O Primeiro Passo
Tati passou o dia inteiro com a sensação de que algo dentro dela tinha mudado de lugar. Não era ansiedade, nem medo — era decisão. Depois de tudo que conversara com Rafael naquela noite no restaurante, percebeu que gostava da honestidade dele, do jeito simples de demonstrar carinho e, principalmente, da paz que sentia quando ele falava. Não era exagero, não era promessa vazia. Era leve.
Rafael era alguns anos mais novo, e em outro momento isso teria sido suficiente para que ela criasse uma barreira automática. Mas havia nele uma maturidade rara, quase silenciosa. Ele escutava sem interromper, opinava sem impor e, acima de tudo, fazia Tati se sentir segura — uma segurança que ela demorou anos para entender que merecia.
O convite para o jantar não foi impulsivo. Foi pensado.
Convidá-lo para seu apartamento era mais do que dividir uma refeição; era permitir que ele conhecesse seu espaço, seu território, sua rotina. Era o primeiro passo concreto de que ela estava, de fato, abrindo uma porta que antes mantinha trancada.
Ela arrumou o apartamento com cuidado, mas sem exageros. Uma mesa simples, duas taças, uma vela pequena apenas para aquecer o ambiente. Nada que gritasse romantismo forçado — tudo que sugerisse naturalidade. A comida era caseira, escolhida por ser reconfortante, não sofisticada. Tati queria verdade, não performance.
Quando Rafael chegou, trouxe um sorriso tímido e uma garrafa de vinho. O abraço inicial foi breve, mas diferente dos outros. Havia intenção ali, um reconhecimento silencioso de que ambos sabiam que aquela noite significava algo a mais.
A conversa fluiu fácil, como se não houvesse esforço para preencher o silêncio. Riram de memórias bobas, compartilharam planos simples e, em vários momentos, apenas se olharam — aquele tipo de olhar que não pesa, mas também não foge. Era ali que o início de um namoro começava a se desenhar: na naturalidade de estar junto sem precisar provar nada.
Depois do jantar, sentaram-se no sofá. A proximidade veio aos poucos, como quem testa a temperatura da água antes de mergulhar. Rafael tocou a mão dela com cuidado, e Tati não recuou. Ao contrário, entrelaçou os dedos nos dele, assumindo para si mesma aquilo que já estava claro: ela queria tentar.
O primeiro beijo não teve pressa. Foi suave, cheio de pausas e sorrisos contidos. Não havia urgência, apenas vontade. A i********e que se seguiu não foi marcada por impulsos descontrolados, mas por descoberta — dois corpos aprendendo o ritmo um do outro, duas pessoas permitindo que o carinho falasse mais alto que o medo.
Naquela noite, Tati não pensou no passado, nem nas frustrações que um dia a fizeram duvidar do amor. Pensou apenas no presente. Em como era bom sentir-se desejada com respeito. Em como era raro encontrar alguém que não tentava ocupar espaço à força, mas o conquistava com cuidado.
Quando Rafael foi embora, já tarde, deixou um beijo demorado na testa dela — gesto simples, mas cheio de significado. Não houve promessas grandiosas, nem declarações precipitadas. Houve algo melhor: a certeza silenciosa de que um começo tinha sido aceito pelos dois.
Tati fechou a porta e encostou-se nela por alguns segundos, sorrindo sozinha.
Não era apenas uma paquera.
Era o primeiro passo de um namoro que nascia devagar, do jeito que ela finalmente estava pronta para viver.
Almoço entre Confissões
O almoço foi ideia da Lita. Um daqueles convites que nascem mais da necessidade de falar do que da fome em si. O restaurante escolhido era simples, acolhedor, com mesas próximas demais para segredos muito altos — o que combinava perfeitamente com aquele trio.
