Capitulo 35

1119 Palavras
Decisão difícil O quarto ficou em silêncio depois que os corpos se aquietaram. Não era um silêncio constrangedor. Era denso, quente, confortável. A respiração dos dois ainda buscava ritmo, como se o corpo precisasse reaprender a calma depois da intensidade. Lita permanecia deitada de lado, apoiada no peito de Rogério, ouvindo o som grave e constante do coração dele. Aquilo a tranquilizava mais do que ela esperava. Havia algo quase simbólico naquele gesto simples: ela, que sempre precisou se sustentar sozinha, agora se permitia repousar em alguém sem medo de cair. Rogério passou os dedos lentamente pelos cabelos dela, num carinho distraído, mas cheio de presença. — Você está bem? — perguntou baixo. — Estou… — respondeu ela, após alguns segundos. — Estou mais leve. Ele sorriu, ainda olhando para o teto. — Também me sinto assim. Como se tudo lá fora tivesse ficado do lado de fora da porta. Lita levantou um pouco o rosto para encará-lo. — Você não precisava ter feito o que fez hoje. — Precisava, sim. — Ele virou o rosto para ela. — Não por orgulho. Mas porque ninguém tem o direito de te diminuir daquela forma. Ela engoliu em seco. — Eu estou acostumada a engolir esse tipo de coisa — confessou. — A fingir que não machuca, que não cansa. Mas cansa… muito. Rogério apertou levemente o abraço. — Eu sei que você é forte. Mas força não deveria ser solidão. A frase ficou suspensa entre eles. Lita sentiu algo se mover por dentro — uma mistura de gratidão, medo e um começo tímido de esperança. Era exatamente isso que a assustava: não o desejo, mas a possibilidade real de criar vínculo. Depois de tantos anos se protegendo, confiar ainda era um território delicado. — Às vezes eu tenho medo de me permitir — admitiu. — Quando as coisas ficam boas demais, eu já começo a me preparar para perder. Rogério ficou em silêncio por alguns instantes, escolhendo as palavras. — Eu também tenho medo. Mas de outra coisa. — Ele respirou fundo. — De querer controlar o que não me pertence. Ela ergueu a sobrancelha, curiosa. — Como assim? — Quando eu me importo… eu tendo a proteger demais, a fechar o mundo em volta. Não gosto dessa parte de mim. — Ele a encarou com honestidade. — E você não é alguém que cabe em gaiola nenhuma. Lita sorriu de leve, tocada. — Ainda bem que você sabe disso. — Estou aprendendo. Eles riram baixo. O riso veio como um alívio, quebrando a densidade emocional que se instalava. Mas, mesmo na leveza, havia algo sério se construindo ali: uma negociação silenciosa de limites, afetos e expectativas. Lita passou os dedos pelo braço dele, sentindo a textura da pele, como se aquele toque confirmasse que tudo era real. — Eu não quero que isso vire um refúgio para fugir da vida — disse ela. — Eu quero que seja algo que caminhe com a vida. Rogério assentiu. — Eu também. O olhar entre eles demorou mais do que o habitual. Não havia promessas exageradas. Não havia juras. Apenas uma decisão implícita de presença. A cumplicidade estava nas pequenas coisas: no silêncio confortável, no toque que não exigia nada, no respeito pelos medos um do outro. Lita fechou os olhos, sentindo o cansaço finalmente chegar. Mas, antes de adormecer, uma pontinha de culpa atravessou seu pensamento — Isadora, o trabalho, os julgamentos, o medo de se envolver demais. Ela respirou fundo. Talvez não fosse errado desejar felicidade. Talvez não fosse errado descansar um pouco no afeto. Rogério percebeu o leve enrijecer do corpo dela. — Pensando demais? — murmurou. — Um pouco. — Fica aqui agora. O resto a gente resolve quando amanhecer. Ela assentiu, encaixando-se melhor no abraço. E, naquela noite, mais do que desejo, eles construíram algo silencioso, delicado e verdadeiro: um espaço onde ambos podiam ser humanos — não apenas fortes. Na manha seguinte.... A manhã chegou mais clara do que Lita esperava. A luz atravessava as cortinas do hotel de forma suave, espalhando tons dourados pelo quarto ainda silencioso. O corpo despertava lentamente, pesado de descanso e emoções acumuladas, dolorida após a noite de sexo intenso com Rogerio. Ela abriu os olhos e, por alguns segundos, precisou se lembrar onde estava — e com quem. Pois suas pernas ainda estavam bambas e os s***s ainda sensíveis. Rogério ainda dormia ao seu lado, a respiração tranquila, o rosto mais sereno do que ela costumava ver no ambiente de trabalho. As marcas de sua unha estavam visíveis em seu peito, braço e costa. Aquela imagem doméstica, quase íntima demais para uma relação que ainda buscava nome, provocou nela uma mistura de conforto e alerta e desejo Era o último dia. A realidade voltaria a ocupar espaço. Lita levantou devagar, caminhou até a janela e observou a cidade acordando lá embaixo. Pensou em Isadora. Pensou no escritório. Pensou nos olhares, nas regras invisíveis, nos julgamentos que sempre a cercaram. Pensou, também, no que havia nascido ali entre eles — algo bonito, mas frágil diante do mundo real. Quando Rogério acordou, encontrou Lita na janela com um roupão ele abraça ela por trás e beija seu pescoço isso a enche de t***o e ela se sente bem com isso . A mudança era sutil, mas perceptível. — esta pronta para um banho a dois? — perguntou, com um leve sorriso. — Estou tentando organizar a cabeça — respondeu ela. — A viagem foi intensa… mas a gente precisa voltar para quem somos lá fora. Rogério assentiu lentamente. Ele também sentia o mesmo deslocamento interno: a necessidade de reorganizar limites, funções, expectativas. — Eu não quero que isso vire um problema para você — disse ele com sinceridade. — Nem para o seu trabalho. — Nem para o seu — completou ela. Eles trocaram um olhar longo, carregado de entendimento. Não era um afastamento. Era um ajuste. O restante do dia transcorreu com objetividade: última visita técnica à obra, assinaturas finais, conferências rápidas. Profissionalismo absoluto. Posturas alinhadas, falas medidas, distância respeitosa em público. Mas, nos pequenos gestos — um olhar mais demorado, um cuidado silencioso, um sorriso discreto — ainda existia algo pulsando. No aeroporto, aguardando o embarque, sentaram-se lado a lado, mas sem o toque espontâneo da viagem. O espaço entre eles agora era também um exercício de maturidade. — Quando chegarmos… — começou Rogério, hesitante. — Vamos precisar ser inteligentes com isso. — Eu sei — respondeu Lita. — Eu não quero que ninguém questione minha competência por causa de nós. — Nem eu quero ser o motivo disso. O avião decolou levando não apenas dois profissionais de volta ao Brasil, mas duas pessoas que haviam atravessado uma fronteira emocional.
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