Onde Ela Respira...
A chave girou devagar na fechadura.
Antes mesmo de fechar a porta, Lita ouviu a voz da filha vindo da sala:
— Mãe?
— Sou eu, meu amor.
A mochila caiu no chão antes que ela alcançasse o sofá. Ela correu até a mãe, os braços gordinhos envolvendo sua cintura com força. Lita se abaixou e o apertou contra o peito, fechando os olhos por um segundo a mais do que o necessário.
— Demorou hoje — ela disse, o rosto enterrado na blusa dela.
— Demorei porque precisei ser corajosa — respondeu, beijando-lhe o cabelo.
Ela riu.
— Você sempre é.
Na cozinha, Lita lavou as mãos enquanto a filha falava sem parar sobre a escola, um trabalho de ciências, uma colega nova. Ela ouvia com atenção real, mesmo cansada. Aquela voz pequena era o lugar onde tudo fazia sentido.
— O que vamos comer? — ela perguntou, subindo no banquinho.
— O que sobrou de nós dois — disse ela, abrindo a geladeira. — Arroz, feijão e um pouco de improviso.
— Meu prato favorito — respondeu ela, sério demais para a idade.
Enquanto a comida esquentava, ela fez a lição à mesa. Lita observava de longe, apoiada na pia. Pensou em como aquela menina tinha crescido rápido. Pensou em tudo que não pôde ser: noites sem dormir, aulas perdidas, textos inacabados. Mas também pensou no que ganhou. Sempre pensava.
— Mãe — ela chamou, de repente. — Você fica triste no trabalho?
Ela parou por um instante.
— Às vezes fico cansada — respondeu, escolhendo as palavras. — Mas hoje… hoje foi um dia importante.
— Importante como quando eu aprendi a andar de bicicleta?
Ela sorriu.
— Quase isso. Só que com mais gente olhando.
Eles comeram juntos, sentados no chão da sala, dividindo o prato e o silêncio confortável. Depois, deitaram lado a lado no sofá, a menina com a cabeça apoiada no braço dela.
— Você vai escrever hoje? — ela perguntou, sonolento.
— Talvez — respondeu. — Por quê?
— Gosto quando você escreve. Parece que você fica mais você.
O peito de Lita apertou.
— Um dia você vai ler tudo — disse ela, baixinho.
— Promete?
— Prometo.
Depois de colocá-la na cama, Lita apagou a luz e ficou alguns minutos observando o corpo pequeno respirar com calma. Passou a mão pelos cabelos dela, como fazia quando ela era menor. Como ainda precisava fazer.
Na sala, sentou-se com o caderno antigo sobre o colo. Abriu em uma página em branco. A caneta hesitou.
Pensou no Sr. Pereira. Na sala de vidro. No respeito inesperado. Pensou em como sua vida sempre foi feita de resistências silenciosas.
Escreveu uma frase apenas:
“Ser ouvida é um risco que nem todo mundo está disposto a correr.”
Fechou o caderno.
Naquela noite, antes de dormir, Lita entendeu algo com clareza rara: ela não estava mais apenas sobrevivendo. Estava, aos poucos, ocupando o espaço que sempre foi seu.
E, pela primeira vez em muito tempo, adormeceu sem o peso do medo.
Somente com o cansaço bom de quem seguiu inteira.