O Espelho Inesperado
Rogério repetia para si mesmo que estava fazendo a coisa certa.
Dar espaço. Respeitar o tempo de Lita. Não confundir desejo com urgência. Ele havia decidido isso com clareza — quase como um pacto silencioso consigo mesmo. Ainda assim, o controle escapava pelos dedos como areia fina. A ideia de não saber onde ela estava, com quem estava, em que estado emocional se encontrava, o corroía por dentro.
Naquela noite, tinha um jantar importante com investidores estrangeiros. Um restaurante elegante na Vila Madalena, escolhido pela discrição e pelo prestígio. Um ambiente onde tudo costumava estar sob controle — inclusive ele.
Vestiu-se com cuidado, ajustou o relógio no pulso, respirou fundo antes de sair do carro. Profissional. Objetivo. Foco, repetiu mentalmente.
Ao entrar no restaurante, o olhar percorreu o salão numa leitura automática do ambiente. Foi então que ele a viu.
Lita estava sentada a uma mesa próxima à janela.
Rogério sentiu o chão faltar por um segundo.
Ela sorria com leveza — um sorriso aberto, sem defesas. Conversava com Roberto, inclinada levemente para a frente, gesticulando com as mãos. Havia algo nela que ele não reconheceu de imediato — ou talvez reconhecesse demais e isso o desarmasse.
Estava linda. Não no sentido que ele costumava ver.
Vestia-se de forma mais solta, elegante sem rigidez. Um vestido claro, tecido fluido, que acompanhava o corpo sem marcá-lo. O cabelo caía de forma natural, sem o coque firme do trabalho. A maquiagem era suave, quase luminosa. Parecia mais jovem. Mais tranquila. Mais… disponível para o mundo.
Diferente de quando estava com ele. Essa constatação foi um golpe silencioso.
Rogério ficou imóvel por alguns segundos, o tempo suficiente para sentir o estômago revirar. Não era ciúme puro — era algo mais profundo, mais desconfortável: a sensação de estar vendo um reflexo que não gostava.
Ela parecia livre. E isso o expunha.
Roberto dizia algo que a fez rir baixo, aquele riso fácil que Rogério raramente arrancava dela. Não por falta de conexão, mas porque com ele tudo sempre vinha carregado de intensidade, de peso, de expectativas.
Ali, Lita parecia leve. Sem pensar, Rogério deu dois passos à frente.
— Lita?
A voz saiu mais alta do que ele pretendia.
Ela virou-se, surpresa. O sorriso permaneceu por um segundo, depois se transformou em algo mais contido, educado.
— Rogério… — disse ela, levantando-se parcialmente. — Que surpresa.
Roberto acompanhou o movimento, claramente confuso.
— Vocês se conhecem? — perguntou, cordial.
— Trabalhamos juntos — respondeu Lita, antes que Rogério dissesse qualquer coisa.
Rogério assentiu, mas a postura denunciava o desequilíbrio interno.
— Eu… — pigarreou. — Não sabia que você vinha aqui hoje.
A frase soou deslocada. Quase uma cobrança — ainda que simples demais para ser chamada assim.
Lita sustentou o olhar dele com calma.
— Eu também não sabia que você vinha — respondeu, sem dureza. — A Vila Madalena não é exatamente pequena, mas acontece.
O silêncio durou um segundo a mais do que deveria.
Roberto percebeu a tensão e tentou suavizar:
— Estávamos falando de literatura — disse, com um sorriso gentil. — Lita tem uma visão incrível das coisas. Uma sensibilidade rara.
Aquilo atingiu Rogério como um lembrete incômodo de algo que ele ainda não conhecia completamente nela.
— Ah — disse ele, curto demais. — Que bom.
O garçom se aproximou, anunciando a mesa reservada para Rogério e os investidores. O momento pedia uma saída elegante. Ele sabia disso. Mas a emoção atravessou a técnica.
— Bom jantar — disse ele, finalmente, olhando para Lita. — Aproveitem.
Não houve escândalo. Não houve p************s. Ainda assim, o clima ficou constrangedor. Um desconforto simples, porém evidente, como uma nota fora do tom numa música bem ensaiada.
Rogério afastou-se com passos firmes, mas por dentro estava desorganizado.
Sentou-se à mesa com os investidores minutos depois, sorrindo, cumprimentando, desempenhando o papel de sempre. Mas a imagem de Lita sorrindo — não para ele — insistia em ocupar espaço demais.
Do outro lado do salão, Lita respirou fundo.
— Está tudo bem? — perguntou Roberto, atento.
— Está — respondeu ela, sincera. — Só… inesperado.
Ele assentiu, respeitando o silêncio por alguns instantes. Depois, retomou a conversa com naturalidade.
— Sabe — disse ele, com cuidado —, eu tenho pensado em um projeto novo. Um coletivo de escrita. Histórias reais, vozes que quase nunca encontram espaço.
Lita o encarou, curiosa.
— Que tipo de vozes?
— Pessoas que carregam mundos dentro de si — respondeu ele. — Que vivem coisas intensas, mas raramente são ouvidas fora do ambiente técnico, profissional. Acho que você teria muito a dizer.
Ela ficou em silêncio, sentindo algo se abrir por dentro.
— Eu não sou escritora mais — disse.
— Ainda — corrigiu ele, com um sorriso leve. — Mas você é alguém que observa, sente e elabora. Isso já é metade do caminho.
Lita sorriu, dessa vez com um brilho diferente — não de flerte, mas de reconhecimento.
— Talvez… — murmurou. — Talvez seja algo que eu precise.
Naquela noite, enquanto Rogério lutava para manter o controle num ambiente que sempre dominou, Lita descobria um novo espaço onde podia existir sem armaduras.
E, sem saber, ambos estavam diante da mesma verdade incômoda:
amar não é segurar. É aprender a não apertar.
Lugares
A conversa com Roberto fluía com naturalidade.
Quanto mais ele explicava o projeto de escrita, mais os olhos de Lita brilhavam. Não era apenas entusiasmo — era reencontro. Havia oito anos que ela não escrevia nada além de relatórios técnicos, e-mails formais e anotações rápidas em agendas. O convite parecia uma porta se abrindo para uma parte dela que tinha sido colocada em silêncio por tempo demais.
— Não é algo pesado — dizia Roberto. — É um espaço de expressão. Sem obrigação de perfeição. Só verdade.
Lita sorriu.
Verdade.
Era exatamente isso que ela sentia falta.
No fundo, aquela proposta não era apenas sobre escrever — era sobre existir fora das etiquetas que sempre tentavam encaixá-la: engenheira, mãe solo, mulher forte, mulher n***a que precisava provar duas vezes mais. Ali, ela poderia simplesmente ser Lita.
Enquanto Roberto falava, um pensamento atravessou sua mente com força incômoda: o que ela tinha com Rogério não cabia naquele espaço de liberdade. Era intenso, sim. Havia carinho, conexão, desejo. Mas também havia peso, hierarquia, olhares externos, ruídos constantes.
Ela sabia, com uma lucidez que doía, que o mundo dificilmente aceitaria aquela relação da mesma forma que aceitaria outras. Já havia sentido isso na pele. Na Argentina, mesmo em meio à conexão genuína que viveram, ela também foi alvo de olhares e comentários cruéis — chegou a ouvir insinuações de que estava ali por interesse ou por algo pior.
Aquilo não se apaga fácil.
E agora, sentada ali, falando de arte, ela percebia o quanto precisava de um espaço que não a colocasse sempre em posição de defesa.