruxo perguntou, engolindo em seco. Se guerras na sua dimensão era completamente brutais. Guerras em uma dimensão mágica, em que seres poderiam usar magia como bem entendessem... Isso sim seria catastrófico.
— Não precisamente. Eu diria que estão mais para conflitos políticos, mas se tudo não for resolvido nos próximos anos, poderá sim haver uma guerra. — Explicou Mamon, assim que chegaram até duas enormes portas duplas, que pareciam ter sido feitas para gigantes. O demônio abriu as portas, fazendo uma gigantesca sala do trono surgir na frente dos dois.
Amon ficou abismado com a riqueza do lugar. Havia um trono de ouro na extremidade oposta do salão, logo acima de uma série de elegantes degraus. A estrutura do trono era feita de ouro, cravejado com pedras escuras e acolchoado com um estofado de camurça branca. A luz que entrava pelas janelas refletia diretamente naquele trono, que parecia brilhar como uma estrela.
Logo acima dele, havia uma bandeira presa na parede. no centro do tecido havia um corvo estranhamente branco voando, que possuía apenas os olhos dourados em meio àquela imensidão de branco. Foi então que Amon percebeu o porquê das cores de tudo ali serem branco e dourado.
— S-sem querer ser grosso, mas o que eu tenho a ver com isso? — Amon questionou, enquanto se aproximavam naquela imensa estrutura de ouro. Quando estavam perto o suficiente, o bruxo percebeu que havia uma coroa em cima do acolchoamento do trono, e ao contrário de todo o resto daquele salão, era parecia ser simples e delicada, apesar de também ser de ouro (um ouro branco que parecia gelo).
— Digamos que ter um filho, um herdeiro, nas circunstâncias atuais seja bastante vantajoso para todos nós. Alguns demônios já tem os seus próprios herdeiros e representantes. O nosso vizinho do Norte, Carreau, foi buscar o seu filho à duas semanas. — Explicou Mamon.
— C-CARREAU!? — Exclamou Amon, lembrando de que esse era justamente o pai de Tristan. O bruxo não fazia ideia de quantos filhos esse demônio poderia ter, mas assim que um sorriso felino surgiu no rosto de Mamon, o bruxo soube exatamente de quem se travava.
— Seu antigo amante pareceu bem contente em ser quem vai representar o reino de Carreau. — Mamon deu de ombros, pegando a coroa que descansava em cima do trono. Ela não passava de um fino anel de ouro da grossura de um dedo mindinho, entalhada com várias penas e arabescos. Mas ao invés de colocar na própria cabeça, Mamon ergueu a coroa e colocou cuidadosamente sobre os cabelos brancos do bruxo, que observou a cena completamente surpreso, sentindo o peso da coroa ser estranhamente confortável. — E agora, eu finalmente consegui trazer o meu próprio herdeiro para casa. É você, Amon Ophir. Você é meu filho, a coisa mais preciosa do meu reino.
— E-eu...— Começou Amon, completando surpreso, mas antes que continuasse a frase, Mamon o puxou para um abraço de urso, tão apertado que quase quebrou as costas do bruxo. Amon passou os braços ao redor do corpo do pai também, sentindo-o enterrar o rosto nos seus cabelos e intensificar ainda mais o aperto do abraço. O bruxo fechou os olhos e se permitiu saborear a sensação daquele abraço paternal, não muito diferente das centenas de outros que já havia dado no demônio, mas esse era de certa forma mais... Reconfortante. Amon ainda não confiava plenamente em Mamon, mas considerando tudo que ele já havia feito pelo bruxo, não tinha porque ficar com medo.
— Posso perguntar uma coisa? — Amon disse assim que se separaram. Mamon se jogou de qualquer jeito no trono e apoiou os pés descalços nos braços acolchoados dele. Agindo daquela forma engraçada, o demônio parecia ser exatamente da mesma idade que o bruxo, apesar de que seus olhos o entregassem.
— Claro.— Respondeu ele, assentindo levemente com a cabeça e jogando o cabelo branco por cima do ombro.
— Você... Curou o Benjamin? — Amon engoliu em seco, imaginando que se Benjamin continuasse seguindo o plano inicial, iria pegar a bolsa de suprimentos e seguir para o Sul na maior velocidade possível.
— Claro. Seu principezinho está 100% curado. Se bem que agora acho que você seja o príncipe da relação. — Explicou Mamon, soltando uma risadinha engraçada e encarando algo logo acima da testa de Amon, que sabia se tratar da coroa.
— V-você pode me deixar vê-lo uma última vez? Pode me levar para minha dimensão só por uns minutos? Vai ser rápido, prometo!! — Amon pediu, suplicando com o olhar. O pai soltou outra risadinha baixa, deixando o bruxo sem entender nada.
— Na verdade, acho que posso fazer bem mais que isso. Se você quer ver seu amante, basta ir lá no quintal. Demorou um século pra eu convencer ele a sair da porta do seu quarto. Ele vai ficar feliz em tiver.
— O-O QUÊ?! — Amon gritou à plenos pulmões, tentando absorver as palavras do pai. Então isso significava que Mamon também tinha levado para benjamin para lá?!
Sem esperar uma resposta, Amon começou a correr em direção às portas da sala do trono com toda velocidade que tinha.
— É SÓ SEGUIR O CORREDOR MAIS LARGO!! — Gritou Mamon, rindo novamente.