CAPITULO DOIS

511 Palavras
Lita Apesar de formada em Literatura, Lita vive um conflito interno constante: a necessidade de sustentar a filha e manter estabilidade financeira versus o desejo reprimido de escrever e viver da palavra. O ambiente corporativo, especialmente sob a gestão opressiva do Sr. Pereira, intensifica sua sensação de estar vivendo uma vida que não escolheu totalmente. O despertador toca às seis, mas eu já estou acordada. Sempre estou. Antes mesmo de abrir os olhos, escuto a respiração dele no quarto ao lado. Esse som ainda me acalma. É a prova diária de que, apesar de tudo, alguma coisa deu certo. Levanto, preparo o café e separo a lancheira com o cuidado de quem sabe que pequenos detalhes importam. Pão, fruta, suco. Nada sofisticado, mas feito com atenção. Enquanto isso, ele aparece na porta da cozinha, cabelo bagunçado, olhos ainda pesados de sono. — Bom dia, mãe. — Bom dia, meu amor — respondo, abrindo um sorriso que só existe para ela. Ela se senta à mesa e me observa em silêncio por alguns segundos. — Você vai chegar tarde hoje? A pergunta vem sempre casual, mas carrega um pedido escondido. — Talvez um pouco — digo com honestidade. — Mas prometo tentar chegar antes de você dormir. Ela faz que sim com a cabeça, sem drama. Aprendeu cedo a entender meus horários. Isso às vezes me dói mais do que qualquer cobrança. — Prova de matemática hoje — ela diz, mordendo o pão. — E você estudou? — Estudei. Mas fico nervoso. Pouso a mão sobre a dela. — Nervoso é sinal de que você se importa. Vai dar certo. Ela sorri pequeno, confiante do jeito que só crianças conseguem ser quando alguém acredita nelas. No caminho para a escola, conversamos sobre coisas simples: um amigo novo, um jogo, um professor engraçado. Evito falar de trabalho. Ela evita perguntar. Há um acordo silencioso entre nós. Antes de descer do carro, ela me abraça rápido, como se tivesse vergonha de demonstrar carinho em público, mas ainda não o suficiente para evitar. — Te amo, mãe. — Eu sei — respondo. — E te amo mais do que tudo. À noite, quando chego em casa, o cansaço pesa nos ombros. Ainda assim, entro no quarto dela para conferir se está dormindo bem. Às vezes ela acorda. — Mãe? — Oi. — Você gosta do seu trabalho? A pergunta me pega desprevenida. Sento na beira da cama. — Eu gosto do que ele me permite fazer — respondo com cuidado. — Mas o que eu mais gosto é de cuidar de você. Ela segura minha mão. — Quando eu crescer quero escrever histórias. Sorrio, sentindo algo apertar no peito. — Então nunca deixe ninguém te convencer de que isso não é importante. Ela fecha os olhos, ainda segurando minha mão. Fico ali por mais alguns minutos, observando aquele rosto tranquilo, lembrando a mim mesma por que continuo. Não é força. Não é sacrifício. É amor. E, todas as manhãs, quando o mundo me exige dureza, é nela que penso para não esquecer quem eu sou.
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