capitulo 5

978 Palavras
Lita Lita saiu do elevador alguns andares abaixo do último. Não foi uma decisão racional. Apenas sentiu que precisava caminhar, respirar, sentir o chão sob os pés. O corredor estava quase vazio àquela hora. O expediente ainda não tinha terminado, mas o prédio já começava a desacelerar. Ela parou perto de uma janela lateral e apoiou a mão no vidro frio. Só então percebeu que os dedos tremiam levemente. Não era medo. Nunca foi. Era a descarga tardia de ter sustentado a própria voz em um lugar que constantemente pedia silêncio. Respirou fundo, uma, duas vezes, até o corpo entender que o confronto havia acabado. O coração ainda batia rápido demais. — Você foi longe demais — murmurou para si mesma. Já tinha ouvido isso antes. Em outras empresas, outros contextos, outras salas onde também foi a única mulher, a única n***a, a única a falar de pessoas quando todos falavam de resultados. Ainda assim, algo naquela reunião tinha sido diferente. O Sr. Pereira não gritou. Não cortou. Não encerrou com desprezo. Ele escutou — mesmo sem admitir. E isso a inquietava. Lita voltou à sua mesa, organizou papéis que não precisavam ser organizados e respondeu e-mails mecanicamente. As palavras apareciam na tela, mas a mente ainda estava no último andar, no silêncio pesado daquele escritório, no olhar dele quando ela disse que o problema não era técnico, era humano. Pegou o celular e viu uma mensagem da filha: “Mãe, tirei 8 na prova ” Sorriu. Um sorriso verdadeiro, imediato. “Eu sabia. Tenho orgulho de você.” respondeu. Aquela simples troca a ancorou de volta. Era por isso. Sempre foi. No banheiro, lavou o rosto e se olhou no espelho. A expressão estava firme, mas os olhos denunciavam o cansaço. Pensou no quanto já havia se acostumado a ser forte, a não pedir, a sustentar decisão sozinha. Pensou também no risco que tinha corrido ao confrontar alguém como o Sr. Pereira. Poderia custar caro. Promoções não vinham para quem causava desconforto. Ainda assim, ela faria tudo de novo. Pegou a bolsa e desligou o computador. Ao sair, cruzou com Joelma perto da recepção. — E aí? — Jho perguntou, percebendo algo diferente no rosto da amiga. — Reunião com o imperador? Lita sorriu de canto. — Foi… intensa. — Sobreviveu? — Sobrevivi — respondeu. — Mas acho que mexi em alguma coisa. — Nele ou em você? Lita pensou por um instante antes de responder. — Nos dois. No caminho para casa, observou a cidade passando pela janela do ônibus. Pessoas cansadas, vidas cruzando sem se olhar. Pensou em como, todos os dias, tomava decisões que ninguém via. Pensou também que, pela primeira vez em muito tempo, alguém tinha realmente escutado. Isso não significava vitória. Nem mudança imediata. Mas significava fissura. E, para Lita, fissuras sempre foram o começo de algo novo. Na mesma noite em casa... O cheiro de alho refogado se espalha pela cozinha pequena enquanto Lita corta os legumes com cuidado. O arroz já está quase pronto, o feijão esquenta no fogo baixo. Nada elaborado. Nunca foi sobre isso. É sobre estar ali. A filha aparece encostada no batente da porta, mochila largada no chão. — Hoje tem frango? — pergunta, espiando a panela. — Tem sim. Do jeito que você gosta. Ela se senta à mesa e começa a falar do dia sem ser perguntado. Uma colega que esqueceu o dever, a professora que contou uma história estranha, a prova que foi melhor do que ela esperava. Lita escuta enquanto mexe a panela, respondendo com murmúrios atentos. Aprendeu a ouvir com o corpo inteiro. — E o seu dia? — ela pergunta, quando percebe que a mãe ficou em silêncio por tempo demais. Ela hesita por um segundo. — Foi… puxado. Mas importante. — Você brigou com alguém? Lita sorri. — Não exatamente. Conversei sério. Ela parece satisfeita com a resposta, como se entendesse mais do que ela disse. Sentam-se à mesa. Ela junta as mãos antes de comer, hábito que aprendeu com a avó, e começa a devorar o prato. Lita observa aquele gesto simples com um carinho silencioso. Às vezes, o amor se manifesta nesses detalhes pequenos, quase invisíveis. — Mãe — ela diz de repente —, você fica triste no trabalho? A pergunta cai no meio da refeição como algo frágil demais para ser ignorado. — Às vezes — ela responde com honestidade. — Mas também fico orgulhosa. Porque faço coisas que importam. — Importam pra quem? Ela pensa no prédio alto, nos relatórios, nos rostos cansados que ninguém nomeia. — Importam para pessoas que nem sempre aparecem. Ela mastiga pensativo. — Igual quando você fala que nem todo herói usa capa? Lita ri baixinho. — Exatamente assim. Depois do jantar, ela ajuda a recolher os pratos sem reclamar. Na pia, a água corre morna enquanto elas trabalham lado a lado. — Você vai escrever hoje? — ela pergunta. Ela para por um instante. — Talvez. Por quê? — Porque quando você escreve, fica diferente. Menos cansada. O comentário a desarma. Lita beija a testa da filha. — Então talvez eu escreva. Mais tarde, já deitado, ela puxa a mão da mãe antes de dormir. — Mãe? — Oi. — Se alguém fala alguma coisa errada pra você… você fala de volta, né? Ela sorri, com os olhos marejados. — Falo. Mesmo com medo. — Ainda bem — ela diz, fechando os olhos. — Porque você é corajosa. Lita fica ali mais um pouco, observando o peito dela subir e descer, sentindo o peso do dia finalmente ceder. Apaga a luz e sai do quarto com passos leves. Na sala, o caderno antigo a espera sobre a mesa. Ela passa a mão pela capa gasta, senta-se e abre em uma página em branco. E, pela primeira vez em muito tempo, não sente medo do que pode sair dali.
Leitura gratuita para novos usuários
Digitalize para baixar o aplicativo
Facebookexpand_more
  • author-avatar
    Escritor
  • chap_listÍndice
  • likeADICIONAR