Capitulo 39

628 Palavras
Na mesma noite... Mais tarde, já na saída do restaurante, o reencontro aconteceu. Rogério estava próximo ao bar, encerrando o jantar com os investidores. Quando a viu se despedindo de Roberto com um abraço leve e sincero, algo dentro dele se contraiu. Não era apenas ciúme. Era a sensação de estar sendo substituído em um território que ele nem sabia que existia. — Podemos conversar? — perguntou, aproximando-se. O tom era controlado demais. Lita percebeu na hora que aquilo não terminaria em uma troca simples de palavras. Ainda assim, assentiu. Caminharam alguns metros para fora do restaurante. A rua estava movimentada, mas havia um canto mais silencioso próximo às árvores. — Você parece outra pessoa quando está com ele — disse Rogério, direto demais. Lita franziu a testa. — Eu sou a mesma. — Não parece — insistiu ele. — Comigo você está sempre… tensa. Ela respirou fundo. — Porque com você eu preciso estar atenta o tempo todo. A frase o atingiu. — Atenta a quê? — Ao que falam. Ao que pensam. Ao que pode acontecer com meu trabalho. À minha imagem. À sua também. Rogério balançou a cabeça, incomodado. — Então o que a gente tem é um problema para você? — O que a gente tem é complicado — corrigiu ela. — Não é simples como você quer que seja. Ele deu um passo mais perto. — Eu nunca pedi simplicidade. — Pediu controle — respondeu ela, firme. O silêncio que se seguiu foi pesado. — Você acha que eu quero te controlar? — perguntou ele, agora com a voz mais baixa, ferida. — Às vezes, sim. — Ela sustentou o olhar. — E talvez você nem perceba. Rogério passou a mão pelo cabelo, claramente irritado. — Eu estou tentando fazer dar certo. — E eu estou tentando não me perder — retrucou. A tensão subiu um grau. — Você acha que isso aqui é só… — ele fez um gesto vago — algo físico? Lita hesitou por um segundo. Mas decidiu não suavizar. — Às vezes parece que é só isso. Porque fora desse espaço, tudo pesa demais. Ele recuou meio passo, como se tivesse levado um empurrão invisível. — Então você prefere fingir que não existe? — Eu prefiro saber qual é o meu lugar — respondeu ela. — E não é vivendo escondida ou dependendo do humor do dia. Rogério sentiu a raiva misturar-se com frustração. — Você está transformando isso em algo maior do que é. — Não — disse ela, calma e firme ao mesmo tempo. — Eu estou enxergando do tamanho que realmente é. Os dois ficaram em silêncio por alguns segundos. O barulho distante da rua preenchia o espaço entre eles. — Eu gosto de você — disse ele, por fim. — De verdade. — Eu sei — respondeu Lita. — Mas gostar não resolve tudo. — E o que resolve? Ela respirou fundo. — Respeito. Tempo. Clareza. E entender que eu não posso viver isso se for para me diminuir ou me esconder. Rogério a encarou, dividido entre orgulho e entendimento. Não era a resposta que queria, mas era a mais honesta que já tinha ouvido dela. — Eu não quero que você se esconda — disse ele, finalmente. — Então não me coloque em situações onde eu precise me esconder — respondeu Lita. Não houve reconciliação imediata. Não houve abraço. Houve apenas um acordo silencioso e difícil: eles precisavam entender que sentimento não substitui estrutura. Que desejo não apaga desigualdade. Que conexão não elimina o mundo ao redor. Quando se despediram, não estavam mais em guerra — mas também não estavam em paz. Estavam, talvez pela primeira vez, conscientes do lugar que cada um ocupava. E do espaço que ainda precisariam construir… se quisessem permanecer.
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