Na mesma noite...
Mais tarde, já na saída do restaurante, o reencontro aconteceu.
Rogério estava próximo ao bar, encerrando o jantar com os investidores. Quando a viu se despedindo de Roberto com um abraço leve e sincero, algo dentro dele se contraiu. Não era apenas ciúme. Era a sensação de estar sendo substituído em um território que ele nem sabia que existia.
— Podemos conversar? — perguntou, aproximando-se.
O tom era controlado demais.
Lita percebeu na hora que aquilo não terminaria em uma troca simples de palavras. Ainda assim, assentiu.
Caminharam alguns metros para fora do restaurante. A rua estava movimentada, mas havia um canto mais silencioso próximo às árvores.
— Você parece outra pessoa quando está com ele — disse Rogério, direto demais.
Lita franziu a testa.
— Eu sou a mesma.
— Não parece — insistiu ele. — Comigo você está sempre… tensa.
Ela respirou fundo.
— Porque com você eu preciso estar atenta o tempo todo.
A frase o atingiu.
— Atenta a quê?
— Ao que falam. Ao que pensam. Ao que pode acontecer com meu trabalho. À minha imagem. À sua também.
Rogério balançou a cabeça, incomodado.
— Então o que a gente tem é um problema para você?
— O que a gente tem é complicado — corrigiu ela. — Não é simples como você quer que seja.
Ele deu um passo mais perto.
— Eu nunca pedi simplicidade.
— Pediu controle — respondeu ela, firme.
O silêncio que se seguiu foi pesado.
— Você acha que eu quero te controlar? — perguntou ele, agora com a voz mais baixa, ferida.
— Às vezes, sim. — Ela sustentou o olhar. — E talvez você nem perceba.
Rogério passou a mão pelo cabelo, claramente irritado.
— Eu estou tentando fazer dar certo.
— E eu estou tentando não me perder — retrucou.
A tensão subiu um grau.
— Você acha que isso aqui é só… — ele fez um gesto vago — algo físico?
Lita hesitou por um segundo. Mas decidiu não suavizar.
— Às vezes parece que é só isso. Porque fora desse espaço, tudo pesa demais.
Ele recuou meio passo, como se tivesse levado um empurrão invisível.
— Então você prefere fingir que não existe?
— Eu prefiro saber qual é o meu lugar — respondeu ela. — E não é vivendo escondida ou dependendo do humor do dia.
Rogério sentiu a raiva misturar-se com frustração.
— Você está transformando isso em algo maior do que é.
— Não — disse ela, calma e firme ao mesmo tempo. — Eu estou enxergando do tamanho que realmente é.
Os dois ficaram em silêncio por alguns segundos. O barulho distante da rua preenchia o espaço entre eles.
— Eu gosto de você — disse ele, por fim. — De verdade.
— Eu sei — respondeu Lita. — Mas gostar não resolve tudo.
— E o que resolve?
Ela respirou fundo.
— Respeito. Tempo. Clareza. E entender que eu não posso viver isso se for para me diminuir ou me esconder.
Rogério a encarou, dividido entre orgulho e entendimento. Não era a resposta que queria, mas era a mais honesta que já tinha ouvido dela.
— Eu não quero que você se esconda — disse ele, finalmente.
— Então não me coloque em situações onde eu precise me esconder — respondeu Lita.
Não houve reconciliação imediata. Não houve abraço.
Houve apenas um acordo silencioso e difícil: eles precisavam entender que sentimento não substitui estrutura. Que desejo não apaga desigualdade. Que conexão não elimina o mundo ao redor.
Quando se despediram, não estavam mais em guerra — mas também não estavam em paz.
Estavam, talvez pela primeira vez, conscientes do lugar que cada um ocupava.
E do espaço que ainda precisariam construir… se quisessem permanecer.