capitulo 10

1061 Palavras
Sr. Pereira... A Casa Grande Demais A casa estava exatamente como ele deixara pela manhã. Silenciosa. Impecável. Vazia. O Sr. Pereira largou as chaves sobre o aparador e afrouxou a gravata antes mesmo de fechar a porta. O dia tinha sido longo, mas não cansativo — o que o incomodava era outra coisa. Um tipo de exaustão que não vinha do corpo. Acendeu poucas luzes. Nunca gostou de claridade excessiva à noite. A televisão ficou desligada. Pela primeira vez em muito tempo, não sentiu vontade de preencher o espaço com ruído. Na cozinha, abriu a geladeira grande demais para um homem só. Pegou uma cerveja, como sempre. Sentou-se à mesa sem colocar nada no prato. Bebeu alguns goles, distraído, olhando para o nada. A reunião voltou inteira à sua mente. Lita não tinha pedido nada. Não tinha se justificado. Não tinha usado medo nem bajulação. Apenas falou. E ele… ouviu. Isso era o que mais o incomodava. Levantou-se e foi até o escritório da casa. Um espaço que quase não usava, apesar de estar sempre organizado. Sobre a mesa, alguns porta-retratos virados para baixo. Não lembrava quando os tinha colocado assim. Virou um deles. Os filhos, ainda adolescentes, em uma viagem antiga. Todos sorrindo. Ele também. Franziu a testa, como se aquele homem fosse um estranho. — Quando foi que eu endureci tanto? — murmurou, sem esperar resposta. Sentou-se na cadeira e abriu o notebook, mas não conseguiu se concentrar em relatórios. Fechou tudo. Passou a mão pelo rosto. O silêncio começou a pesar. Pensou em Lita novamente. Não na reunião, mas no que não sabia sobre ela. Em como alguém podia sustentar tanto sem se quebrar. Em como ela tinha algo que ele perdera sem perceber. Resistiu à ideia por alguns segundos, depois cedeu. Pegou o celular. Abriu o contato da secretária. Pensou em pedir algo trivial. Fechou. Abriu o contato de Pedro. Digitou, apagou, digitou de novo. Você ainda está no restaurante? A resposta veio minutos depois. Já fechei. Dia longo? O Sr. Pereira hesitou antes de responder. Estranho. Pedro demorou um pouco mais dessa vez. Os estranhos costumam ser os importantes. Ele soltou um leve ar pelo nariz. Não chegou a sorrir. — Talvez — disse em voz baixa. Guardou o celular e levantou-se. Foi até o quarto, tirou o paletó, depois a camisa. Parou diante do espelho. O homem refletido parecia sólido, inteiro. Mas ele sabia: havia fissuras ali. Deitou-se mais cedo do que o habitual. Sem televisão. Sem bebida. No escuro, pela primeira vez em muitos anos, pensou não no que precisava controlar no dia seguinte, mas no que precisava compreender. Antes de dormir, uma constatação o atravessou com desconforto e curiosidade: Lita não tinha abalado sua empresa. Tinha abalado o modo como ele se colocava no mundo. E isso não se resolvia com ordens, nem com planilhas. Virou de lado, tentando encontrar uma posição confortável. O sono demorou a chegar. Porque algumas mudanças começam assim — quietas, indesejadas e absolutamente inevitáveis. O Que o Sono Revela O sono veio fragmentado. O Sr. Pereira não sabia exatamente quando começou a sonhar — apenas que estava em um lugar que não reconhecia, amplo demais para ser real, silencioso demais para ser confortável. As paredes eram de vidro, como a sala de reuniões, mas ali não havia cidade, nem prédios. Apenas luz difusa. Lita estava ali. Não vestia o tailleur do trabalho. Usava algo simples, leve, que se movia com o corpo. O cabelo solto caía pelos ombros de um jeito que ele nunca tinha visto. Ela o olhava sem rigidez, sem defesas. — Aqui você não manda — disse ela, a voz baixa, sem confronto. Ele tentou responder, mas nenhuma palavra saiu. Pela primeira vez, não sentiu necessidade de controlar o espaço. Apenas caminhou em direção a ela. Cada passo era pesado, como se atravessasse água. Quando ficou perto, sentiu o cheiro dela — algo quente, vivo, distante da assepsia dos escritórios. Lita estendeu a mão e tocou o peito dele nu, não como quem pede permissão, mas como quem reconhece aquilo que é seu. O toque atravessou uma barreira invisivel, e tocou sua pele, o que ele achava que era sólido. — Você sempre se esconde atrás do que construiu — ela murmurou. — Mas esqueceu do que sente. Ele fechou os olhos. O mundo pareceu se inclinar. O toque dela subiu lentamente, alcançando o pescoço, o maxilar. Os dedos firmes o obrigaram a encará-la. O olhar de Lita não tinha medo. Nem pressa. Havia ali algo mais perturbador do que desejo: aceitação. Ela se aproximou o suficiente para que a respiração dos dois se misturasse. O corpo dele reagiu antes da mente, um calor antigo despertando onde havia anos de silêncio. Ele sentiu a própria rigidez, o impulso contido, o desejo que não pedia palavras. Quando ela encostou a testa na dele, o mundo pareceu desaparecer. O beijo aconteceu. Suas mão alcançou a cintura da Lita, fazendo sentir a pele macia e firme que ela tinha mesmo com seus 40 anos. Ele nem lembrava mais o que tocar a pela de uma mulher. Apenas frio metal da lata de cerveja ou o suor da garrafa. O sonho se rompeu no instante anterior — c***l como só os sonhos sabem ser. A imagem dela se afastando, o olhar sustentado até o último segundo, como se dissesse agora você sabe. O Sr. Pereira acordou de repente. O quarto estava escuro. O coração acelerado. O corpo tenso, vivo demais para aquela hora. Levou a mão ao rosto, depois ao peito, sentindo a respiração irregular. Lita. Não como fantasia vulgar. Mas como presença. Sentou-se na cama, os lençóis desarrumados, o corpo denunciando algo que ele se recusava a nomear. Não era aapenas desejo físico. Era a quebra de uma represa antiga. — Droga… — murmurou, passando a mão pelos cabelos. Levantou-se, foi até a janela. A cidade dormia. Ele não. Percebeu então o que mais o perturbava naquele sonho: não foi o toque, nem o desejo. Foi o fato de que, ali, ele não estava no controle — e não quisera estar. Voltou para a cama, o corpo ainda desperto, a mente inquieta. Naquela noite, o Sr. Pereira entendeu algo que não cabia em relatórios nem decisões estratégicas: Lita tinha atravessado suas defesas mais profundas sem jamais tocá-las de fato. E isso o assustava tanto quanto o atraía.
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