Tati chegou primeiro, óculos escuros ainda no rosto, sorriso fácil demais para passar despercebido. Jho veio logo depois, falante, celular na mão, contando alguma história do trabalho com a empolgação de quem estava vivendo uma fase boa. Lita chegou por último, alguns minutos atrasada, com o olhar carregado e o sorriso ensaiado. Tati reconheceu na hora: algo estava errado.
— Antes de qualquer coisa — disse Jho, puxando a cadeira — eu quero saber tudo. Você tá diferente, Tati. Diferente bom.
Tati riu, tirando os óculos devagar.
— Eu sabia que não ia passar despercebido.
Ela respirou fundo, como quem escolhe bem as palavras.
— Eu e o Rafael… estamos tentando. Não rotulei nada em voz alta ainda, mas é um começo. Um começo de verdade.
Jho abriu um sorriso largo.
— Eu gostei dele. E olha que eu sou chata.
— Ele é tranquilo — continuou Tati. — Maduro. Não tenta me salvar, nem me mudar. Ele só… fica. E isso, pra mim, já é muito.
Lita ouviu tudo em silêncio, mexendo distraidamente no guardanapo. Quando Tati terminou, tocou de leve na mão dela.
— E você? Tá estranha desde que chegou.
Lita suspirou, como se aquele gesto tivesse quebrado uma represa.
— Eu e o Rogério estamos em crise. Daquelas que não dá mais pra fingir que é só cansaço.
O nome caiu pesado sobre a mesa. Rogerio? Quem é esse disse as duas juntas.
— A gente nunca foi exatamente um casal — ela continuou, a voz baixa. — Sempre foi mais… físico. Conveniente. Mas agora ficou insustentável. Ele quer controle, presença, um lugar que eu nunca prometi dar. E eu tô cansada de me sentir errada por não caber no que ele espera.
Jho franziu a testa. Calma você ainda não respondeu quem é Rogerio?
É meu chefe – Lita respondeu.
Em que momento você e seu chefe estava tendo um caso? Tati completou
Eu sentia uma atração por ele, porem nunca havia passado disso, até irmos para argentina e lá acabamos se envolvendo, porem foi apenas sexo e nada mais. Não que eu não queira algo a mais eu quero, porem lá eu já tive que passar como a interesseira que transa com o chefe para ter lugar privilegiado. Não quero isso aqui.
— E você? O que você quer Lita?
Lita demorou a responder.
— Eu quero respirar. Quero voltar a escrever sem culpa. Quero ser vista além do corpo. Mas parece que toda vez que eu tento sair desse lugar, alguém me puxa de volta.
Tati entendeu mais do que Lita dizia. Pensou em Roberto, em Sr. Pereira, nos olhares cruzados, nas tensões silenciosas que a amiga carregava.
— Às vezes a gente se acostuma com o que não exige coragem — disse com cuidado. — Mas isso não quer dizer que seja o que a gente merece.
Lita sorriu de lado, triste.
— Engraçado ouvir isso de você, justo agora que tá se permitindo viver algo novo.
— Talvez por isso mesmo — respondeu Tati. — Eu perdi muito tempo achando que amor sempre vinha acompanhado de dor. E não precisa ser assim. Principalmente quando a gente gosta. Então você precisa saber o que você quer e o que você esta disposta a enfrentar.
O garçom chegou com os pratos, quebrando o clima denso. Por alguns minutos, falaram de coisas leves: trabalho, planos do restaurante, viagens imaginadas. Mas a conversa já tinha cumprido seu papel.
Quando o almoço terminou, as três ficaram ali, mais tempo do que o necessário. Unidas por histórias diferentes, mas pela mesma busca: a de não se perder de si mesmas.
Ao sair, Lita abraçou Tati com força.
— Ver você tentando me dá coragem.
Tati sorriu.
— E te ver questionando já é um começo.
O sol do meio-dia as acompanhou até a calçada. Nenhuma delas tinha respostas prontas. Mas, naquele almoço, algo ficou claro: mudanças estavam em curso — e, pela primeira vez em muito tempo, nenhuma delas estava sozinha para enfrentá-las.