Roberto...
Foi na sala de aula que conheceu Lita.
Durante os anos em que foi seu professor na faculdade, Roberto sempre destacou o talento dela para a escrita. Via em Lita algo raro: sensibilidade aliada à precisão, emoção sem excesso, força sem rigidez. Para ele, ela era uma menina prodígio, alguém com um futuro evidente no mundo da literatura. Incentivava seus textos, guardava alguns, fazia comentários longos demais para um simples professor.
Entre os alunos, os boatos surgiram naturalmente. Muitos acreditavam que Roberto tinha um carinho especial por Lita — diferente, visível. Ele nunca admitiu nada, mas também nunca negou. Talvez porque nem ele próprio soubesse nomear exatamente o que sentia: admiração profunda, orgulho intelectual, identificação ou algo perigosamente próximo do afeto pessoal.
Tudo mudou quando Lita engravidou.
A gravidez interrompeu a presença constante dela na faculdade. O curso precisou ser concluído à distância, de forma prática, fria, sem o convívio que alimentava discussões, leituras e trocas. Roberto sentiu a ausência mais do que gostaria de admitir. Para ele, foi como assistir ao apagamento prematuro de um talento que o mundo ainda não tinha visto florescer.
Nunca houve confronto direto entre eles sobre isso. Apenas silêncio.
Anos depois, Roberto carrega uma mistura de culpa e frustração: culpa por não ter feito mais, frustração por ver alguém tão talentosa ter sido empurrada para longe da escrita pela dureza da vida. Ainda assim, ele nunca deixou de acreditar que Lita voltaria às palavras — porque, para ele, quem nasce escritora pode até se calar, mas nunca deixa de ser.
Na manha seguinte
Um encontro inesperado...
Lita não esperava reconhecê-lo de imediato. Foi a voz que veio primeiro, atrás dela, atravessando o corredor da livraria como um eco antigo.
— Ainda prefere os autores que ninguém lê?
Ela congelou por um segundo antes de se virar.
Roberto estava ali, alguns fios brancos a mais, os óculos pendurados na ponta do nariz, o mesmo jeito de observar o mundo como quem enquadra uma cena antes de filmar. O tempo tinha passado, mas não o suficiente para apagar o que ele representava.
— Professor… — ela disse, surpresa escapando do controle.
— Roberto — corrigiu, com um sorriso contido. — Já faz tempo demais para formalidades.
Eles ficaram alguns segundos se olhando, como se tentassem localizar um ao outro em versões antigas de si mesmos. Foi ele quem quebrou o silêncio.
— Você sumiu.
A frase não era acusação. Era constatação.
— A vida aconteceu — respondeu ela, simples.
Sentaram-se em uma mesa pequena no fundo da livraria. Entre eles, dois cafés esfriando sem pressa. Roberto observava Lita com atenção demais para ser casual, mas cuidado o suficiente para não invadir.
— Eu acompanhei sua formatura à distância — disse ele. — Não foi a mesma coisa.
— Para mim também não.
Ele assentiu, como se aquela resposta confirmasse algo que sempre soube.
— Você ainda escreve? — perguntou, quase em sussurro.
Lita desviou o olhar por um instante.
— Às vezes. Mais na cabeça do que no papel.
Roberto sorriu triste.
— Eu disse uma vez que você era uma menina prodígio. Lembra?
— Lembro — respondeu. — Eu acreditei.
O silêncio que se seguiu não era confortável, mas era necessário. Havia ali tudo o que não foi dito quando deveria.
— Eu poderia ter feito mais — disse ele, finalmente. — Insisti menos. Fui covarde.
Lita respirou fundo.
— Eu precisava sobreviver. E sobreviver também é uma forma de coragem.
Ele a olhou com algo que misturava orgulho e pesar.
— Você sempre foi mais forte do que eu imaginava.
— E você sempre enxergou coisas que ninguém mais via — respondeu ela.
Roberto recostou-se na cadeira.
— Estou dando aulas em um curso livre agora. Escrita criativa. Nada acadêmico. Gente que escreve porque precisa. — Fez uma pausa. — Gostaria que você aparecesse um dia. Nem que seja só para ouvir.
Lita sorriu, um sorriso pequeno, verdadeiro.
— Talvez eu apareça.
— Talvez não é não — disse ele, com a mesma firmeza tranquila de antes. — Mas já é alguma coisa.
Levantaram-se quase ao mesmo tempo. Antes de se despedirem, Roberto tocou de leve o braço dela.
— O mundo ainda precisa das suas palavras, Lita. Mesmo que você tenha demorado a voltar para elas.
Ela saiu da livraria com o coração inquieto. Não por nostalgia, mas por algo mais perigoso: a sensação de que partes dela, que julgava adormecidas, ainda estavam vivas.
E pedindo passagem.