CAPITULO TRES

1061 Palavras
Na manhã seguinte Lita trabalha diretamente em projetos estratégicos e desenvolvimento da empresa do Sr. Pereira. Competente e dedicada, ela desafia silenciosamente a lógica fria e autoritária do chefe ao trazer soluções humanas, criativas e éticas — algo que ele despreza. O conflito nasce quando Lita passa a questionar decisões técnicas que afetam pessoas (funcionários, terceirizados, segurança), enquanto Sr. Pereira enxerga isso como insubordinação. O choque entre a humanidade de Lita e a rigidez emocional dele desencadeia uma transformação lenta e inesperada em ambos. Sr. Pereira vê em Lita algo que ele próprio perdeu: sensibilidade e propósito além do trabalho. medo de arriscar sonhos em nome da segurança. Acordo antes do despertador tocar. Ainda está escuro, mas a casa já não dorme completamente. Há sempre algum barulho distante, um carro passando, um vizinho que chega tarde demais ou cedo demais. Levanto devagar para não acordar minha filha e fico alguns segundos sentada na beira da cama, respirando fundo, organizando o dia dentro de mim. A rotina nunca foi leve, mas aprendi a carregá-la com dignidade. No banheiro, lavo o rosto com água fria e me observo no espelho. Vejo uma mulher de quarenta anos que já precisou ser forte mais vezes do que gostaria. Mulher n***a, mãe solo, formada em Literatura, trabalhando em um ambiente que nunca foi pensado para pessoas como eu. Às vezes me pergunto em que ponto da vida fiz escolhas tão distantes dos meus sonhos iniciais. Outras vezes, agradeço por ter sobrevivido a todas elas. Enquanto preparo o café, reviso mentalmente o dia que me espera: prazos, relatórios, reuniões. E ele. O Sr. Pereira. Seu nome surge inevitavelmente, como um ruído constante. Trabalhar sob seu comando exige atenção redobrada, silêncio estratégico e uma resistência que vai além da técnica. Ele governa pelo medo, pela pressa e pela certeza de que sentir é uma falha. Ainda assim, há algo nele que me inquieta. Não é admiração. Também não é medo. É uma curiosidade desconfortável, quase involuntária. Por trás daquela rigidez toda, existe um cansaço que ele tenta esconder. Vejo nos olhos, na forma como evita conversas que não cabem em números, no jeito como reage quando alguém fala de pessoas antes de falar de resultados. Saio de casa com essa sensação atravessada no peito. No caminho para o trabalho, observo a cidade acordando — vendedores montando barracas, mães apressadas, trabalhadores anônimos. Gente que não aparece nos relatórios, mas que sustenta tudo. Sempre penso neles quando tomo decisões técnicas. Talvez por isso eu incomode tanto. No elevador da empresa, ajeito a bolsa no ombro e endireito a postura. Sei que, lá no último andar, ele já deve estar no escritório, organizando o mundo do jeito que acredita ser o único possível. Eu, por outro lado, sigo tentando lembrar — a mim mesma e aos outros — que nenhum projeto funciona de verdade se esquecer quem está do outro lado. As portas se abrem. Dou meu primeiro passo no corredor sabendo que hoje, mais uma vez, não será apenas sobre trabalho. Nunca é. E, mesmo sem admitir, sinto que algo ali está prestes a mudar. O Encontro A reunião foi marcada para o fim da tarde, o que por si só já era incomum. O último andar costumava ser território exclusivo do Sr. Pereira, inacessível, quase simbólico. Quando recebi o e-mail solicitando minha presença, senti um aperto breve no estômago — não de medo, mas de alerta. O elevador subia em silêncio. Observei os números se apagando um a um, como se cada andar deixasse algo para trás. Quando as portas se abriram, encontrei um corredor amplo demais, frio demais. Caminhei até a porta de vidro fosco e bati uma única vez. — Entre — disse a voz firme, sem levantar o tom. O escritório era exatamente como eu imaginava: linhas retas, cores neutras, vista ampla da cidade. Ele estava de pé, de costas para mim, observando São Paulo como quem observa um tabuleiro. Não se virou imediatamente. — A senhora pediu para revisar o cronograma do projeto da Zona Sul — disse ele. — Trinta por cento de atraso. Explique. Coloquei a pasta sobre a mesa com cuidado. — O atraso não é técnico — respondi. — É humano. Ele se virou então. O olhar era duro, impaciente. — Humanos não fazem parte do cronograma, Lita. Resultados, sim. Sustentei o olhar. — Fazem parte quando são eles que executam o trabalho. Se continuarmos nesse ritmo, alguém vai se machucar. Já houve dois afastamentos que não constam no relatório oficial. O silêncio que se seguiu foi denso. Ele não estava acostumado a ser confrontado daquela forma — não por alguém que falava baixo, sem pedir permissão. Caminhou lentamente até a mesa, apoiou as mãos na madeira escura. — A senhora está sugerindo que eu administro m*l a minha própria empresa? — Estou sugerindo que números não contam tudo — respondi, sentindo o coração acelerar, mas mantendo a voz firme. — E que decisões assim têm consequências que não aparecem em planilhas. Ele me encarou por longos segundos. Eu esperei a explosão, a ordem seca, o corte definitivo. Mas ela não veio. — A maioria das pessoas entra aqui pedindo algo — disse ele, por fim. — Promoção. Reconhecimento. Medo de perder o emprego. A senhora não pediu nada. — Não vim pedir — respondi. — Vim evitar um problema maior. Algo mudou no ar. Não foi suavidade. Foi ruptura. Ele se afastou da mesa e sentou-se, finalmente. Passou a mão pelo rosto, gesto rápido, quase imperceptível. — A senhora fala como se ainda acreditasse que as coisas podem ser diferentes. — Eu preciso acreditar — disse. — Caso contrário, isso aqui não faz sentido. Ele respirou fundo. Pela primeira vez, pareceu cansado. — Pode ir — disse, seco. — Vou analisar os dados. Recolhi a pasta, mas antes de sair, ele falou novamente: — Lita. Parei na porta. — A senhora não é como as outras pessoas daqui. — Nem o senhor — respondi, sem pensar. Saí antes que ele pudesse dizer qualquer coisa. No elevador, percebi que minhas mãos tremiam levemente. Não era medo. Era a consciência incômoda de que algo tinha sido deslocado — nele, em mim, naquele espaço onde nada costumava sair do controle. No último andar, o Sr. Pereira permaneceu sentado, olhando para a pasta fechada à sua frente, sabendo que aquela conversa não terminava ali.
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