De Volta ao Brasil – Ajustes Invisíveis
O impacto da rotina foi imediato.
O calor, o trânsito, o barulho urbano, os compromissos acumulados. Tudo parecia exigir uma versão mais rígida deles mesmos.
Na empresa, a chegada foi protocolar.
Rogério reassumiu sua postura firme, objetiva, distante. As decisões voltaram a ser rápidas, os encontros, formais. Lita retomou seu papel técnico com ainda mais precisão — postura segura, fala direta, olhar atento aos detalhes.
Mas algo havia mudado.
Lita estava mais confiante. Não por depender de alguém, mas por ter se permitido existir inteira sem pedir licença. Ela falava com mais clareza nas reuniões, sustentava seus posicionamentos sem hesitação, ocupava o espaço com naturalidade.
Rogério, por sua vez, tornou-se mais cuidadoso com a forma como conduzia as relações profissionais. Menos impulsivo, menos territorial. Observava mais. Escutava mais. Respeitava ainda mais a autonomia de Lita — não apenas como mulher, mas como profissional.
Nos corredores, os olhares entre eles eram breves, quase imperceptíveis para quem observava de fora. Mas carregavam uma comunicação silenciosa que ninguém mais decifrava.
Às vezes, um e-mail técnico vinha com uma frase sutilmente mais humana. Um “obrigado” mais demorado. Um cuidado discreto com horários, agendas, sobrecargas.
Nada explícito. Nada que denunciasse.
Mas tudo profundamente vivo.
Lita, em alguns momentos, sentia a pontinha de culpa ainda aparecer — principalmente quando pensava na filha, na responsabilidade emocional que carregava. Mas, ao mesmo tempo, havia uma nova compreensão: ela não precisava se anular para ser uma boa mãe, uma boa profissional ou uma mulher digna.
Rogério, por sua vez, lutava internamente para não deixar o sentimento escorregar para o controle. Exercitava conscientemente a confiança, o respeito, a liberdade. Era um aprendizado silencioso.
O que havia entre eles agora não era mais apenas desejo.
Era uma construção.
Lenta. Cuidadosa. Real. E, embora o mundo ao redor ainda carregasse desafios, preconceitos e ruídos, ambos sabiam que algo havia se transformado de forma definitiva — dentro deles.
Naquele mesmo dia no fim da tarde Lita estava pronta para sair e pegar seu ônibus rumo sua casa, estava com saudade da filha, os dias que ficou na argentina m*l conseguiu fala com ela. Terminou o expediente e assim seguiu para o ponto de ônibus. Estava para quando um carro chic para no meio fio da calçada. Baixa o vidro.
Ela ajustou a alça da bolsa no ombro, mantendo o olhar atento à rua, como se o ônibus fosse uma linha de defesa entre ela e qualquer decisão precipitada.
— Acho melhor não, Rogério — repetiu, agora com mais firmeza. — Meu ônibus já está vindo.
Ele franziu o cenho, a mão ainda apoiada no volante do carro elegante, o motor ligado, como se estivesse pronto para avançar — ou fugir.
— Lita, entra. É só uma carona — insistiu, a voz baixa, controlada demais.
Ela finalmente virou o rosto para encará-lo. O olhar era calmo, mas decidido.
— Não é só isso. — Fez uma pausa curta. — A gente combinou ser cuidadoso. Aqui… isso importa.
O silêncio se instalou entre eles, pesado. O ônibus ainda não aparecia, mas a decisão dela já estava tomada. Rogério respirou fundo, desviou o olhar por um segundo, como quem tenta conter algo que sobe do peito para a garganta.
— Você está me evitando? — perguntou, seco.
— Não. — Lita balançou a cabeça. — Estou me protegendo. E protegendo você também.
A resposta não teve o efeito que ela esperava.
Rogério riu sem humor, um riso curto, tenso.
— Engraçado… na Argentina você não parecia tão preocupada com isso.
O comentário a atingiu como um golpe frio. Ela sentiu o rosto esquentar, mas manteve a postura.
— Lá nós éramos duas pessoas. Aqui nós somos vistos o tempo todo.
Ele fechou a expressão. O orgulho ferido misturava-se com algo mais escuro: frustração, ciúme, a sensação incômoda de não ter controle sobre a situação — nem sobre ela.
— Tudo bem — disse, finalmente, num tom duro. — Faça como achar melhor.
Sem esperar resposta, subiu o vidro e arrancou com o carro, deixando para trás o cheiro de combustível e uma tensão que parecia ter ficado suspensa no ar.
Lita permaneceu imóvel por alguns segundos.
O coração batia rápido. Não por arrependimento, mas pela certeza de que havia feito o que precisava ser feito — mesmo que doesse. Quando o ônibus finalmente surgiu ao longe, ela respirou fundo, como se estivesse soltando um peso invisível.
Rogério dirigiu sem destino por alguns minutos, os pensamentos embaralhados, o maxilar travado de raiva contida. Aquilo não era apenas sobre a carona. Era sobre limites que ele ainda não sabia respeitar completamente. Sobre a frustração de querer estar perto e ser barrado pela realidade.
Sem perceber, acabou seguindo um caminho conhecido.
O restaurante do Pedro.
Estacionou de forma brusca, entrou sem olhar muito em volta e sentou-se no balcão. O cheiro de comida, o burburinho do fim de tarde, os rostos conhecidos — tudo parecia um contraste estranho com o turbilhão dentro dele.
— Dia difícil? — perguntou Pedro, servindo um copo sem que Rogério precisasse pedir.
— Você não faz ideia — respondeu, levando o copo à boca de uma vez só.
Pedro observou em silêncio. Conhecia aquele olhar: não era apenas cansaço. Era conflito.
— Quando a gente perde o controle, costuma doer mais do que quando perde uma briga — comentou, limpando o balcão.
Rogério soltou um suspiro pesado.
— Ela disse não. E eu… não soube ouvir direito.
Pedro arqueou a sobrancelha.
— Então o problema não é ela.
Rogério ficou em silêncio, encarando o copo vazio.
Lá fora, o dia começava a escurecer. E, pela primeira vez desde a viagem, ele entendeu que o que estava em jogo não era posse, nem desejo — era aprender a caminhar ao lado, sem atropelar.
Mesmo que isso exigisse engolir o orgulho.