Capitulo 37

1183 Palavras
O Gosto Amargo do Controle O restaurante do Pedro estava cheio, mas Rogério se sentia sozinho. Sentado no balcão, o copo à frente já não era o primeiro, nem o segundo. Não estava bêbado — estava frustrado. Aquela frustração específica que não nasce da rejeição em si, mas da sensação de ter sido confrontado por algo que ele ainda não sabia administrar: o limite. Pedro observava de longe, respeitando o silêncio. Conhecia Rogério o suficiente para saber que, quando ele falava pouco, pensava demais. — Você não gosta de perder — comentou Pedro, finalmente, enquanto recolhia um prato próximo. Rogério soltou um meio sorriso torto. — Não é isso. — Passou a mão pelo rosto. — Eu não perdi nada. Eu… forcei algo que não devia. Pedro apoiou os cotovelos no balcão. — A mulher disse não? Rogério assentiu. — Duas vezes. — Então ela sabe exatamente o que quer — respondeu Pedro, simples. — E você parece não saber ainda o que fazer quando não é você quem dita o ritmo. A frase acertou em cheio. Rogério encarou o copo, como se ali estivesse a resposta que ele evitava olhar de frente. Na Argentina, tudo parecia mais fácil. Isolados, protegidos pelo anonimato, pelo tempo suspenso da viagem. No Brasil, a realidade tinha voltado com força: cargos, hierarquias, olhares atentos, consequências. E, principalmente, uma mulher que não estava disposta a abrir mão de si para caber no desejo de ninguém. — Eu só queria levá-la para casa — murmurou. — Cuidar. Pedro balançou a cabeça. — Cuidar não é decidir pelo outro. Às vezes é aceitar que a pessoa quer ir sozinha. Rogério pagou a conta, levantou-se e saiu sem dizer muito mais. O ar da noite estava pesado, abafado, como se refletisse exatamente o que ele sentia. Em casa, o silêncio era absoluto. Tirou o paletó, largou-o no sofá, caminhou até a janela. A cidade seguia viva lá fora, indiferente à confusão interna dele. Pegou o celular mais de uma vez, largou, pegou de novo. Discou. Chamou. Lita atendeu após alguns toques. — Oi — disse ela, a voz cansada, mas firme. — Eu queria te ver — foi direto. — Precisava conversar. Olhar no teu olho. Houve uma pausa do outro lado da linha. — Hoje não, Rogério. Ele fechou os olhos. — Eu não estou pedindo nada além disso. — Eu sei. — A voz dela suavizou um pouco. — Mas eu também sei o que acontece quando a gente confunde vontade com necessidade. E eu não posso fazer isso agora. — Você está se afastando? — perguntou, mais baixo. — Não. — Ela respirou fundo. — Estou colocando as coisas no lugar. E você também precisa fazer isso. A resposta doeu mais do que a recusa da carona. — Eu não sou bom em esperar — confessou. — Então talvez seja exatamente isso que você precise aprender — respondeu ela, sem dureza, mas sem ceder. Silêncio. — Boa noite, Rogério. — Boa noite, Lita. A ligação caiu. Ele permaneceu ali, o celular ainda na mão, sentindo algo raro e desconfortável: não era raiva, nem rejeição. Era o confronto com a própria necessidade de controle — e a percepção de que, se quisesse permanecer na vida dela, teria que mudar. Não para possuí-la. Mas para merecer caminhar ao lado. Naquela noite, Rogério dormiu pouco. E, pela primeira vez em muito tempo, entendeu que desejar alguém não lhe dava o direito de conduzir o caminho — apenas de aceitar o ritmo. Manhã Seguinte – Ritmos Diferentes Rogério acordou antes do despertador. O quarto ainda estava escuro, mas a mente já girava em círculos. A frustração da noite anterior voltava em ondas curtas e insistentes: a negativa no ponto de ônibus, o silêncio pesado no restaurante do Pedro, a ligação encerrada com educação firme demais para ser ignorada. O que mais o incomodava não era o “não” — era ter perdido o controle de si mesmo diante dela. Sentou-se na cama, passou a mão pelo rosto e respirou fundo. Raiva de si. Raiva por ter confundido cuidado com insistência, presença com pressão. A imagem de Lita, ereta, segura, dizendo que precisava colocar as coisas no lugar, não saía da cabeça. Aquilo não era afastamento. Era um limite. E limites, ele percebia agora, exigiam maturidade. No banho, a água quente não levou embora o incômodo. Pelo contrário: clareou. Rogério entendeu que, se quisesse continuar naquela história, teria que aprender a sustentar o desejo sem transformá-lo em posse. Vestiu-se em silêncio, mais contido do que o habitual, e saiu para o trabalho com a sensação de que precisava se reconstruir por dentro antes de qualquer gesto. Lita, por sua vez, acordou com uma calma que a surpreendeu. Isadora ainda dormia, espalhada na cama com a tranquilidade de quem confia no mundo. Lita observou a filha por alguns segundos, sentindo o peito aquecer. Preparou o café, organizou a mochila da escola, e, enquanto fazia tudo no automático cuidadoso de mãe, percebeu que estava em paz com a decisão da noite anterior. Não havia culpa — apenas coerência. Ela sabia o quanto Rogério mexia com ela. Sabia também o quanto precisava preservar seus próprios tempos. A tranquilidade vinha exatamente daí: de não ter se traído. De ter dito “não” sem dureza, mas sem recuar. No caminho para o trabalho, recebeu uma mensagem de Roberto confirmando o almoço. Ela respondeu com um “ok” simples. Não era fuga, nem provocação. Era apenas vida seguindo. O almoço foi em um restaurante discreto, de mesas pequenas e luz natural. Roberto chegou com um sorriso aberto, aquele entusiasmo tranquilo de quem admira sem invadir. — Fico feliz que tenha aceitado — disse ele, puxando a cadeira. — Sei que você anda cheia de compromissos. — Estou mesmo — respondeu Lita, sincera. — Mas achei importante a gente conversar. Conversaram sobre livros, sobre a obra, sobre a viagem. Roberto ouviu mais do que falou, como sempre. Em algum momento, comentou: — Você parece diferente. Mais centrada. Lita sorriu, mexendo o café. — Talvez eu esteja aprendendo a respeitar meus próprios limites. Ele assentiu, com admiração tranquila. — Isso é raro. E bonito. Não houve insinuações. Não houve disputas. Apenas um almoço leve, humano, sem jogos. Lita saiu dali com a sensação de que estava no lugar certo — consigo mesma. No outro lado da cidade, Rogério almoçou sozinho. Entre uma garfada e outra, decidiu algo simples e difícil ao mesmo tempo: dar espaço. Não como estratégia, mas como respeito. Pegou o celular, escreveu uma mensagem curta para Lita e apagou. Escreveu outra. Apagou de novo. No fim, guardou o telefone. Algumas coisas não se resolvem com palavras imediatas. Exigem tempo. E, pela primeira vez desde que a conhecera, Rogério aceitou o ritmo dela — mesmo que isso significasse caminhar um pouco atrás, aprendendo a acompanhar sem puxar. Enquanto isso, Lita seguia o dia com serenidade. Sabia que o caminho à frente ainda teria ruídos, conflitos e escolhas difíceis. Mas, naquela manhã, uma certeza se firmava: ela não precisava correr — nem por amor, nem por ninguém.
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